A cor dos honorários

Extraído de: Espaço Vital  -  03 de Novembro de 2009

O jovem advogado - apesar dos poucos anos de profissão e a inexperiência com demandas envolvendo a aplicação do Estatuto da Terra - identificou, na proposta de um parente, uma ótima oportunidade para auferir honorários em valores significativos.

O tio - rico fazendeiro - oferecia ao sobrinho advogado verdadeira sociedade no processo, se ele aceitasse patrocinar a demanda, na qual buscaria o pagamento de dívidas relativas a terras e lavouras de arroz na cidade natal de ambos, no interior do RS.

- A metade do que cobrares será para ti! prometeu o tio.

Consciente das limitações típicas ao início de carreira, o jovem advogado procurou o auxílio de um outro profissional da Advocacia, grande amigo de seu pai. Explicados os detalhes, alinhavado o acerto - os dois travaram um comercial diálogo:

- Meu dileto e novel colega, vou sim te ajudar, será um prazer. A causa não é das difíceis, mas exige afeição com a matéria. Aceito a parceria. Honorários de 25% para cada um de nós.

- Negócio fechado. O senhor faz os prazos e os requerimentos e eu faço as audiências e todo o contato com o cliente e a sustentação oral, se for preciso concordou o rapaz, todo empolgado.

- Está bem. Então vou aguardar o pagamento de parte dos honorários. Estimamos o valor da causa e tu pedes para o teu tio nos adiantar 30%. Ao final, fazemos as compensações e atualizações necessárias - retorquiu o colega idoso, famoso e cancheiro.

- Mas o tio não tem esse dinheiro, o patrimônio dele está quase todo imobilizado. E é certo que ao receber ele vai nos pagar o que combinou.

- Eu sei, conheço a família do teu tio há anos, sei que são cumpridores. Mas não vou transigir; terás que conseguir uma quantia para iniciarmos os trabalhos.

- Doutor, cada um de nós entra com o que já tem e com o que já sabe, não faremos grandes esforços e a recompensa será excelente. E, de qualquer forma, sempre vivemos sem essa quantia, nunca contamos com ela. - Olha, meu jovem, isso tu falas por ti. Respeito tua dedicação e teu espírito de apostador. Mas estou velho, já são quase 40 anos de Advocacia. Não dá para advogar sem cobrar. Sabes como a Justiça gaúcha é demorada, depois ainda tem o STJ pela frente.

O "guri" despediu-se quase calado, pensando no que fazer. A certeza de que a parceria não aconteceria sem a observância da condição imposta dificultava a pretensão de ganhar os almejados honorários. Antes de sair, porém, ainda escutou, como estímulo:

- E se o cliente for amigo ou parente, nem se fala. Vai lá e traz o dinheiro do tio. Advogado velho só escreve se tiver uma colorida fonte de inspiração. E a cor inspiradora, para mim, só pode ser azul... - concluiu reticente o experimentado homem.

- Azul? - pôs-se em dúvidas o jovem.

- Azul, sim! Azul da cor dos meus olhos e azul também da cor das cédulas de 100 reais - arrematou o profissional cancheiro.

A inesquecível nuance coloriu o dia num azul-todo-esperança que, dias depois, se transformou em "cinza nublado".

O tio não concordou com os 30% de antecipação.

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Disponível em: http://www.jusbrasil.com.br/noticias/1992537/a-cor-dos-honorarios