Busca sem resultado
jusbrasil.com.br
18 de Abril de 2024
    Adicione tópicos

    Ao relacionar desacordo e cultura, esqueça o "bom senso".

    Capítulo 12 do livro "Por Que Discordamos", ainda não publicado.

    Publicado por Thiago Venco
    há 3 anos

    RESUMO

    Bom senso é real... mas não existe! Há padrão universal de boa conduta? A visão unilateral do desacordo cria problemas outra vez. "Bom senso" como tática de controle de entradas e saídas de membros no grupo. O senso comum também é visto como formas dissimuladas de manutenção e mudança de hierarquias em grupos. Não discordamos por sermos diferentes. Somos diferentes porque discordamos. O evolucionismo no desacordo nega a cultura como "saber inútil à sobrevivência".

    DIRETO AO PONTO: Para enxergar melhor o funcionamento do desacordo em nossas vidas, é importante desconfiar das concepções consideradas como sendo "simplesmente naturais".

    Tenho uma crença bem firme, uma verdadeira convicção: bom senso não existe. https://thiagovenco.jusbrasil.com.br/artigos/170009321/bom-senso-nao-existe-habitos-valores-cultura-...

    Antes de iniciar uma provocação saudável (que, se correr bem, culminará na sua total descrença no chamado "bom senso") preciso explicar que essa divertida introdução é um gancho para revisar a relação entre cultura & desacordo. As estruturas ocultas da discordância, conforme apresentarei neste capítulo, podem evidenciar uma potencial conexão entre estudos culturais diversos. Espero contribuir com este campo de pesquisa, conhecido por sua dificuldade de fixar definições resumidas - e consensuais - sobre o que seria, afinal, cultura.

    Retomo: "bom senso" é como Mickey Mouse - os dois são reais, mas não existem (ou o contrário, como queira). Brincadeiras à parte, o assunto é sério e vou contar uma história real e engraçada que ajuda a explicar minha crença na inexistência desse estranho critério de boa conduta, supostamente fundado na "pura razoabilidade, algo que qualquer pessoa de bom senso poderia perceber". Já vi pessoas que considero inteligentes e sábias pedirem "um mínimo de bom senso". Articulistas tratarem de temas urgentes da política e concluírem que "o momento exige bom senso".

    "Como assim, bom senso não existe? No mundo todo se fala de bom senso. Pessoas inteligentes, intelectuais, cientistas, todos mencionam o bom senso sem nenhum constrangimento. Será que sua percepção está falhando?".

    Eis o caso: em 2003 ganhei uma bolsa de estudos do governo japonês, via Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA). Por quatro meses morei nas ilhas de Okinawa, em um alojamento que reunia pessoas de mais de sessenta países em desenvolvimento - de todos os continentes. O refeitório era uma "Torre de Babel": a cada mesa, várias línguas faladas ao mesmo tempo. Lindo. Mas os choques culturais eram inevitáveis. Certo dia, um colega asiático soltou um tremendo arroto durante o almoço. No meu país, arrotar é um tabu. Mas ele nem olhou para o lado: no país dele, seu ato não somente é normal mas quem sabe até polido, elegante. Achei a cena hilária; e libertária! Mas uma outra colega não viu a menor graça: "que nojo! Que porco, esse homem não tem educação, nessa idade arrotar na mesa, que falta de respeito com os outros, não tem um mínimo de bom senso!" - PLIM! Acendeu uma lâmpada imaginária em cima da minha cabeça, como essas das histórias em quadrinhos. "Não tem o quê mesmo"?

    Muitos alunos da JICA vinham de países tão pobres que não tinham roupas "boas" para algumas formalidades. Os estudantes representam suas nações; não é agradável estar maltrapilho numa cerimônia oficial em que todos estão trajados a rigor. Para resolver esse simples problema de "ter ou não ter traje formal", os alunos tinham uma verba para comprar roupas. Para o governo do Japão o dinheiro gasto no país movimenta a economia; para o aluno, a diferença entre um vexame e um dia memorável. Mas como ter bom senso? "Ele precisa de um quilo de bom senso, ou um metro, um litro! No país dele deve estar em falta."

    Você já deve ter compreendido esta parte do argumento: o bom senso não é um objeto concreto - mas sim uma espécie de competência, habilidade, talento, arte, engenho. Uns teriam essa competência mais desenvolvida do que outros. Portanto, o homem que arrotou seria um... incompetente? De modo algum. No país dele, ele teria sido competente. Por acaso nossas habilidades desaparecem, ou se invertem, ao cruzarmos fronteiras? Um jogador de basquete americano quando pisa no Japão começa a jogar mal? Afinal, que "competência mutante" é essa, o "bom senso"?

    Suas ferramentas cognitivas de percepção de risco não mudam dependendo do país em que você se encontra. Mas num novo país, mudam os costumes, a cultura: portanto, mudam os riscos que você irá perceber (com suas faculdades mentais). O mero ato de almoçar na sua cidade não lhe oferece riscos - mas e se você vier para o meu país? Aqui temos algumas receitas bem estranhas...

    Sua percepção de risco se desenvolve em graus maiores e menores: mas é uma habilidade difícil de ser mensurada, difícil de ser qualificada. No entanto é evidente que nossa percepção como um todo pode sofrer com doenças que a abalem, pode sofrer com o estresse do corpo. Mas digamos que a percepção de risco do meu colega de JICA "sem bom senso" estava funcionando como sempre, de forma suficientemente boa naquele dia. O que deu errado então?

    Ora, "o que deu errado" foi apenas o fato consumado: bom senso não existe!

    Mais um exercício de empatia: afinal o que a colega incomodada quis dizer?

    "Você é incapaz de perceber os códigos culturais do meu país? Não sabe o que significa arrotar na mesa na minha terra? Pois te digo: uma ofensa, um ultraje! Pessoas bem educadas procuram adaptar-se ao contexto, entendeu? Respeite quem está ao seu lado, no caso, eu! Pensa que livre-arbítrio é bagunça, cada um fazendo o que bem entende? Nada disso! Sua autonomia precisa ser mais influenciada pelo ambiente, meu caro! Sua percepção de riscos está uma porcaria! Se arrotasse na frente dos meus irmãos, corria o risco de levar um sermão, ou de apanhar!".

    "Viu como é bom ter empatia"? Esse "ter" é a dica de que estou sendo irônico... não se trata de ter empatia, mas sim de praticá-la. Parece que, depois de escutar o ponto de vista dela, faz sentido seu pedido por "um pouco mais de bom senso".

    Mas e se o amigo asiático tivesse respondido para ela nos mesmíssimos termos?

    "Você é incapaz de perceber os códigos culturais do meu país? Não sabe o que significa arrotar na mesa na minha terra? Pois te digo: um elogio, um agradecimento! Pessoas bem educadas procuram adaptar-se ao contexto, entendeu? Respeite quem está ao seu lado, no caso, eu! Pensa que livre-arbítrio é bagunça, cada um fazendo o que bem entende? Nada disso! Sua autonomia precisa ser mais influenciada pelo ambiente, minha cara! Sua percepção de riscos está uma porcaria! Se deixasse de arrotar na mesa das minhas tias, corria o risco de levar um sermão, ou até apanhar!"

    Percepção de risco, adaptação ao meio, autonomia, dissuasão, violência, grupos: todos estes temas, que já discutimos em outros capítulos, em termos de acordos & desacordos, estão presentes no mito do "bom senso".

    A crença e prática do que se nomeia como "bom senso" manifesta todas as características estruturais do desacordo - e nos introduz no estudo das dinâmicas da discordância em grupos.

    O que as pessoas chamam de "bom senso" é a capacidade de perceber e adaptar-se com sucesso aos valores, normas, códigos do grupo (evitando desacordos).

    Capacidade de perceber, naquele contexto, não somente quais os comportamentos desejáveis e indesejáveis, mas também qual a intensidade de trabalho dedicado a manutenção da tendência dominante no grupo: o quanto as pessoas naquele grupo se empenham nos esforços de "recompensar a competência" e "punir a má conduta".

    Sim, eu sei que a expressão "bom senso" pode ser usada em muitos sentidos. Vou falar de alguns antes de prosseguir com o argumento.

    • Bom senso como uma capacidade de estimar a exequibilidade ou viabilidade de uma ação - ou seja, uma pessoa "com bom senso" tem competência para avaliar se as condições do contexto são suficientes ou favoráveis para agir. Ora... não seria isso uma ponderação de riscos? Uma projeção de futuro, uma tentativa de estimar se vale a pena ou não agir nesta situação? Não seria o juízo de "falta de bom senso alheia" uma percepção de riscos nas decisões do outro? Crer que o outro é incapaz de perceber os riscos envolvidos - logo, toma más decisões?
    • Bom senso como temperança, equilíbrio, moderação: valores de intensidade, portanto. Neste uso, note que nesta acepção os problemas de quantidade de esforço empreendido vêm para o primeiro plano. A pessoa com bom senso não exagera, não se exalta, não explode. Lida bem com pessoas destemperadas, nervosas, exaltadas, fazendo as ficar calmas. Note a correspondência desse uso com a abordagem quantitativa do desacordo: como na metáfora dos diferentes graus de febre, as pessoas intuem que manter a intensidade baixa no desacordo é uma estratégia a ser considerada, que "valeria a pena" ser praticada.
    • Também se trata por bom senso a capacidade de uma pessoa falar aquilo que cada pessoa gosta de ouvir. Mediação: a pessoa de bom senso no papel de quem consegue perceber que as pessoas tem objetivos diferentes, culturas diferentes - e tem a capacidade de dosar as forças em jogo, para não acirrar os ânimos, conciliando propostas valendo-se de formas gentis e suaves. Tem a habilidade de ouvir o outro, em especial quem pensa diferente dele. Ouve os dois lados em uma disputa. Consegue destacar o caminho do meio. Consegue notar as tendências do ambiente e manter uma posição independente e conciliadora. Também não deixa de se manifestar, se isso representasse desequilíbrio: quem "tem bom senso" perceberia que a omissão faria a balança pender contra seus próprios interesses.

    Assim, estas e outras acepções da expressão "bom senso" são associadas com qualidades positivas: empatia, inteligência emocional, justiça... "o bem", enfim.

    A visão unilateral do desacordo criando problemas - mais uma vez

    O problema é que a expressão "bom senso" pode igualmente mascarar algo potencialmente "ruim" (digo "ruim" entre aspas para evidenciar que este é um juízo de valor possível - não uma qualidade absoluta, inerente). Quando o bom senso é invocado no discurso, estabelece posições hierárquicas na relação entre as partes. A hierarquização é uma espécie de "ruído fantasma", um tipo de interferência oculta, implícita. Como vimos no capítulo 8, a hierarquia na relação manifesta pontos de vista unilateralistas: uma das partes se sente no direito de definir-se como organizadora da relação, sente-se autorizada a colocar-se como portadora da lógica preponderante. Seu ponto de vista prevalece ou se sobressai ao outro. Neste sentido eu julgaria "ruim" a organização hierárquica da relação.

    O bom senso não existe - e por isso, quando alguém exige o bom senso, mesmo sem perceber o que está fazendo, está plantando uma armadilha hierárquica: supostamente, quem "tem bom senso" teria posição superior aos que "não tem bom senso". Existem muitas outras formas de posicionamento hierárquico:

    • "Os Bem Educados" se comportam melhor que "Os Mal Educados"
    • "Os que Decidem pelo Certo" vencem os "Os que Decidem pelo Errado"
    • "Os que Estudaram" superam os "Os que Não Estudaram"
    • "Os que Percebem Bem" tem vantagem sobre "Os que Percebem Mal"

    Vou contar um outro caso real que ajuda a ilustrar o problema.

    "Uma amiga com três filhos pequenos foi visitar sua mãe, que mora em outra cidade. Ao chegar na casa em que iriam se hospedar, minha amiga percebeu o risco da energia frenética das crianças acabar gerando desconforto nos anfitriões - que já tinham quase 70 anos. Então ela pergunta ao padrasto, que apenas recentemente tinha se casado com a mãe dela: 'você pode me dizer quais são as regras da sua casa, por favor?'. Provavelmente muitos considerariam a pergunta dela como um sinal de bom senso: ela teve a preocupação de se adaptar ao novo ambiente, de checar quais são os costumes locais, com a clara intenção de orientar suas crianças. No entanto, o dono da casa disse o seguinte: 'Ora, aqui não temos nenhuma regra. Apenas usem o bom senso.'.

    Qual" bom senso "ela deveria" usar "? O improvável" bom senso "de crianças de 2, 4 e 7 anos - ou o dela mesmo? Dificilmente sua moral e sua conduta seriam perfeitamente equivalentes a de um homem que nasceu nos anos 40. Aliás, algumas avós são famosas por" liberar geral ": as crianças sobem no sofá com tênis sujos e elas não estão nem aí. Já outras..." Não mexam nos bibelôs da vovó! ".

    Vou parafrasear o que este padrasto disse para minha amiga. Não se trata de fazer uma análise psicológica da pessoa real: este exemplo serve para explicitar os padrões de dinâmicas do desacordo presentes nesta sua atitude.

    "Desculpe, mas não vou facilitar para você, dizendo como espero que se comportem. Vai ter que usar sua percepção de risco para se adaptar ao meu ambiente. Corra o risco e descubra, com sua autonomia, o que considero certo e errado; aceitável e inaceitável; permitido e proibido. Se perceberem bem nosso contexto, ótimo: sua permanência no grupo está garantida. Serão bem recompensados com concordâncias, estímulos, incentivos, ânimo, encorajamento, economia de esforços, enfim. Mas se perceberem mal... vamos discordar, ou seja, vou te gerar riscos em algum grau, para aguçar sua percepção do perigo de quebrar as regras do meu grupo; vou te incomodar, te desencorajar, desestimular, te inibir, até você "acertar" o comportamento que aqui se considera o certo. Ou... adeus!"

    "O bom senso de um não é o bom senso do outro": parece óbvio dito assim, não? Um chefe de tribo de Papua Nova Guiné e uma matriarca húngara discordam sobre o bom senso em se tratando de pintura facial. Quem está certo? Cada um constrói o que é o" seu bom senso " a partir da memória de um conjunto de normas não escritas, tácitas, aprendidas durante anos de rodadas de interação social com seus respectivos grupos (no sentido de rounds, lances, jogadas, turnos). As boas decisões foram sendo selecionadas, filtradas, com o passar do tempo: a mulher húngara fixou a decisão" maquiagem azul não pega bem de dia ". O chefe papuásio fixou que" pinturas amarelas devem ser usadas em ocasiões específicas ".

    Não se trata de um" bom senso universal da maquiagem ", mas sim, de uma pauta de ética da estética: um estudo das decisões plásticas, das escolhas que determinaram certa comunicação visual; uma investigação das consequências práticas das diferentes expressões simbólicas perante o grupo. Lembra-se da proposição que fiz sobre a Ética como campo de estudo, não como código normativo de conduta?

    "ÉTICA: O estudo integrado das decisões tomadas, seus contextos, consequências e responsabilidades."

    Esse caso das diferenças culturais é um exemplo de como essa definição de Ética pode ser" menos arriscada para determinados objetivos "- neste caso, ela não estabelece que um certo e errado a priori. Isso evita a hierarquização entre" civilizados e selvagens ", prática que infelizmente ainda é muito difundida.

    O" bom senso "é tática para controlar entradas e saídas de membros nos grupos

    Caso a conexão do desacordo com o mito do bom senso não tenha ficado totalmente evidente: essa discussão introduz a análise das dinâmicas do discordar e concordar em grupos - que produz resultados práticos muito diferentes do dissuadir e persuadir em pares, somente entre duas pessoas. Os próximos capítulos tem o objetivo de ajudar a compreender o que acontece quando nos associamos a outras pessoas para ameaçar ou oferecer recompensas.

    A decisão autônoma de discordar ou concordar é afetada pela percepção que temos das associações e antagonismos no grupo em que nos encontramos.

    O desacordo faz o trabalho de operar a expulsão de pessoas incompatíveis com a tendência dominante no grupo - evitando ou dissimulando a pura imposição.

    No capítulo 4, com a cena fictícia do desacordo com o grupo de cristãos conservadores, introduzi esta ideia de que o discordar e o concordar estão diretamente ligados aos trabalhos de inclusão e expulsão de membros do grupo.

    O grupo que impõe aos novos membros o" enigma do bom senso "ressalta que se perceba sua hierarquia, para demandar que as pessoas adaptem suas ideias ou comportamentos para poderem pertencer a este grupo. É um tipo de" teste de conhecimentos específicos ", ou uma" prova de capacidade de adaptação às normas invisíveis do grupo ". Está selecionando quem conhece determinadas ideias, ou quem toma as"boas decisões".

    O" bom senso ", por este ângulo, poderia ser visto como um mero apelido para uma tática de associação e dissociação com certos grupos.

    O" bom senso "não existe enquanto conhecimento a priori do mundo. Mas é um fenômeno reconhecível, identificável, por ser uma forma de agir diante do risco que os" diferentes "oferecem para o equilíbrio do grupo. Talvez por isso confundam o bom senso com uma habilidade - afinal, as táticas podem ser bem aplicadas ou mal aplicadas, executadas com mais ou menos competência.

    As" entradas & saídas "são uma dinâmica estrutural da organização dos grupos: elas dão identidade ao conjunto, informam aquilo que o grupo é e o que não é.

    Até o fim do livro, a conexão com a ideia de" luta aritmética "(vide parte 9) se fará bem evidente no estudo do desacordo em grupo. As quantidades de trabalho envolvido se somam: duzentas pessoas discordando de apenas uma representa nada menos do que duzentas ameaças dirigidas a alguém. Cada uma delas irá representar uma demanda maior ou menor de esforço indesejado para o" alvo ". O volume ou intensidade de desestímulos no grupo pode consumir o estoque de energia da pessoa, amplificando sua percepção de riscos, fazendo-a considerar se vale a pena insistir na permanência ou se é hora de sair do grupo.

    É importante lembrar, neste ponto, que as fronteiras entre a imposição à força, pelo contato físico violento, não são tão delimitadas quanto muitos querem fazer crer. O volume de trabalho indesejado criado pelas ameaças não é abstrato ou" conceitual "- ele é concreto e pode ser considerado como uma forma de violência, uma pressão tão grande, uma força de antagonismo que destrói materialmente as condições de sobrevivência de uma pessoa em certo ambiente. Reforçarei, aos poucos, que o slogan" palavras não são violência ", é uma falácia, falsa lógica, justificativa moralista camuflada como obviedade - conveniente só aos agressores que querem dissimular sua violência.

    Senso comum também não existe?" Estados "Vs." Atividades "de desacordo

    Agora dou mais um passo neste processo de solicitar do leitor o desapego de supostos consensos a priori que estruturariam os desacordos. Ao apresentar questionamentos sobre a universalidade do senso comum, sigo aprofundando a diferença entre as abordagens que investigam" estados de desacordo "daquelas que querem entender as" atividades de desacordo ".

    Outra vez, tenho que insistir que não se trata de um capricho teórico. Pode parecer, à primeira vista, mero exotismo que alguém se debruce sobre as implicações de discordar da proposição"a neve é branca"; porém, esta frase é um clássico caso de estudo usado por filósofos para analisar os limites e fundamentos da lógica - mas o leigo acredita ser apenas um óbvio e inofensivo senso comum. No entanto, ao questionar o bom senso, e agora o senso comum, tenho mais de um objetivo prático em tal desconstrução de crenças arraigadas.

    • Para um público geral, no contexto de repensar as estruturas do desacordo, esse questionamento do senso comum serve ao propósito de estimular a renovação do repertório de estratégias suasivas. Um incentivo à autonomia criativa, ao impulso de inventar novas soluções para nossas relações sociais - não só ao dissuadir e persuadir, mas também ao se proteger destas investidas.
    • Já a desconstrução do senso comum em uma perspectiva técnica almeja evitar certos riscos que se apresentam no trabalho de profissionais da mediação de conflitos, como veremos a seguir.

    Vou dar um exemplo de como um"senso comum"pode ser apresentado pelo mediador como suposta"ferramenta conciliadora neutra"- e portanto, como essa falsa aparência de imparcialidade pode agravar riscos numa resolução de disputas. Imagine que um mediador está trabalhando com um casal. Eles gostariam de evitar o divórcio, encontrando formas de reduzir as constantes discussões domésticas. Mas as brigas se avolumaram tanto que eles sequer conseguem mais apontar onde começa e termina uma discussão; são tantas as disputas que apenas fazer uma lista dos conflitos parece difícil. Visualize a cena: no meio da sessão de mediação, o marido alega possuir hábitos diferentes de sua esposa - e que ela insiste em tentar mudá-lo (no entanto, nenhum dos três personagens tem clareza sobre a conexão estrutural das dissuasões com as ameaças). Neste ponto, o mediador fictício decide intervir no diálogo da seguinte maneira - que considero parcial, apesar de pretender não sê-lo:

    "Após ouvir esse último relato do seu marido, peço licença para propor que você, Sra. Helena, atente para o que o Sr. Menelau acabou de dizer. Vou parafraseá-lo, para ajudar a esclarecer e confirmar se compreendemos o sentido do que foi dito. Ora, o Sr. Menelau possui hábitos distintos dos seus. Ele indiretamente nos chama atenção ao fato indiscutível de que ele é um homem e a senhora, uma mulher. Aqui, estamos diante de um senso comum: homens e mulheres são naturalmente diferentes, biologicamente temos nossas particularidades. No século XX, inclusive provamos que nossos genes são diferentes. Portanto, existem características inatas que independem da cultura, da personalidade, do caráter, das opiniões. Por que eu reforço esse ponto, esse senso comum? Pois ele é um ponto pacífico, com o qual todos podemos concordar! Certas diferenças em nossos hábitos são relacionadas à nossa essência masculina ou feminina. Como mediador, creio que pode ser útil focarmos nesses comportamentos. Se pudermos ter um consenso sobre esta parcela de hábitos que são relacionados às diferenças naturais entre homens e mulheres, se conseguirmos pacificar ao menos esta parte dos conflitos, evitando colocar energia nesta parcela dos desacordos, evitando querer que o outro mude estes hábitos que são da sua própria natureza, vamos poupar energia para seguir trabalhando em outras questões mais difíceis, mas que vale a pena tentar mudar: aquelas que dependem das nossas escolhas."

    Percebeu a manobra do mediador? Para tentar resolver um problema de" atividades de desacordo ", ele indicou que acredita que existe um" estado de desacordo "relacionado ao masculino e feminino, ou seja, algo que transcende nossas diferenças contextuais de opinião, que independa das nossas distintas visões de mundo. Com isso, ele quis forçar um consenso:"não vale a pena se esforçar, se desgastar, tentando mudar padrões de comportamento naturais, universais. Ora, não há o que discutir aqui: isso é uma questão de senso comum".

    Mais uma vez, não se trata de descartar o rigoroso estudo dos" estados de desacordo "; o que quero criticar é essa transposição leviana de uma abordagem extremamente complexa (a investigação meticulosa dos tipos de relações entre propriedades" universais "da realidade, em especial, as relações de oposição e choque), com o objetivo de reforçar certas táticas dissuasivas em" atividades de desacordo ".

    Aqui, nos vemos novamente no território do mimetismo; do jogo de aparências, que disfarça a dissuasão apresentando-a como" posição neutra ". Que esconde sua ameaça (estrutural) sob um manto de passividade. Que quer induzir o outro a crer que sua posição pessoal, contextual," na verdade é universal, natural, supra-pessoal ". Que suas crenças, enfim, não são crenças: são" puras verdades ".

    Clifford Geertz, um dos principais antropólogos estadunidenses do século XX, indica que essa" camuflagem ", que disfarça a arbitrariedade do senso comum sob a aparência de unanimidade, pode ser o traço mais marcante deste fenômeno:
    "Há uma série de razões pelas quais tratar o senso comum como um corpo relativamente organizado de pensamentos ponderados, em vez de apenas o que alguém bem vestido e em seu perfeito juízo sabe, deveria levar-nos a algumas conclusões úteis; mas talvez o mais importante seja que que é uma característica inerente do pensamento do senso comum precisamente negar isso e afirmar que seus princípios são veredictos imediatos da experiência, não reflexões deliberadas sobre ela."[1]

    Quando Geertz fala de alguém" bem vestido ", perceba o sarcasmo na fala deste antropólogo, provocando toda a tradição ocidental de seu campo de pesquisa, que por séculos desqualificou o pensamento dos" selvagens nus ".

    Voltando ao exemplo do mediador, ao aplicar o" senso comum "como um apelo ao" consenso à prova de opiniões pessoais ", o mediador fictício escondeu, ou ignora, sua recusa das seguintes crenças: os hábitos específicos compartilhados por certos grupos, enquanto expressões culturais, são selecionados historicamente; são produto (e não origem) das infinitas variações táticas aplicadas na defesa da sobrevivência; são um efeito (e não causa) das estratégias de competição e da cooperação. Este mediador tenta atribuir os diferentes hábitos a um" inatismo "superficial, apoiando-se na ingênua noção de que" a ciência é inquestionável ". Coloca-se como um" realista ", sem revelar os séculos de discordância entre" realistas "e" idealistas "; também mostra-se alheio aos cuidadosos projetos de conciliação dessas duas posições (vide capítulos 2 e 5).

    No trecho a seguir, Clifford Geertz conduz sua crítica ao senso comum fazendo uma distinção entre" estados de desacordo "e" atividades de desacordo "- ainda que sem recorrer a essa terminologia, ele distingue" a análise do senso comum, em oposição ao exercício do mesmo ". Assim, ele separa a investigação da" verdade do senso comum "e volta-se para os conflitos entre diferentes" estratégias de ação em grupo ". O senso comum pode então ser estudado como uma tática dissuasiva dependente de convicções pessoais - e neste uso, nesta atividade, deixa de ter valor de" argumento de autoridade absoluto ", perde seu status de constatação objetiva de fatos fundamentada na" pura realidade ".
    "Os saberes de que a chuva molha e que se deva fugir dela, ou que o fogo queima e não se deve brincar com ele (para mantermos as referências de nossa própria cultura no momento) são amalgamados para abranger um grande reino do que é 'dado e inegável', um catálogo de realidades do grão-da-natureza tão peremptórias a ponto de se forçarem perante qualquer mente suficientemente desanuviada para recebê-las. No entanto, isso claramente não é assim. Ninguém, ou ninguém que esteja funcionando muito bem, duvida que a chuva molhe; mas pode haver algumas pessoas no entorno que questionem a proposta de que alguém deva sair da chuva, afirmando que é bom para o caráter enfrentar os elementos. (...) E os atrativos de brincar com fogo, para algumas pessoas, às vezes, se sobressairão ao pleno reconhecimento da dor que pode resultar do ato. A religião dá seu caso por encerrado com a revelação; a ciência, com o método; a ideologia, com a paixão moral; mas o senso comum se regozija ao assumir que "de jeito nenhum" é um caso particular, mas sim a vida resumida e encapsulada. O mundo é sua autoridade.
    A análise do senso comum, em oposição ao exercício do mesmo, deve começar por redesenhar essa distinção apagada entre a mera 'questão de fato' da apreensão da realidade (ou seja lá como você queira chamar o 'meramente apreender', ou as expressões 'na verdade, realmente, de fato', ou a sabedoria coloquial 'pé-no-chão') e os juízos, apreciações de tudo isso.
    (...) Essa dissolução analítica da premissa não-dita sobre como o senso comum ratifica sua autoridade - 'ele apresenta a realidade pura' - não tem a intenção de enfraquecer essa autoridade, mas de realocá-la. Se o senso comum é tanto uma interpretação da relação imediata com a experiência, um comentário sobre ela (assim como o são o mito, a pintura, a epistemologia, ou qualquer outra coisa), então o senso comum é, tal como eles o são, historicamente construído - e, como eles, sujeito a padrões historicamente definidos, e como eles, sujeito a padrões de julgamento historicamente definidos.
    O senso comum pode ser questionado, disputado, afirmado, desenvolvido, formalizado, contemplado, até mesmo ensinado, e pode variar drasticamente de um povo para outro. Trata-se, em suma, de um sistema cultural, embora usualmente não seja um sistema rigorosamente íntegro, e se assenta na mesma base que qualquer outro sistema desse tipo reside: a convicção, daqueles que o possuem, sobre seu valor e validade. Aqui, como em quaisquer outros lugares, as coisas são o que você faz delas[2].

    Para onde podemos realocar a autoridade do senso comum? Para a realidade concreta das dinâmicas sociais, dos conflitos humanos, dos choques culturais.

    Retomo o jogo de palavras jocoso que fiz no começo deste capítulo: o "bom senso" e o "senso comum" são reais - no sentido de serem fatos observáveis, estratégias suasivas que emergem das dinâmicas de grupo. Mas não existem no sentido da aparência que pretendem transmitir: não se sustentam em fundamentos universais - nem da moral, nem das leis da natureza.

    Essa aparência de "verdade natural" com que se vestem as atividades suasivas esconde a parcialidade ou particularidade das decisões daquele grupo específico. Faço duas breves considerações sobre que tipos de riscos tentamos evitar quando recorremos a esta peculiar tática de camuflagem, que quer fazer o "particular" parecer "universal":

    • O particular pode ser percebido como mais frágil que o universal, uma vez que é inconstante, impermanente, dependente do contexto. Aquilo que é "apenas particular", contextual, subjetivo, pode ser percebido como um risco no sentido de que pode ser relativizado: o valor de um argumento ou de um "imperativo moral" pode mudar se mudarem os critérios, se forem julgados por outros sistemas culturais, como diz Geertz.
    • Por outro lado, assim como no caso do "passivo-agressivo", a máscara da "pura realidade" serve para esconder os jogos de poder do grupo, para que não fique clara a responsabilidade sobre as ameaças ou recompensas prometidas na comunicação (mesmo que elas sejam promessas implícitas, ocultas, truncadas). Ou seja, a aparência "natural" se pretende passiva. Serve para reduzir riscos de contra-ataques; "veja, não se trata da minha opinião, o mundo é como eu digo, não fique bravo comigo, sou apenas o mensageiro que traz a má notícia".

    O mimetismo realizado pela dissuasão ou persuasão que alegam "bom senso" ou "senso comum" constrói uma aparência que comunica riscos relacionados a "consequências naturais" (vide capítulo 8) - ao mesmo tempo que esconde o fato de que a força de seu discurso se fundamenta nas punições e recompensas que seu grupo está disposto a oferecer. Como no exemplo que Geertz dá sobre o fogo e a chuva: o discurso quer fazer parecer que é a natureza que oferece riscos. Mas de fato o que está acontecendo ali é uma comunicação dissuasiva, que quer levar o outro a mudar de decisões, pois alguém vê riscos nelas ("vai ficar doente ao se molhar na chuva / vai se queimar no fogo").

    Não quero com isso dizer que todos que usam a expressão "senso comum" são mentirosos que deliberadamente enganam os outros para obter vantagens. Mais uma vez reforço o aspecto inconsciente de nossas atividades suasivas. Não no sentido de estar desacordado, dormente ou comatoso - mas sim, como diz o psicólogo Carl Gustav Jung sobre o inconsciente:

    É um conceito-limite psicológico que abrange todos dos conteúdos ou processos psíquicos que não são conscientes, isto é, que não estão relacionados com o eu de modo perceptível[3].

    Portanto, é absolutamente plausível que realizemos atividades de desacordo sem termos clareza das estruturas profundas que organizam estas ações (individualmente e coletivamente). Apoiamos grande parte de nossas decisões em saberes com os quais nos relacionamos de forma tácita (implícita, subentendida) - em contraste com os saberes explícitos que operamos com plena consciência. O apelo ao senso comum, como qualquer outra ação suasiva, é uma estratégia funcional, que podemos aprender pela experiência, pela transmissão informal de saberes na vida em sociedade. Observamos outros praticando o "senso comum" e contemplamos os resultados concretos nos diálogos suasivos.

    É interessante que no sarcasmo de Geertz, ao falar dos "bem vestidos", ele revele sua posição moral neste problema. Pois sua demolição conceitual do senso comum não é de forma alguma um relativismo barato (do tipo "todas as opiniões tem valor"), nem uma defesa da amoralidade. Ao contrário: está nos estimulando a treinar o olhar e perceber as estratégias suasivas ocultas. Sua crítica nos ajuda a exercitar a percepção das dinâmicas da "luta aritmética", a observar como elas mobilizam diferentes quantidades de esforços - de modo a formar posições dominantes e subordinadas dentro de um grupo.

    Convida-nos a observar as diferentes decisões e crenças (culturas) sem julgá-las a partir de preconceituosas "tábuas de verdades", ou moralismos disfarçados de "imperativos éticos". Instiga a cautela perante aqueles que, ao julgar e condenar os "outros", os diferentes, agem como se fossem portadores de uma autoridade "natural", que supostamente está acima das críticas.

    Neste ponto, tenha cuidado para não confundir essa postura de desconfiança dos usos suasivos do "senso comum" com a do relativista ingênuo. Não se trata de "abster-se de julgar", ou sustentar que "toda e qualquer crença tem idêntico valor" - mas sim, trata-se de estudar a responsabilidade sobre as consequências de suas atividades suasivas. Trata-se portanto de sustentar seus juízos de valor a partir de sua posição particular, pessoal, de grupo, contextual, histórica. Trata-se de defender sua própria escolha de critérios da melhor forma que for capaz - sem pretender que ela seja inatacável, pois supostamente emanaria de autoridades inquestionáveis.

    Não discordamos por sermos diferentes. Somos diferentes porque discordamos.

    O título acima não precisa ser levado ao pé da letra: desta vez não pretendo defender rigorosamente essa "regra", destrinchando suas potenciais exceções. A diversidade cultural não é causa dos desacordos, mas sim, consequência deles. Neste momento, essa proposição acima serve como uma síntese provocativa que expressa como me posiciono sobre a relação da diversidade cultural com as atividades de discordância: as dinâmicas de persuasão e dissuasão em grupos são determinantes no processo histórico de seleção das decisões que geram as diferenças entre um grupo e outro (Ex.: sua moral, sua estética, suas ferramentas, métodos de trabalho).

    As características estruturais das atividades de discordar e concordar definem as dinâmicas que, historicamente, fizeram com que certos comportamentos e crenças sobrevivessem em alguns grupos e fossem extintos em outros.

    As diferenças não são inerentes aos diferentes povos: são produto das estratégias sociais de defesa da sobrevivência. A atual diferença entre culturas se constituiu, tomou forma e se consolidou sob a pressão de eras e eras de discordâncias e concordâncias. Quero discutir como o objetivo fundamental de discordarmos e concordarmos ("estratégias suasivas usadas para defender o trabalho de seguirmos vivos e/ou de acumular e exercer o poder") pode ser um fator determinante na formação das diferentes identidades de grupos.

    Se os fenômenos que designamos como cultura são melhor compreendidos enquanto efeitos, e não causas, das discordâncias humanas, não há como escapar da constatação de que são indivíduos que criam as soluções para enfrentar problemas típicos da vida (incluindo os da organização coletiva, das dificuldades das relações sociais). Por isso, estritamente falando, a cultura "nasce" em uma pessoa - mas "sobrevive", perdura enquanto estratégia mais apta, na coletividade. É por essa constatação da obrigatória precedência do individual ante o coletivo que apresento como provocação - e não proposição rigorosa - a ideia de que "a diversidade cultural não é causa dos desacordos, mas sim, consequência deles": são as dinâmicas suasivas que selecionam as práticas.

    Ao longo da história, foram sendo selecionadas as diversas formas particulares de lidar com as demandas de competição e cooperação que a vida em sociedade nos impõe.

    Com essas afirmações, no entanto, não pretendo incorrer nem estimular nenhum tipo de "determinismo histórico". Acompanho a crítica que o filósofo Karl Popper faz dos projetos que procuram atribuir um único sentido ou objetivo para toda a história humana; às tentativas de estabelecer leis ou padrões que pretendem fazer mais que interpretações do passado - querem fazer previsões do futuro.

    "Mostraremos, ao estudar as doutrinas naturalísticas do historicismo, que este se inclina a sublinhar a importância da predição como uma das atribuições da ciência. (A esse propósito concordo com o historicismo, embora não creia que a profecia histórica seja uma das tarefas que tocam às Ciências Sociais). Sem embargo, o historicismo sustenta ser muito difícil a predição social, não apenas em razão da complexidade das estruturas sociais, mas, ainda, pela peculiar complexidade que brota da interconexão entre as predições e os eventos preditos.[4]"

    A discussão completa que Popper fará é minuciosa e visa não descartar completamente todas as possibilidades preditivas da ciência. Mas procura diferenciá-las, entender o alcance das diferentes abordagens tendo em conta as características peculiares dos fenômenos que estuda. No caso das atividades suasivas, sem dúvida estou propondo que é possível reconhecer padrões estruturais que nos permitem fazer (em alguma medida, que não pretendo definir aqui) o que Popper chama de “previsões de largo escopo[5]”: por exemplo, podemos prever que no futuro alguém que discorde de outro estará apoiando sua dissuasão numa forma específica de comunicação que procura fazer seu interlocutor perceber riscos - que não percebia antes, ou, se os percebia, atribuir a eles um grau maior de intensidade ("este risco me demandaria mais esforço indesejado do que eu supus inicialmente"). No entanto, não temos como prever seu sucesso; nem qual tática específica ele vai usar (Ex.: argumentos, chantagem, ofensas, ataque à reputação, comunicação não-violenta...); nem a quantidade de trabalho que irá dispender nessa ação; muito menos como o outro vai reagir ao desacordo.

    Este livro é calcado nas premissas de incerteza, imprevisibilidade de comportamentos, aleatoriedade dos fenômenos naturais que afetam nossa sobrevivência (Ex.: uma seca que reduz os alimentos e água disponíveis afeta as relações de competição e cooperação de um grupo). Logo no primeiro capítulo procurei expor como a complexidade da vida na Terra é tão avassaladora que se impõe como um limite à nossa capacidade de "otimizar" as decisões autônomas, de prever quais ações vão reduzir mais riscos (evitar mais esforços indesejados no futuro). É justamente esta complexidade insuperável que defendo estar na origem das incontáveis variedades da expressão cultural; é ela que força os limites de nossa capacidade de adaptação, que exige a invenção de novas estratégias suasivas. A complexidade é uma barreira natural que impossibilita a "perfeita predição"; que nos impede de normatizar em manuais os "processos operacionais padrão" de defesa da sobrevivência.

    Peirce, o fundador do pragmaticismo, considerava-se um "anti-determinista", no seguinte aspecto:

    O que os fatos medidos diretamente da prática científica parecem nos dizer, então, é que, embora o universo exiba vários graus de hábito (isto é, de regularidade parcial, variável, aproximada e regularidade estatística), o universo não apresenta lei determinística. Não mostra diretamente nada como regularidade total, exata e não-estatística. Além disso, os hábitos que a natureza exibe sempre aparecem em vários graus de entrincheiramento ou "congelamento". Em uma extremidade do espectro, temos o comportamento quase semelhante a uma lei de objetos físicos maiores, como rochas e planetas; mas no outro extremo do espectro, vemos nos processos humanos de imaginação e pensamento uma liberdade e espontaneidade quase pura; e no mundo quântico do muito pequeno vemos os resultados do acaso quase puro.[6]

    Investigar o vínculo estrutural entre os estudos do desacordo e da cultura pode ajudar a entender os riscos e contradições de algumas abordagens dos estudos culturais. Por exemplo, facilita a recusa de um tipo de "nativismo" ou "inatismo" cultural, que degenerou em tentativas falidas de associar certos comportamentos a certas "raças", com o objetivo de forçar, de forma mais ou menos sistemática, uma falsa sustentação científica para o racismo[7].

    Também expõe os problemas de sustentar que existam valores estéticos universais - pretendendo talvez justificar a distinção entre "alta e baixa cultura", como se ela não fosse um juízo de valor subjetivo, como se não fosse uma hierarquização arbitrária, mas sim, uma espécie de "diagnóstico de qualidade objetivo" da produção artística. Aliás, definir a cultura pela correspondência direta entre certa "estética" (na acepção de "conjunto de produções ou tradições artísticas de um grupo") é uma abordagem simplória, que não seguirei.

    Não cabe neste livro um panorama completo do pensamento contemporâneo sobre a cultura. Assim, estas breves digressões tem um propósito bem delimitado: instigar que outros prossigam nesta direção, estimular outros a investigar o papel fundamental da dissuasão & persuasão na genealogia das infinitas variedades culturais - e facilitar a interpretação de suas dinâmicas conflituosas.

    Formas dissimuladas de manutenção e mudança de hierarquias em grupos

    Um outro caso que vivi vai introduzir a discussão sobre os conflitos entre os diferentes grupos, ou mesmo entre tendências antagônicas na mesma sociedade:

    "O rapaz chega no barbeiro e senta-se ao meu lado. O barbeiro pergunta como ele quer cortar o cabelo. O rapaz responde apenas: 'social'. Intrigado, o profissional espera em silêncio, para instruções mais específicas. 'Social... socialzinho, sabe? Normal. Não quero inventar moda'."
    Para este rapaz, a estética que ele considera "normal" ou "social" é algo tão óbvio que dispensa maiores explicações. A noção de "inventar moda" corresponde ao risco de infringir a sensibilidade do grupo - enviar uma mensagem discordante e ser considerado anormal. O cabelo diferente do "social" poderia denotar resistência à tendência dominante no grupo, à norma preponderante. O risco é claro: ser penalizado socialmente. A estética informa, antes de qualquer proposição verbal, os valores implícitos, a moral por trás das decisões aparentes. Evidencia a filiação à determinados grupos. A estética que se julga "antissocial" pressupõe o risco de expor-se a questionamentos, piadas, constrangimentos às vezes sutis, ou mesmo violentos. Por isso o controle do corpo (os cabelos, a forma física), e não somente a estética, é analisado por Foucault:
    "Vimos como os processos da repartição disciplinar tinham seu lugar entre as técnicas contemporâneas de classificação e de enquadramento, e como eles aí introduziam o problema específico dos indivíduos e da multiplicidade. Do mesmo modo, os controles disciplinares da atividade encontram lugar em todas as pesquisas, teóricas ou práticas, sobre a máquina natural dos corpos; mas elas começaram a descobrir nisso processos específicos; o comportamento e suas exigências orgânicas vão pouco a pouco substituir a simples física do movimento. O corpo, do qual se requer que seja dócil até em suas mínimas operações, opõe e mostra as condições de funcionamento próprias a um organismo. O poder disciplinar tem por um correlato uma individualidade não só analítica e 'celular', mas também natural e 'orgânica'. [8]"

    Note que quando Foucault fala aqui de "mínimas operações" de controle sobre os corpos, o exemplo do corte de cabelo cai como uma luva. Essa passagem indica que o controle social procura fazer "funcionar" um coletivo, um "organismo" - ou seja, seus objetivos estão mirando a construção de um grupo, que para se diferenciar de outros, exige comportamentos muito específicos. Participantes do grupo interessados na manutenção de sua identidade coletiva executam atividades suasivas para efetivar a disciplina: enquadram e classificam, para exercer seu domínio, para garantir a hegemonia de suas normas (a "normalidade").

    No entanto, ainda que Foucault compile os inúmeros projetos de reproduzir na sociedade a lógica das máquinas, ainda que tenha se debruçado sobre diversas tentativas de transpor o mecanicismo da engenharia para as ciências sociais - para melhor administrar os grupos, gerenciar relações, tornar mais previsíveis os comportamentos - constata-se que na prática as relações conflituosas entre "dominadores" e "dominados" jamais se subjugaram à essa suposta "utopia da automação". Não que os repetidos fracassos de "gestão mecanicista" tenham feito cessar estas tentativas. Ao contrário: tal insistência continua provando a capacidade do ser humano de realizar as mais perversas distopias - como a engenharia do genocídio posta em prática pelo nazismo (peço que o leitor aceite este terrível exemplo e não me demande outros "melhores" ou "piores").

    Portanto, as dinâmicas dos conflitos não podem ser descritas de forma mecânica: a complexidade, o caos, a aleatoriedade, a capacidade humana de inventar novas soluções para se adaptar e sobreviver seguirão "perturbando" as previsões lineares (e frustrando as "profecias historicistas"). Essa ressalva, no entanto, não tem o objetivo de negar que a força bruta exerça um papel indiscutível nos trabalhos de fazer prevalecer certas posições dominantes no grupo - apenas vem lembrar dos riscos de tentar fazer predições exatas a partir desta premissa.

    A seguir discuto um exemplo histórico: os Ingleses na Índia colonial. Tecnicamente, para melhor expor as ideias da Teoria do Desacordo, vou chamar estes ingleses de "subconjunto dos membros de um grupo exercendo uma posição dominante sobre os outros"; ou seja, aquele subgrupo que, contextualmente, demonstrou vantagem na relação (sempre) assimétrica de poder suasivo. O exemplo aqui vem para discutir como esses "ingleses dominantes" seguiram vendo-se forçados a lidar com os desafios da complexidade - ainda que, suponho, desejassem que seus colonos da nação indiana se dobrassem mais docilmente perante suas estratégias de manutenção do poder.

    O pensador indiano Homi Bhabha, professor conhecido por suas proposições no campo da cultura contemporânea, oferece-nos uma chave de interpretação que dialoga fluentemente com esta abordagem do desacordo: sua análise do mimetismo[9] (mimicry) nas relações entre culturas "colonizadoras e"colonizadas". Outra vez o mimetismo se impõe como uma estratégia aplicada em situações de conflitos - aqui, em especial, para lidar com problemas hierárquicos num grupo.

    A" seleção "ou" sobrevivência "desta estratégia mimética ao longo de séculos indica que seu jogo de aparências traz vantagens em relação ao discurso direto, sincero e transparente. Que há interesses que são satisfeitos neste movimento de enganar ou confundir a percepção" correta ". Por quê falo" correto ", entre aspas, insinuando um sarcasmo ou mesmo uma ironia? Pois a ironia é uma das diversas soluções de produção de ambiguidade e duplo sentido que Homi Bhabha aponta - todas elas efetivando uma estratégia de mimetismo que dissimula certas relações de assimetria de poder - ou seja, que procura disfarçar os conflitos entre um grupo dominante e um grupo subordinado.

    Do ponto de vista dos objetivos do poder colonizador, Bhabha indica, com muita perspicácia, que interessa manter uma ambiguidade de" alianças e antagonismos "; ou seja, os colonizados devem ao mesmo tempo ser subjugados como inimigos vencidos (devem obedecer às normas do colonizador) - mas também seria útil que cooperassem de livre e espontânea vontade, como se fossem aliados -" como se fossem ": ser apenas na aparência, pois não são de fato.

    Nesta relação assimétrica, além dos resultados (em termos de recursos materiais) não serem divididos de forma equilibrada como acontece na cooperação, ainda há outro agravante dos conflitos: o colonizador deseja que o colonizado" aprenda os bons modos da colônia e comporte-se adequadamente "- mas jamais, em momento algum, pretende incluir essas pessoas em seu grupo. Por isso o discurso dominante precisa colocar certos limites em si mesmo:"você, colonizado, precisa se comportar como eu quero, mas não muito, não a ponto de você acreditar que é igual a mim. Temos que manter diferenças suficientes entre nós para justificar nossa relação assimétrica de poder".

    Essa incompatibilidade de objetivos, essa incoerência, se não pode ser resolvida de forma lógica (pois admitiria a contradição) e se não pode ser explicitada com toda a clareza (pois atentaria contra os interesses da parte dominante, ao revelar com crueza seu antagonismo, seus mecanismos de exploração e manutenção da hierarquia), pode muito bem ser posta em prática através da ambiguidade do mimetismo; pode dissuadir e persuadir de forma simultânea (Bhabha a chamará de" duplo disciplinador ") tendo o cuidado de ocultar o aspecto inconciliável destes movimentos. Pode se beneficiar do caos das relações coletivas, da complexidade das comunicações, para produzir mensagens ambivalentes, atuando sem sincronia - mas atendendo o objetivo primário de"vencer a competição":

    "A autoridade desse modo de discurso colonial que eu chamei de mimetismo é, portanto, atingido por uma indeterminação: o mimetismo surge como a representação de uma diferença que é em si um processo de rejeição. O mimetismo é, assim, o sinal de uma dupla articulação; uma complexa estratégia de reforma, regulação e disciplina, que "apropria-se" do Outro à medida que visualiza o poder. O mimetismo é também o sinal do inapropriado, no entanto, uma diferença ou recalcitrância que congrega a função estratégica dominante do poder colonial, intensifica a vigilância e representa uma ameaça imanente tanto aos conhecimentos 'normalizados' quanto aos poderes disciplinares. O efeito do mimetismo na autoridade do discurso colonial é profundo e perturbador. Para 'normalizar' o estado ou sujeito colonial, o sonho de civilidade pós-iluminista afasta sua própria linguagem de liberdade e produz outro conhecimento de suas normas.
    (...) É desta área entre mimetismo e escárnio - onde a missão civilizadora e reformadora é ameaçada pelo olhar deslocador de seu duplo disciplinador - que vêm meus exemplos de imitação colonial. O que todos eles tem em comum é um processo discursivo pelo qual o excesso ou deslizamento produzido pela ambivalência do mimetismo (quase o mesmo, mas não exatamente) não apenas 'rompem' o discurso, mas transforma-se em uma incerteza que fixa o sujeito colonial como uma presença 'parcial'. Por 'parcial' quero dizer tanto 'incompleta' quanto 'virtual'. É como se o próprio surgimento do 'colonial' fosse dependente de sua representação sobre alguma limitação ou proibição estratégica dentro do próprio discurso autoritário. O sucesso da apropriação colonial depende de uma proliferação de objetos inadequados que asseguram seu fracasso estratégico, de modo que o mimetismo é ao mesmo tempo semelhança e ameaça.[10]"

    Portanto, ainda que esse mimetismo seja uma tática inconsciente, existem diversas camadas de discursos em andamento, produzindo fixação de certas condutas e crenças (persuadindo para que se mantenham certas semelhanças) e mudança de outras (dissuadindo, por ameaças, o sonho de igualdade). Esses dois discursos se confundem, se misturam para esconder seu sentido. A ironia (dizer o contrário do que diz) e o escárnio (que pode se pretender passivo, por ser" humor, comédia, brincadeira "- mas que julgo um ato" passivo-agressivo ") se apresentam como táticas suasivas, aptas à atender as necessidades da" dupla disciplina ": manter a ambiguidade nas ações simultâneas de integrar ao grupo e expulsar do grupo, mascarando este conflito inerente.

    O mimetismo confunde a percepção sobre o conjunto de acordos e desacordos, aplicando ao mesmo tempo medidas de punições e recompensas, mantendo duas dinâmicas simultâneas - de exclusão e inclusão do grupo - que impedem que se defina, com clareza, se existe ou não um" pertencimento "social.

    A resposta sobre o pertencimento fica sempre em aberto (sim e não), para poder ser manobrada conforme a conveniência do grupo dominante. É uma inclusão parcial, mas sem limites explícitos, formais, de modo que estes limites possam ser alargados ou estreitados conforme o contexto se apresenta.

    Se a cultura define a identidade do grupo, é inseparável das atividades suasivas

    A própria existência do grupo pode ser entendida como estratégia de defesa da sobrevivência e/ou para o acúmulo e exercício de poder. No entanto, apesar de compartilharem esse interesse em comum, é inevitável que os membros do grupo tenham diferentes percepções de risco; tais diferenças são irremediáveis, uma vez que perceber riscos é um esforço de tentar prever cenários futuros (em um ambiente cuja complexidade e incerteza ultrapassa a capacidade humana de fazer predições exatas).

    Vide a proposição 17 da Teoria do Desacordo:

    Há limites estruturais que impedem o consenso pleno, irrestrito. São eles:
    a) É inviável extinguir a assimetria de informação;
    b) É inviável que todo humano expresse qualidades e desempenhos idênticos em suas aptidões cognitivas;
    c) É inviável extinguir os objetivos incompatíveis nas múltiplas relações entre seres vivos autônomos;
    d) É inviável eliminar da Natureza a incerteza, o acaso, o indeterminismo, a imprevisibilidade; portanto, limitando definitivamente a previsibilidade perfeita dos riscos (que são, por definição, eventos futuros).

    Portanto, os grupos humanos estão fadados a lidar com objetivos incompatíveis, choques de interesse. Assim, para que os grupos possam adaptar-se coletivamente à uma realidade incerta, mutante, inconstante e suscetível, destaco o papel do desacordo na luta interna do grupo: uma disputa pela preponderância de certas estratégias (decisões) em detrimento de outras.

    As atividades suasivas são tão determinantes para a manutenção de uma identidade de grupo quanto para seu desmembramento, gerando novos grupos.

    Em determinado contexto ou conjuntura, um conjunto de decisões que"valem a pena"foram historicamente selecionadas por disputas internas em determinado grupo (decisões que preponderaram pois alguns membros trabalharam para fixá-las); a estas, soma-se um outro conjunto, o das decisões" extintas "no grupo - pois" não valiam a pena "(decisões que foram inibidas por meio da dissuasão).

    Voltarei nos próximos capítulos a aprofundar as dinâmicas de formação de tendências dentro de um grupo (como se constrói a predisposição, inclinação, propensão a seguir certas decisões e crenças e não outras). Agora discuto como este fenômeno está relacionado com alguns entendimentos" arriscados "sobre o que vem a ser a cultura.

    Se os trabalhos suasivos realizados em um grupo são fundamentais para a formação de sua identidade - as características que prevalecem ou deixam de prevalecer naquela comunidade - quão fundamentais são o concordar & discordar para as tentativas de definir o que é a cultura? Se aceitarmos que o conceito de cultura deve compreender essa dinâmica de estímulos e desestímulos - que opera, incessantemente, uma disputa pela identidade predominante do grupo (logo, determina na prática a inclusão e expulsão dos membros) - por exclusão, teríamos que questionar certas noções sobre o que é a cultura:

    • Algo que se delimite por conceitos espaciais, como" continental "," nacional "ou" regional ". Se enxergamos os grupos em constante disputa pelas posições hegemônicas, ou seja, se assumimos que os conflitos internos a um grupo são inevitáveis, as fronteiras que supostamente definiriam uma" cultura "fragmentam-se. Seria em vão o exercício de tentar circunscrever uma" unidade cultural coerente "usando critérios geográficos.
    • Idem para os conceitos genealógicos, étnicos. Um mero" choque de gerações "derrubaria esse critério hereditário de cultura; as divergências geracionais são previsíveis, se pensarmos que"mudam as eras, mudam-se os contextos, mudam as estratégias de sobrevivência"- os filhos que vivem num mundo que oferece novos tipos de riscos e isso exige deles novas táticas, novas decisões.
    • Conceitos que nos remetem à concepção de"tradição cultural"- ao menos, à noção ingênua de tradição: práticas delimitadas de forma rígida (como um manual de regras) ou identificadas segundo critérios de duração, permanência no tempo. A visão da cultura enquanto tradição que se cristaliza para perdurar no tempo exige uma posição de permanente antagonismo com todas as forças que demandam mudanças; é uma estratégia do tipo" inabalável ", que se recusa a ceder a quaisquer investidas dissuasivas, que vive em constante trabalho de desacordo.

    Acabo de ouvir esse exemplo:

    "Quando eu era criança, meu pai me obrigou a sair do jardim, onde eu cuidava de minha horta, para assistir um jogo de futebol da seleção brasileira, na copa do mundo. Mas eu não queria ir. Então ele ficou furioso e me disse - 'mas que raio de brasileiro é você, que não segue a tradição do futebol'?".

    Para o pai, segundo seus conceitos geográficos, étnicos e tradicionais de cultura, a recusa do filho representa uma traição à identidade nacional: a simples decisão do filho despertou nele percepções de risco relacionadas com a exclusão do grupo.

    • A palavra" multiculturalismo[11]"(cujo sentido pode variar imensamente em diferentes usos) pressupõe uma classificação de múltiplos grupos distintos. No entanto, esse mero projeto de identificação está sujeito a riscos estruturais. Numa metáfora, o problema da catalogação dos" multiculturalismos "seria algo como tentar descrever um pôr do sol em palavras: uma representação fadada a ser incapaz de transmitir a complexidade do fenômeno, inapta a reproduzir seu movimento constante, um método de fixação de percepções que se mostra inadequado para comunicar as diversas e sutis transições e interações. O multiculturalismo pressupõe uma tentativa de delimitar uma identidade de grupo reconhecível," classificável "(ainda que indiretamente). No entanto, mesmo que procure representar suas contradições e tensões internas, quaisquer ambições de circunscrever identidades de grupo sê veem diante do risco de escapar ao controle, assim como a areia escorre de nossas mãos:
    "Em um único edifício residencial metropolitano poderíamos encontrar dezenas de 'culturas' diferentes - até mesmo dentro de um mesmo apartamento, dentro da mesma família! Muitas delas em flagrante conflito de objetivos: uma 'cultura' vendo risco nas decisões da outra. Ou mesmo com um membro sentindo-se ameaçado pela punição que seu próprio grupo pode lhe causar caso ele decida conciliar com outro grupo - ainda que pontualmente. Estas identidades são móveis: as pessoas mudam de posição, conforme mudam os contextos, os desafios da vida".

    Portanto, para apontar uma e outra cultura, a prática que trabalha com a noção de multiculturalismo depende de criar critérios arbitrários; de convencionar uma forma parcial de delimitar o que caracteriza certa cultura. Como" narrar o pôr do sol ", esta é uma empreitada intrinsecamente inglória: além da dificuldade de caracterizar com estes critérios as correntes internas, as facções, os subgrupos, cada membro estaria permanentemente sujeito a" deixar de pertencer àquela certa cultura ", caso mudasse de posição sobre algum critério classificatório qualquer - como, por que não," brasileiros gostam de futebol "?

    Até mesmo quando o multiculturalismo é aplicado com o propósito de mediar conflitos entre estas" múltiplas culturas ", em busca de uma coexistência pacífica, sua abordagem classificatória cria obstáculos para a negociação: é um risco em si pressupor que as decisões e crenças dos participantes dos grupos (neste caso, as"partes coletivas"da disputa) vão acompanhar a identidade discricionariamente atribuída às"culturas"deles. É arriscado para o mediador esperar que um grupo de pessoas se comporte como uma unidade coerente, de maneira predeterminada, compatível com um conjunto limitado de critérios.

    Para defender que as tentativas de resolver conflitos coletivos a partir de rótulos culturais seriam algo equivalente a" colocar o carro na frente dos bois ", ou a um" cachorro correndo atrás do próprio rabo ", retomo esta proposição: a diversidade cultural não é causa dos desacordos, mas sim, consequência deles. De acordo com essa premissa, a própria resolução de disputas produzirá diversidade cultural, ao ampliar o repertório estratégico e guardar memória sobre novas"rodadas"de alianças e antagonismos.

    O trabalho de negociação que procurará novas estratégias para melhor atender os interesses dos grupos deixa de ser visto numa perspectiva hierárquica, onde uma" cultura "terá que fazer concessões, ceder e abrir mão de sua posição inabalável - tradicional - para fazer cessar os choques com a outra" cultura ".

    Essa mudança de paradigma evita o risco de enxergar algum tipo de perda de" identidade cultural "no processo de mediação dos conflitos entre grupos. Evita também um foco excessivo no caráter competitivo (inconciliável) dos choques culturais. A visão suasiva sobre a cultura pode reduzir o risco de ver na cooperação uma derrota intrínseca; a mudança de posição deixaria de ser moralmente ruim a priori - o juízo de valor será feito caso a caso, dependerá de seu contexto, será uma avaliação particular e não genérica das disputas.

    O evolucionismo no desacordo nega a noção ingênua de cultura enquanto conjunto dos" saberes inúteis "

    Para encerrar este capítulo e fazer o gancho com os dois próximos, escolhi voltar à origem do evolucionismo para indicar potenciais obstáculos ao estudo do desacordo. Na parte 13 discuto a competição e a cooperação, para entender a relação destas estratégias elementares com a estratégia de discordar. Já o capítulo 14 se aprofundará nas dinâmicas suasivas em grupos, analisando os processos de disputa por posições dominantes, descrevendo as estruturas do trabalho feito para que preponderem certas tendências dentro da comunidade.

    O objetivo aqui é analisar posições no desacordo que pretendem fundamentar sua superioridade a partir de posições" naturais "ou mesmo" evolucionistas ".

    Discuto como o problema da hierarquização arbitrária, que humanamente estabelece posições" superiores & inferiores ", afetou as conclusões do pioneiro da teoria da evolução Alfred Russel Wallace (apresento-o devidamente no próximo bloco). Ao falar sobre a evolução dos seres humanos, ele se impõe um difícil contorcionismo retórico: tenta naturalizar sua moral na perspectiva da competição pela sobrevivência. Ou melhor: quer justificar como" essencialmente natural "a prevalência de sua cultura dominante, colonizadora. No entanto, dadas as dificuldades de sustentar cientificamente seu moralismo hierárquico, Wallace precisou recorrer a uma hipótese sobrenatural - o espírito - para conseguir superar as contradições que o novo paradigma evolucionista teimava em expor.

    Estamos todos expostos à mesma dificuldade de compreender a natureza em sua imensa complexidade. Diante desse obstáculo massivo, nós, como seres morais que somos, corremos o risco de descrever o" funcionamento "natureza como se ele refletisse nossos ideais morais: falamos do real como gostaríamos que ele fosse - para uns, a natureza é justa, meritocrática; para outros, injusta e cruel.

    Não me isento do risco de misturar na investigação da natureza do desacordo minhas posições morais, meus conflitos, meu viés cultural - de forma mais e menos consciente. Por exemplo: tenho consciência de o quanto pode ser contestável a ideia da luta pela sobrevivência e da vontade de poder como objetivos fundamentais do humano - e é por isso que aqui deixo a porta aberta para essa discussão entrar. Reconheço, por exemplo, as ressalvas que lembram que o humano também tem objetivos" suicidas ". Sim, eu vejo os riscos de nos desfazermos dos" incômodos "que ferem nossas premissas, como ao classificar tais impulsos de morte como doença, ou como desvio" antinatural ". Volto a esse assunto no próximo capítulo.

    Porém, por uma necessidade prática, preciso confiar que esta premissa seja" suficientemente boa "para desenvolver a hipótese de que o objetivo elementar de permanecer vivo organiza, teleologicamente, o desacordo. Creio que a forma de minimizar esse risco - da minha subjetividade interferir nesta pesquisa - é submeter estas ideias a análise coletiva: não vejo como superar esse problema individualmente, por mais rigoroso que seja meu compromisso com a objetividade. Ir a fundo na compreensão da natureza do desacordo vai exigir uma quantidade de trabalho muito maior do que posso oferecer. Exigirá testes, experimentos, discussões, refutações, contrapontos, complementos... uma tarefa que pode durar séculos, assim como já são quase 200 anos de intensos debates sobre o evolucionismo.

    Quero incentivar o leitor a reconhecer quando a apropriação moralista dos discursos" naturalistas "(ou" realistas ") trabalha sua retórica em cima da dificuldade de estabelecermos as conexões e as desconexões entre:

    A seleção natural das características genéticas transmitidas por hereditariedade - aptidões inatas que se provaram úteis para a sobrevivência ao longo de milhões de gerações;

    A" seleção artificial "(sic) das estratégias de sobrevivência criadas pela inteligência humana, transmitidas por relações sociais. Reproduzidas conforme nosso juízo sobre sua utilidade, seja essa avaliação feita de forma tácita ou explícita;

    A" seleção sobrenatural "(sic), ou seja, aqueles talentos e qualidades que receberíamos de fontes espirituais, por providência divina. Todo tipo de intervenção celestial que favoreceria a vida de certos indivíduos.

    Os biólogos ainda não compreenderam exatamente quais as inter-relações entre as aptidões" de nascença "e as aptidões" adquiridas "ou" desenvolvidas "(como os comportamentos deliberadamente estratégicos). Dou um exemplo pessoal:

    "Enquanto escrevia esse livro aqui na ilha onde moro, repleta de animais e plantas incríveis, percebi em cima do lençol branco da cama uma folha seca, quase preta. No entanto, todos os vidros estavam fechados e o dia sem vento - intuí que era um desses insetos que mimetiza perfeitamente uma folha. Me aproximei, tirei meus óculos (a forte miopia permite enxergar bem objetos próximos, como uma lente de aumento); era um louvaadeus! Mas pude notar que não estava em ação somente o mimetismo "genético", supostamente gerado só por mutações aleatórias: quando eu chegava perto, o animal, percebendo a "ameaça", assumia deliberadamente uma postura corporal para se parecer ainda mais com a folha. Parava de se movimentar; escondia as antenas ao longo do pronoto (seu "pescoço); escondia suas patas traseiras; posicionava as patas frontais junto à cabeça - assumindo a exata forma de um pecíolo com a bainha! Mas quando ele voltava a relaxar diante de mim, assumia a estranha forma de louvaadeus, com seu andar desengonçado, antenas eriçadas. Havia portanto, em seu mimetismo, um componente consciente e proativo, uma evidente percepção de que não é qualquer aparência atende os requisitos desta estratégia."

    Na mesma linha de dúvida sobre uma estratégia ser inata ou deliberada, uma amiga médica que trabalha com saúde pública me relatou a discussão sobre o aleitamento materno ser algo instintivo ou cultural. Para ela, que estuda como as campanhas patrocinadas pela indústria alimentícia/farmacêutica desestimulam a amamentação (e percebe enorme riscos nisso), o argumento "natural" era inquestionável; "a natureza é quem define o que é bom ou ruim para nós e isso para mim é um dogma inquestionável". Eu concordei, considerando a frase dela na perspectiva "além do bem e do mal" da evolução, na perspectiva dos milhões de anos de seleção natural dos mamíferos - mas acrescentei uma segunda premissa: "nós humanos falhamos miseravelmente em nossas definições sobre o que a natureza é, como ela funciona, quais seus objetivos, seu sentido".

    Por quê essa discussão faz parte dos estudos evolucionistas do desacordo? Tenho insistido em chamar as discordâncias de "estratégias" e conectá-las diretamente com a defesa da sobrevivência. Porém, saindo da perspectiva militar da palavra e pensando-a em termos das ações eficazes para cumprir o objetivo de sobreviver, chegamos numa questão crítica: "Que ações dos seres vivos não poderiam ser identificadas como estratégias de sobrevivência?"

    Neste sentido, quais seriam as ações ditas "inúteis", que não contribuem para nos mantermos vivos - seriam as estratégias "ruins", as decisões inaptas? Ou seriam inúteis, "não-estratégicas", as disfunções sistêmicas do nosso organismo, como as doenças autoimunes, o câncer, o envelhecimento? Outra hipótese: estaríamos falando daquelas atividades que apenas consomem nossa energia sem aparente retorno futuro. Ações que não faríamos visando poupar trabalho - quem sabe, como a arte, os esportes, o lazer, o ócio. Porém, já antecipo as discordâncias nesse sentido: "Ora, existem muitos profissionais do esporte; a arte é essencial para a vida; precisamos do lazer para trabalhar melhor na segunda-feira". Recentemente, até o ócio foi investido de uma função estratégica, no best-seller "O Ócio Criativo" do italiano Domenico De Masi: valeria ter tempo de "não fazer nada", para podermos "inventar melhor outras coisas".

    Note que o próprio juízo humano de utilidade - que supostamente observa objetivamente os resultados concretos de uma ação - é invadido pela hierarquização moral: o trabalho do engenheiro é "mais útil" que o do músico?

    Na abertura deste livro eu disse que era "inútil discordar da lua" - mas minha amiga discordou, fazendo a boa ressalva de que seria válida tal discordância enquanto arte, poesia. Outra forma de dizer isso é que discordar da lua não produz consequência alguma, pois não há comunicação, relação entre seres conscientes: com esse tipo de observação objetiva, procuro prescindir do meu juízo de valor pessoal, subjetivo.

    No entanto a valoração (atribuição de valor) de qualquer forma de arte - inclusive, a de discordar da lua - vai depender de critérios arbitrários. Digamos que eu queira sustentar a "utilidade" de uma obra a partir de seu preço de mercado - teria sido a obra de Van Gogh "inútil" enquanto ele viveu, e hoje, "utilíssima", posto que seus quadros valem fortunas? Tal atribuição de valor depende da seleção (subjetiva, arbitrária e pessoal) de certos critérios.

    Essa valoração subjetiva é diferente de constatarmos que a evolução selecionou, por exemplo, os diversos órgãos em comum que os mamíferos possuem: coração, fígado, pulmões. Mas muitos ditos "pensadores" incorreram na tentação de moralizar a seleção natural, atribuindo uma superioridade "orgânica" a certas raças ou povos, reivindicando uma excelência "universal" para certas estratégias, trabalhos; nesta pretensão, ignoram completamente as críticas contemporâneas à tradicional distinção "observar um fato e fazer um juízo de valor"[12] - críticas como a feita pelo filósofo americano Hillary Putnam, que procura lançar luz sobre o quanto são instáveis as bases de nossas premissas epistemológicas (ou seja, sobre como é difícil definir de fato como sabemos o que julgamos saber).

    Com isso, quero mais uma vez indicar problemas de ocultamento de posições hierárquicas; enxergar os conflitos sociais por trás da autoridade "natural" dos discursos científicos e metafísicos; destacar o jogo de forças por trás de posições que se pretendem inquestionáveis (posto que "sobre-humanas"); explicitar os bastidores de alianças e antagonismos em dinâmicas de grupo.

    Nosso juízo examina constantemente o que fazemos, procurando aumentar a eficiência (e a velocidade) da "seleção artificial" das atividades que valem a pena - inclusive, pressupondo o valor do que fazemos perante o sobrenatural, estimando o impacto de nossas escolhas num âmbito além da vida - por exemplo, quando bilhões de pessoas se questionam diariamente se estão "pecando", atentando contra a moral Divina, para avaliar se esses pecados terão consequências na sua vida após a morte.

    Esta valoração também se volta para o passado soluções da natureza que foram extintas, como as longas presas do felino Tigre Dentes de Sabre: para que serviam, qual era sua vantagem, suas desvantagens? Já não temos influência sobre esses acontecimentos; mas seria inútil essa curiosidade, ou seria mais uma forma de tentar selecionar, ainda melhor, quais são as estratégias que funcionam e quais falham na defesa da sobrevivência?

    Com isso proponho um exercício de conscientização sobre o emaranhamento do juízo moral com as observações da natureza - dentro do objetivo específico de humanizar o desacordo, ou seja, enxergar a subjetividade, a pessoalidade de nossos juízos de valor sobre o que é útil ou inútil. Assim, poderíamos enxergar melhor a arbitrariedade das dissuasões e persuasões que se pretendem "mais que humanas".

    Uma premissa desta prática: é limitada nossa capacidade de acerto sobre a "verdadeira utilidade" de algo. Em quê âmbito será feita a verificação dessa verdade? Durante seu tempo de vida na Terra; após eras e eras de seleções e extinções de estratégias de sobrevivência; ou quando revelarmos mais um véu do "Mistério Profundo", vendo como natural o que hoje é sobrenatural?

    Meu ponto aqui não é traçar uma fronteira definitiva que separe os juízos de utilidade das observações ditas "neutras" da natureza; ao contrário. Quero acentuar a dificuldade, a precariedade dessa separação - portanto, meu objetivo é propor que percebamos os riscos nos argumentos "naturais" e "sobrenaturais", em especial, aqueles que o fazem para por um ponto final nas discussões. Aceitar, portanto, a margem de erro em nossas tentativas de compreender a natureza. Nada mais humano do que valer-se dessa confusão para tentar dar maior peso à suas ameaças e promessas - mimetizar o "artificial" sob a aparência do "natural". Não surpreende a tática de ocultar dos outros que nossas percepções são "humanamente parciais".

    A evolução do nosso conhecimento sobre a natureza pressupõe uma enorme quantidade de tentativas: os "acertos & erros" só serão conhecidos a posteriori.

    Faça-se esta pergunta: qual é o humano "evolutivamente superior", Beethoven ou aquele bêbado contumaz que vive no bar perto da sua casa?

    Se você respondeu sem hesitar "Beethoven", considere este problema na pergunta: quem garante que a valoração humana (tão conflitante, tão díspar, inconstante, dessemelhante) tenha exata correspondência com o sentido da evolução? Ora, a própria palavra "sentido" denota um tipo peculiar de atividade humana, que visa organizar e classificar as dinâmicas da realidade - mas que também está sujeita a parcialidade, a limitação cognitiva e as próprias ilusões dos seres humanos.

    Faço duas metáforas para explicar minhas ressalvas à resposta "Beethoven":

    1) Dizer que Beethoven é evolutivamente superior ao bêbado do bar me remete a um cientista que sinta profundo desprezo pelas 999 amostras de um experimento que não levaram ao resultado que o interessava. Como se apenas aquela "1 entre 1000" amostras que expressou algo que satisfaça seus objetivos merecesse o adjetivo "útil"; como se o sucesso de sua investigação não tivesse nada a ver com os 999 erros que, a posteriori, ele rotula como "inúteis".
    2) Todos os milhões de espermatozoides por mililitro de sêmen seriam "inúteis" - menos aquele um, aquele "campeão" que venceu a competição rumo ao óvulo no útero! Um pouco de sarcasmo: "Parece que a seleção natural exagerou nessa quantidade - ora, para quê gastar energia com milhões de tentativas fracassadas? Bastaria ter selecionado melhor as boas competências, os talentos úteis do espermatozoide; assim, precisaríamos de uma só célula reprodutora masculina, como a feminina."

    Estas duas metáforas nos lembram que a quantidade de tentativas variadas e a multiplicidade de estratégias são essenciais para contornar os obstáculos aleatórios, caóticos e complexos da realidade. Quando se faz um juízo utilitário sobre a superioridade de indivíduo ou de um grupo em particular, perde-se a perspectiva da população como um todo, da sobrevivência da espécie inteira.

    Diante da complexidade da existência, qual critério nos permitiria desdenhar das iniciativas supostamente "inúteis"? Seriam imprestáveis também todos os que trabalham com alcóolatras - não me refiro só aos fabricantes de bebida, mas aos assistentes sociais, médicos, psicólogos?

    Vou chamar de "desassossegada" a suposição de que todas as atividades humanas possam ser vistas, em alguma perspectiva, como esforços convergentes com a defesa da sobrevivência. Essa suposição, ainda que suscetível a exceções, tem o mérito de propor que existem riscos na diferenciação a priori da qualidade das estratégias (enquanto tentativas incertas de mantermo-nos vivos), distinguindo arbitrariamente as úteis e as inúteis. Entendo que há uma aptidão "útil" que já foi selecionada pela evolução e transmitida geneticamente por nosso DNA humano: a plasticidade da inteligência do homo sapiens. Graças a essa flexibilidade, percebida a posteriori, conseguimos nos adaptar tão bem. Seguimos criando novas soluções para os incontáveis desafios contextuais da vida em sociedade.

    Procurei apontar os riscos de isolar uma estratégia de todas as outras; de julgar a qualidade de uma "jogada" individual, ignorando o aspecto coletivo do "jogo" da sobrevivência humana. Da mesma forma, é complicado isolar um tipo de prática (Ex.: "andar de patins no parque aos domingos") e dizer que ela não pode ser compreendida como estratégia de sobrevivência. Onde começa uma estratégia social e termina outra? Se eu estivesse indo patinar com um futuro empregador, procurando estreitar meus laços de confiança e conquistar a vaga, então patinar teria sido "útil"? E se por acaso, patinando, eu conhecesse minha futura esposa?

    A macro-estratégia "viver em civilização no século XXI" demanda enorme quantidade de interações sociais; essa interdependência, essa alta frequência de contatos, aumenta os rounds ou rodadas de concordar & discordar. Se de fato é possível que a estratégia de "conseguir o que comer" seja algo solitário como uma caçada, na vida coletiva esse trabalho de "viabilizar a alimentação" é compartilhado; e então essa atividade passa a depender de estratégias de alianças & antagonismos. Cada nova concordância ou discordância vai ser um novo evento no aglomerado de relações sociais.

    Essa massa diária de atividades suasivas torna ainda mais complexo o exercício de distinguir, no cotidiano, o que é efeito da singular estratégia do desacordo.

    Agora começo a discutir uma famosa resposta para os primeiros dilemas do evolucionismo, que pretende conciliar a ciência e o sobrenatural. Pois a origem da hierarquia dita "naturalmente superior" também é atribuída a forças sobrenaturais.

    Em 1858, quando Charles Darwin estava prestes a concluir "A Origem das Espécies", obra inaugural de toda a linha de pensamento que hoje chamamos de evolucionismo, outro naturalista britânico, Alfred Russel Wallace, pediu-lhe que avaliasse um breve artigo científico que havia escrito; para a enorme surpresa de Darwin, seu colega Wallace havia chegado a conclusões praticamente idênticas às suas. No entanto, o que se sucedeu não foi uma triste história de competição pela primazia da descoberta. Ao contrário. Wallace jamais se colocou como um obstáculo para o reconhecimento mundial que Darwin obteve com sua extensa e detalhada defesa da teoria da evolução.

    Mantiveram relações amigáveis e em 1891, Wallace escreveu o livro "Darwinismo: Uma Exposição da Teoria da Seleção Natural com Algumas de Suas Aplicações" - uma revisão das primeiras discussões evolucionistas, 31 anos depois da primeira divulgação formal de suas pesquisas e 9 anos após a morte de Darwin. O último capítulo do livro se chama "O Darwinismo Aplicado ao Homem". Ora, como não podia deixar de ser, a ideia de que os humanos descendem de um ancestral comum aos macacos despertou enormes percepções de riscos, pois colocou em xeque crenças amplamente estabelecidas sobre a criação da humanidade.

    Interessa aqui uma parte específica das reflexões que Wallace faz neste último capítulo: "Prova Independente de Que as Faculdades Matemática, Musical e Artística Não Foram Desenvolvidas Pela Lei de Seleção Natural". Para introduzir meu ponto de vista sobre a relação entre cultura & evolucionismo, primeiro cito um trecho de suas conclusões, antes de analisar os argumentos de Wallace sobre os saberes ditos "culturais" - segundo ele, inúteis para a sobrevivência (logo, não se explicariam pela seleção natural):

    "Os que aceitam minha interpretação das provas ora aduzidas - provas estritamente científicas, em seu recurso a fatos alheios à teoria materialista - admitirão também que a natureza espiritual do homem não está de forma alguma em desacordo com a teoria da evolução, mas segue as mesmas leis e causas fundamentais que fornecem o material para a atuação das forças evolutivas. Essas pessoas ficarão também aliviadas do tremendo peso mental imposto àquelas que veem o homem, tanto quanto o resto da natureza, como produto das forças cegas do universo (...)[13]"

    Note como Wallace desconsidera as fronteiras entre "estados de desacordo" e "atividades de desacordo": seu projeto de defender cientificamente a compatibilidade entre o natural e o sobrenatural está colado no objetivo de aliviar algumas pessoas do "tremendo peso mental imposto" por crenças incompatíveis entre si. Fica evidente o papel suasivo desta comunicação: para compensar o antagonismo trabalho gerado por sua teoria - cujas propostas de mudanças na visão do mundo despertaram percepções de riscos, demandaram enormes esforços indesejados - os argumentos de Wallace servem para manter persuadir certas crenças, reforçando assim algumas alianças sociais.

    Sua retórica racionalista pode ser lida como uma estratégia para melhor persuadir e dissuadir o público, que se sentia tanto fascinado quanto ameaçado pelas ideias evolucionistas. Sua sustentação lógica tem o poder de poupar-lhes esforços e facilitar, simultaneamente, a fixação das crenças na existência do espírito e estimular a manutenção das crenças sobre o papel de Deus na abiogênese (passagem do inanimado ao vivo), assim como do ato divino que nos concedeu a consciência inteligente e da moral (ele inclui a "beleza das artes e ciências" na esfera da moral altruísta).

    Não vou me arriscar, como Wallace, a argumentar cientificamente sobre as atividades específicas que Deus fez ou deixou de fazer na constituição deste fantástico universo que integramos. Interessa neste livro analisar a estrutura de nossas discordâncias; neste sentido, sem dúvida se destacam as incessantes divergências sobre "a natureza da Natureza". Incessantes, pois não há evidência de que estejamos próximos de conhecer a totalidade dos maravilhosos expedientes envolvidos na manifestação desta (esmagadora) realidade - nem sequer há indícios de que nós, humanos, um dia sejamos capazes de conhecê-la em sua plenitude.

    Portanto, o problema que ponho em pauta não é de modo algum a existência ou não de Deus, nem o que Ele faz ou deixa de fazer; mas sim, no contexto do estudo do desacordo, discutir algumas consequências de recorrer a Ele como hipótese ad hoc. Essa expressão do latim, ad hoc ("para essa finalidade") é usada na ciência para o ato de cobrir lacunas num modelo com hipóteses não confirmadas ou "não confirmáveis" - tal como fez Wallace, para evitar que a teoria da evolução fosse desacreditada por parte da sociedade, denotando seu temor de que a teoria não explicasse efetivamente os fenômenos naturais.

    Estas implicações não se limitam aos escritos de Wallace; ao meu ver, certas explicações "divinas", que se propõem a definir racionalmente qual seria o papel de Deus em relações específicas de causa & efeito da realidade, oferecem riscos à evolução da atual concepção que temos da própria Natureza - por Ele criada. O que seria da humanidade se até hoje acreditássemos que as doenças são causadas por "maus espíritos", ou que a Terra é o centro do universo? Creio que a fixação de certas "teses espirituais" nos afastam dos estudos da natureza, da vida, atrasam as pesquisas sobre as dinâmicas sociais. Em especial, vejo riscos nos discursos que alegam poder explicar, com suposta exatidão científica, os "mecanismos" ou o "funcionamento" do sobrenatural, do não observável.

    Ao meu ver, ironicamente, tal fixação de preconceitos seria, valendo me das palavras de Wallace "o produto de forças cegas do universo"... produto da arrogante cegueira humana, cujo apego vaidoso à sua visão limitada só dificulta seu contato com as complexas propriedades naturais desta realidade. Minha sensação: é comum que o humano fique insatisfeito com a perspectiva de ser incessante nosso trabalho de estudar a Natureza, para melhor compreendê-la tal como ela é - em nossa petulância, preferimos por um ponto final nos estudos e descrever a Criação de acordo com aquilo que gostaríamos que ela fosse.

    Retomo o texto de Wallace: um ponto chave de sua argumentação é a ideia de que certas atividades humanas não tenham nenhuma aplicação prática; ou seja, certos tipos de esforço realizado não trazem vantagens claras para a defesa da sobrevivência. Isso coloca a seguinte questão: como tais aptidões (Ex.: talento musical), supostamente inúteis, teriam sido selecionadas ao longo da evolução humana e transmitidas hereditariamente? É uma pergunta interessante para testar os limites do Darwinismo elementar. A resposta de Wallace, no entanto, é tão peremptória quanto é apressada:

    "Os dons especiais que vimos discutindo apontam indiscutivelmente para a existência no homem, de algo que ele não obteve de seus progenitores animais - algo que nos referíamos mais propriamente como uma natureza espiritual, capaz de evoluir sobre condições favoráveis.[14]"

    Nesta frase está pressuposta a ideia de que, se certos "dons" (talentos, aptidões) não foram herdados dos progenitores, teriam que ter surgido em um indivíduo; segundo Wallace, há uma "natureza sobrenatural" atuando na distribuição destes "dons especiais", individuais, na humanidade. Mas quem discorde dessa resposta ficará com o dilema: será que a genialidade musical surge aleatoriamente, por súbitas mutações genéticas - ou sempre esteve latente na constituição de todos os DNA's humanos e assim só floresce "individualmente", devido aos estímulos e incentivos de certos ambientes?

    Aqui não posso me aprofundar nessa discussão: preciso manter o foco naquilo que o texto de Wallace pode contribuir para a compreendermos como o discurso naturalista-metafísico pode produzir opacidade (em oposição à transparência), para esconder por trás de sua "cortina de fumaça" universalista, posições que são individuais, subjetivas, contextuais - logo, indissociáveis de sua "teia" de alianças e desacordos.

    Também escolhi comentar este texto para defender a pertinência de assumir uma linha evolucionista nos estudos do desacordo, mas cuidando para não enganchá-los em problemas já bem conhecidos dessa vertente filosófica.

    Reforço: aqui o objetivo é discutir como as posições hierárquicas - logo, as relações de poder - são continuamente mimetizadas para que aparentem serem "naturais", evitando assim uma série de riscos à manutenção da hierarquia, tais como: questionamentos morais da relação de dominação, a insurgência das minorias, enfraquecimento das retóricas de controle social.

    Wallace incorre nesse mimetismo, ao discutir a teoria da evolução em termos de:

    "raças superiores e inferiores, raças mais civilizadas, bosquímanos, índios, selvagens inferiores, raça mista, homens civilizados, animais inferiores, povos do norte (a quem atribui qualidades superiores, inclusive morais)[15]".

    Os "dons especiais"... perceba a atribuição de valor positivo que Wallace dá para talentos que, contraditoriamente, seriam "inúteis" para nossa sobrevivência. É curioso que, como cientista, ele tenha ignorado tão facilmente a visão da humanidade como um todo, encarando essas experiências criativas numa perspectiva global de processos de tentativa e erro, insistindo na visão fragmentada e tendenciosa do que ele descreve como um "conflito de raças", julgado a partir das posições de seu grupo dominante.

    Engendrar percepções é essência do desacordo. Ironicamente, a própria natureza das relações de poder é escondida por trás da aparência do "natural".

    De que posição hierárquica relativa parte esse juízo de qualidade de Wallace sobre as práticas "inúteis" para a sobrevivência?

    "Com efeito, sabemos que as faculdades humanas mais nobres se fortalecem e se aperfeiçoam pela luta e pelo esforço. Graças à luta incessante contra os obstáculos físicos, em meio às dificuldades e aos perigos, é que a energia, a coragem, a autoconfiança e a laboriosidade se tornaram o traço comum dos povos do norte. Graças à batalha contra o mal moral em todas as suas múltiplas formas é que as qualidades mais nobres da justiça, da compaixão, do humanitarismo e do autossacrifício se engrandeceram cada vez mais no mundo. Criaturas assim adestradas e fortalecidas pelo meio, possuidoras de qualidades latentes aptas a tamanho aperfeiçoamento estão seguramente destinadas a uma existência superior e duradoura[16]".

    Existência superior e duradoura? Wallace não podia supor que no século XXI as tecnologias criadas por aqueles que ele chama de "povos do norte" nos exporiam ao risco de extinção total da humanidade. Aquecimento global, poluição das águas potáveis, deterioração da camada de ozônio, micro detritos plásticos no oceano... sem contar com o risco de uma guerra nuclear. Ora, caso se cumpra esse cenário apocalíptico, não serão os "bosquímanos", "silvícolas" e "indígenas" os responsáveis por esta inaptidão para a sobrevivência no planeta Terra - mas sim, justamente, os alegadamente "nobres", "civilizados" e "humanitários".

    Com esses comentários não quero incorrer no mesmo erro de Wallace e estigmatizar povos inteiros; meu objetivo é demonstrar, com este caso extremo, a gravidade do erro de equiparar juízos de valor (balizados por certa moral de grupo) a interpretações da natureza, "desumanizando" o fundamento de sua valoração, apresentando-a como se fora valor absoluto da realidade.

    Mesmo tendo feito expedições [17] pelo território que hoje denominamos de Brasil, escapou a Wallace a percepção da exímia adaptação que garantiu que as culturas nativas sobrevivessem, por séculos, em um ambiente tão hostil ao "homem civilizado" quanto a floresta amazônica, valendo-se de suas próprias estratégias.

    Com a palavra, o xamã Yanomami Davi Kopenawa:

    "Hoje, os brancos acham que deveríamos imitá-los em tudo. Mas não é o que queremos. Eu aprendi a conhecer seus costumes desde a minha infância e falo um pouco a sua língua. Mas não quero de modo algum ser um deles. A meu ver, só poderemos nos tornar brancos no dia em que eles mesmos se transformarem em Yanomami. Sei também que se formos viver em suas cidades, seremos infelizes. Então, eles acabarão com a floresta e nunca mais deixarão nenhum lugar onde possamos viver longe deles. Não poderemos mais caçar, nem plantar nada. Nossos filhos vão passar fome. Quando penso em tudo isso, fico tomado de tristeza e de raiva. Os brancos se dizem inteligentes. Não o somos menos. Nossos pensamentos se expandem em todas as direções e nossas palavras são antigas e muitas. Elas vêm de nossos antepassados. Porém, não precisamos, como os brancos, de peles de imagens para impedi-las de fugir da nossa mente. Não temos de desenhá-las, como eles fazem com as suas. Nem por isso elas irão desaparecer, pois ficam gravadas dentro de nós. Por isso nossa memória é longa e forte.[18]"

    Percebe o Risco?


    [1] Geertz, Clifford. "Common Sense as a Cultural System." The Antioch Review 33, no. 1 (1975): 5-26. doi:10.2307/4637616.

    [2] idem.

    [3] JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2009

    [4] POPPER, Karl. A Pobreza do Historicismo.

    [5] idem

    [6] BURCH, Robert, "Charles Sanders Peirce", The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Spring 2021 Edition), Edward N. Zalta (ed.), forthcoming URL = <https://plato.stanford.edu/archives/spr2021/entries/peirce/>.

    [7] HOLANDA, Maria Auxiliadora de Paula Gonçalves. Contribuição da ciência na elaboração de teorias racistas no séc.XIX, e seus efeitos nas relações raciais no Brasil.

    [8] FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir.

    [9] BHABHA, Homi. Of Mimicry and Man: The Ambivalence of Colonial Discourse.

    [10] Idem

    [11] Wikipedia contributors, "Multiculturalism," Wikipedia, The Free Encyclopedia, https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Multiculturalism&oldid=852104475 (accessed July 26, 2018).

    [12] PUTNAM, Hillary. Reason, Truth, and History. Cambridge: Cambridge University Press, 1981. 2004 paperback: ISBN 0-521-29776-1

    [13] WALLACE, Alfred Russel. Darwinismo: Uma Exposição da Teoria da Seleção Natural com Algumas de Suas Aplicações.

    [14] idem

    [15] idem

    [16] idem

    [17] WALLACE, Alfred Russel. Viagens pelos rios Amazonas e Negro

    [18] KOPENAWA, Davi. ALBERT, Bruce. A Queda do Céu. Cap. 17: Falar Ao Branco.

    • Sobre o autorcriador do www.1acordo.com
    • Publicações50
    • Seguidores312
    Detalhes da publicação
    • Tipo do documentoArtigo
    • Visualizações238
    De onde vêm as informações do Jusbrasil?
    Este conteúdo foi produzido e/ou disponibilizado por pessoas da Comunidade, que são responsáveis pelas respectivas opiniões. O Jusbrasil realiza a moderação do conteúdo de nossa Comunidade. Mesmo assim, caso entenda que o conteúdo deste artigo viole as Regras de Publicação, clique na opção "reportar" que o nosso time irá avaliar o relato e tomar as medidas cabíveis, se necessário. Conheça nossos Termos de uso e Regras de Publicação.
    Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/artigos/ao-relacionar-desacordo-e-cultura-esqueca-o-bom-senso/1167519802

    Informações relacionadas

    Bruno Pamponet Kuhn Pereira, Advogado
    Modeloshá 5 anos

    Defesa Tribunal de Contas

    Thiago Venco, Diretor Geral
    Artigoshá 9 anos

    "Bom Senso" não existe. Hábitos, valores, cultura, escolhas éticas, estéticas: é possível listar os "certos &amp; errados"?

    1 Comentário

    Faça um comentário construtivo para esse documento.

    Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)

    Quando alguém pede bom senso, ela quer dizer que você está errado, ela só não sabe dizer COMO você está errado.

    Quando me falam de bom senso, razoabilidade, proporcionalidade... Já sei, a pessoa não sabe argumentar e parte para a subjetividade. Como contra argumentar com algo que depende do indivíduo? continuar lendo