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4 de Março de 2024

A moral ascética platônica

há 11 anos

Ao longo deste texto, exporei a moral ascética presente no pensamento de Platão. Num segundo texto, que ainda será postado, falarei do ascetismo de Schopenhauer e apontarei as semelhanças e as diferenças entre esses dois pensadores. É preciso, inicialmente, esclarecer que o fundamento da ética platônica é o conjunto de teoremas e corolários advindos da distinção entre sensível e supra-sensível.

O ascetismo platônico tem suas raízes no dualismo entre alma e corpo, que é conseqüência direta da descoberta do supra-sensível (segunda navegação) que permeia todo pensamento de Platão. Assim, utilizando-se da descoberta capital feita por Sócrates que foi a alma (psyché), Platão a identifica com o supra-sensível, ao passo que o corpo é o sensível. Dessa forma, para Platão, o corpo é compreendido como o cárcere da alma e, ao mesmo tempo, lugar de sua expiação, conforme podemos perceber no diálogo do Górgias:

“Eu não ficaria admirado se Eurípedes afirmasse a verdade quando disse: Quem pode saber se viver não é morrer e morrer não é viver? E que nós, na realidade, talvez estejamos mortos. De fato, já ouvi também homens sábios dizerem que nós, agora, estamos mortos e que o corpo é um túmulo para nós.”1

Seguindo seu mestre Sócrates, Platão diz que somos fundamentalmente a nossa alma, por isso devemos cuidar dela acima de tudo, pois é o que há de mais importante nos seres humanos. Já o corpo é visto de forma negativa, “é raiz de todo o mal, fonte de amores insanos, de paixões, inimizades, discórdia, ignorância e loucura: e é tudo isto o que traz a alma como morta”.2

Por isso, Platão desenvolve, principalmente no Fédon, o paradoxo da fuga do corpo. Segundo o autor, a alma deve fugir o mais possível do corpo e, portanto, “o verdadeiro filósofo deseja a morte, e a verdadeira filosofia é o exercício de morrer”.3 Esse paradoxo quer significar que a morte é a libertação da alma de seu cárcere (corpo), uma vez que para Platão somente o corpo morre e a alma subsiste. Destarte, se o corpo é um obstáculo à alma por representar o sensível que obscurece a verdade, a morte representa a libertação que o filósofo persegue em vida pelo conhecimento, pois com a morte tem-se uma vida sem obstáculos e véus, uma vida inteiramente unida ao inteligível. Eis uma passagem do Fédon na qual Platão expõe seu pensamento:

“Parece que há um caminho que nos leva, por meio do raciocínio, diretamente à seguinte consideração: enquanto possuirmos um corpo, e a nossa alma permanecer penetrada por essa coisa má, não alcançaremos nunca de modo adequado aquilo que desejamos ardentemente, isto é, a verdade. Com efeito, o corpo nos traz preocupações sem-número em razão da necessidade de alimentá-lo. Além disso, as doenças, quando nos atingem, nos impedem a busca do ser. Mais ainda, ele nos enche de amores, de paixões, de medos, de imaginações de todo o tipo e de vaidades de modo que, como se diz, por sua culpa não nos é possível deter nosso pensamento sobre o que quer que seja. Efetivamente, guerras, tumultos e batalhas não se originam de outra coisa a não ser do corpo e das suas paixões. Todas as guerras nascem por cupidez de riquezas e nós devemos necessariamente procurar as riquezas por causa do corpo, estando nós a serviço das necessidades do corpo. Assim, por todas essas razões, somos desviados da filosofia. O pior de tudo é que quando conseguimos obter do corpo um momento de trégua e conseguimos nos voltar para a pesquisa de alguma coisa, eis que improvisadamente ele se lança no meio das nossas pesquisas e nos perturba, confunde e atrapalha de modo que, por culpa dele, não podemos ver a verdade. Mas está realmente provado que, se quisermos ver alguma coisa na sua pureza devemos desprender-nos do corpo e contemplar só com a alma as coisas em si mesmas. Somente então, como parece, nos será dado alcançar o que vivamente desejamos e do qual nos declaramos amantes, vem a ser o conhecimento supremo: isto é, quando estivermos mortos como mostra o raciocínio, porque quando estamos vivos não é possível. Com efeito, se não é possível conhecer nada na sua pureza por meio do corpo, de duas uma: ou não é possível alcançar o saber, ou será possível somente quando estivermos mortos; pois então a alma estará só e por si mesma, separada do corpo, e antes não. E durante o tempo em que estamos em vida, estaremos, como parece, tanto mais próximos ao saber quanto menos teremos relação com o corpo e comunhão com ele, a não ser na medida estrita de uma necessidade inevitável; e não nos deixaremos contaminar pela natureza do corpo, mas nos manteremos puros do que é do corpo, até quando Deus mesmo não nos liberte dele. Assim, livres da estultície que provém do corpo, nos encontraremos, como é verossímil, com seres puros como nós e conheceremos, na pureza da nossa alma, tudo o que é puro: essa é, muito provavelmente, a verdade. Com efeito, “a quem é impuro não é permitido aproximar-se do que é puro”.4

Portanto, nos diálogos de Platão, como por exemplo o Górgias e o Fédon, a distinção metafísica entre alma e corpo gera uma desvalorização radical do prazer ligado aos sentidos, na medida em que os sentidos (o corpo) aprisionam a alma.

A ética de Platão se encontra, assim, ligada à crença da imortalidade da alma, assumindo uma posição fortemente anti-hedonista. De forma que, viver para o corpo significa viver para aquilo que está destinado a morrer, já viver para a alma, pelo contrário, é viver para aquilo que está destinado a viver para sempre. Por isso, Platão prega uma vida de purificação da alma, por meio de um progressivo desapego do que é corpóreo. Na visão platônica, portanto, afastar-se do corpóreo mediante a virtude e o conhecimento significa fugir do mal que essa dimensão material da existência humana nos causa.

Há de se mencionar ainda o forte componente religioso na obra platônica, uma vez que seguir a virtude e o conhecimento quer dizer assemelhar-se a Deus que é “medida” de todas as coisas. Dito isto, percebe-se como Platão retoma o intelectualismo do qual Sócrates havia sido acusado. A virtude é o conhecimento que permite se assemelhar cada vez mais a Deus. Os trechos abaixo demonstram esse intelectualismo de Platão:

“Antes de tudo, é preciso saber que o homem injusto não é voluntariamente tal”.5

“Todos os maus são, em todo caso, involuntariamente maus; se isso é verdade, a conseqüência necessária que daí deriva é esta.(...) O homem injusto é mau, e o mau é tal involuntariamente; ora, é totalmente ilógico admitir que involuntariamente se cumpra um ato voluntário; quem, portanto, admite que a injustiça é involuntária, considerará que o injusto comete injustiça involuntariamente.”6

“Ninguém é mau por sua vontade, mas o mau torna-se mau por alguma depravada disposição do corpo e por um crescimento sem educação, e estas coisas são odiosas a cada um e lhe acontecem contra a sua vontade”.7

1Górgias, 492 e.

2Reale, Giovanni, História da Filosofia Antiga, Vol. II, págs. 203 e 204

3Reale, Giovanni, História da Filosofia Antiga, Vol. II, pág. 204

4Fédon, 66 b-67 b.

5Leis, V, 731 c

6ibidem, IX, 860 d-e

7Timeu, 86 e.

Filosofia do Direito - v.50

André Gualtieri

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