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18 de Maio de 2024

ESG e as possibilidades para pessoas Trans e Travestis

Uma esperança de inclusão no mercado de trabalho formal para população LGBTQIAPN+

Publicado por Andrew Benzaquen
ano passado

ESG E AS POSSIBILIDADES PARA PESSOAS TRANS E TRAVESTIS

MAS O QUE É ESG?

ESG (Environmental, Social and Governance) é uma abordagem de investimento que se concentra em considerar fatores ambientais, sociais e de governança ao avaliar as empresas. A ideia é que as empresas que se preocupam com questões ESG serão mais sustentáveis ​​e, portanto, mais rentáveis ​​a longo prazo.

Fatores ambientais incluem questões como emissão de carbono, eficiência energética e conservação de recursos naturais. Fatores sociais incluem questões como diversidade, inclusão, condições de trabalho e relações com a comunidade. Fatores de governança incluem questões como transparência, ética, controle de risco e compliance.

Os investidores estão cada vez mais interessados ​​em investir em empresas que se preocupam com questões ESG, pois acreditam que essas empresas serão mais bem-sucedidas a longo prazo. Além disso, investir em empresas com práticas ESG pode ajudar a impulsionar mudanças positivas na sociedade e no meio ambiente.

É importante notar que nem todas as empresas são iguais em termos de sua abordagem ESG, cada empresa considera mais ou menos alguma letrinha dessa prática. Logo poderemos ter uma empresa que investe muito em Governança e pouco no Social, e vice e versa. Além disso, é importante lembrar que o investimento em empresas com práticas ESG não garante retornos financeiros, mas pode ser uma forma de alinhar seus investimentos com seus valores e objetivos de longo prazo, que abordaremos mais a frente a relação de marca e consumidores conscientes.

ESG E SUA RELAÇÃO COM OS DIREITOS HUMANOS NO GERAL

Os direitos humanos são princípios fundamentais que asseguram a dignidade e o bem-estar de todas as pessoas, cláusula pétrea da nossa Constituição CRFB/88. Isso inclui direitos como liberdade de expressão, direito à educação, direito à igualdade de gênero e direito à vida. As empresas também têm um papel importante a desempenhar na proteção e promoção dos direitos humanos, tanto em suas operações quanto em suas cadeias de fornecimento.

Quando se considera a questão dos direitos humanos no contexto ESG, os investidores podem avaliar se uma organização está tomando medidas adequadas para garantir que a dignidade da pessoas humana seja respeitada em suas operações e cadeias de fornecimento. Isso inclui questões como trabalho infantil, discriminação, violência, exploração, falta de equidade e igualdade.

"...temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. ” (Boaventura de Sousa Santos)

Além disso, os investidores podem avaliar se uma empresa está engajada em atividades sociais para promover e proteger os direitos humanos, como o desenvolvimento de programas de diversidade e inclusão, políticas de remuneração justa e práticas de transparência.

E NO BRASIL, COMO ESTÁ O CAMINHO DE IMPLEMENTAÇÃO DE PRÁTICAS DE ESG?

A abordagem de investimento ESG vem ganhando cada vez mais importância no Brasil nos últimos anos. Isso se deve ao crescente interesse dos investidores em alinhar seus investimentos com seus valores e objetivos de longo prazo, incluindo questões ambientais, sociais e de governança.

No Brasil, ainda há muito espaço para o crescimento do investimento ESG. Enquanto em países mais desenvolvidos, o investimento ESG já é uma prática comum, no Brasil ainda é relativamente novo. No entanto, temos visto um aumento significativo na procura por fundos e ações que se enquadrem nessa abordagem.

Além disso, a regulamentação do mercado financeiro brasileiro também tem evoluído para incluir considerações ESG. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tem trabalhado para desenvolver regulamentos e diretrizes para orientar as empresas e investidores no uso dessas práticas, que também podem ser encontradas como Ambiental, Social e Governança (ASG).

Ainda assim, é importante notar que há desafios a serem enfrentados no Brasil para o pleno desenvolvimento do investimento ESG, incluindo a falta de transparência e dados confiáveis sobre as práticas das empresas. No entanto, com o crescente interesse dos investidores e a evolução regulatória, espera-se que o investimento ESG continue a crescer no país.

O QUE AS PESSOAS TRANS E TRAVESTIS TEM A GANHAR COM AS PRÁTICAS DE ESG?

Antes de adentrar sobre a o S de ESG e sua relação com pessoas Trans e Travestis é importante contextualizar como é o cenário de empregabilidade desse grupo atualmente.

As pessoas Trans e Travestis enfrentam desafios significativos na busca por emprego e no ambiente de trabalho. A discriminação e a falta de aceitação são comuns, levando à exclusão desses indivíduos do mercado de trabalho formal e na maioria das vezes destinando a prostituição, marginalidade ou economia criativa (Economia Solidária) como as únicas formas de sobrevivência dentro da seara de geração de renda para essa população, em todas as opções sempre dentro de um contexto precário e de muita exploração. Isso pode ter um impacto devastador na vida dessas pessoas, afetando sua segurança financeira e bem-estar geral.

Uma das principais barreiras para a empregabilidade de pessoas trans e travestis é a discriminação no processo de seleção (recrutamento). Muitas vezes, os currículos dessas pessoas são descartados simplesmente por conterem informações que indicam sua identidade de gênero e/ou orientação sexual. Além disso, as entrevistas de emprego podem ser desconfortáveis e discriminatórias, levando a pessoas trans/travesti a esconder sua identidade para serem contratadas, caso tenham o privilégio da passibilidade (quando uma pessoa Trans é lida como uma pessoa Cisgênero).

Outra questão importante é a falta de políticas de inclusão e de recursos para essas pessoas no ambiente de trabalho. Muitas empresas não têm políticas de uso de banheiros e vestiários inclusivos, o que pode ser uma fonte de stress e desconforto. Além disso, poucas empresas oferecem treinamento para seus funcionários sobre a inclusão, o que pode levar a comportamentos discriminatórios, microagressões e violências psicológicas.

No entanto, existem passos que podem ser tomados para melhorar a empregabilidade de pessoas trans e travestis. As empresas podem implementar políticas de inclusão e diversidade, incluindo a formação de funcionários sobre a inclusão de pessoas trans. Além disso, as empresas podem ser transparentes sobre suas políticas e práticas, e se esforçar para ser um ambiente seguro e inclusivo para todos os funcionários, inerente a sua identidade de gênero, orientação sexual, cor, classe e todas as variáveis discriminatórios que permeiam o mundo do recrutamento de mão de obra.

É importante lembrar que a inclusão desse grupo no mercado de trabalho é uma questão de justiça e direitos humanos. Todos merecem oportunidades iguais e acesso a empregos seguros e dignos. Ainda temos muito a fazer para garantir que essa seja uma realidade para pessoas T’s em todos os lugares.

Dentro do fator social (S), a inclusão de pessoas trans e travestis no mercado de trabalho é uma questão importante a ser considerada. As pessoas transgênero enfrentam desafios significativos no mercado de trabalho, incluindo discriminação, desemprego e renda baixa. Isso pode ser devido a estereótipos e preconceitos, bem como falta de políticas e práticas inclusivas nas empresas, como já explanado nesse capitulo.

Quando se considera a questão da inclusão de pessoas trans e travestis no contexto ESG, os investidores podem avaliar se uma empresa está tomando medidas adequadas para garantir que essas pessoas tenham acesso igualitário a oportunidades de emprego e desenvolvimento de carreira. Isso inclui questões como diversidade e inclusão, políticas de igualdade de gênero, e sensibilização sobre a comunidade LGBTQIAPN+.

Algumas empresas estão se esforçando para proporcionar ambiente de trabalho inclusivo, incluindo a oferta de benefícios para tratamentos de transição de gênero, e proporcionando treinamento para seus funcionários para sensibilizar sobre a comunidade trans, travestis.

É importante reforçar que o investimento das empresas com práticas ESG são relevantes e agregam valor aos produtos e serviços, mesmo que não garanta diretamente retornos financeiros, mas pode ser uma forma de alinhar seus investimentos com seus valores e objetivos de longo prazo e também contribuir para a promoção de uma sociedade mais justa e igualitária.

O caminho para pessoas trans e travestis na busca da empregabilidade formal passa também pela emancipação do perfil dos consumidores das grandes marcas. Hoje vivemos em uma sociedade que tem o consumidor seletivo, aquele que escolhe cuidadosamente os produtos e serviços que compra, levando em conta fatores como qualidade, preço, marca, impacto ambiental e social. Eles são conhecidos por serem conscientes e informados sobre as suas escolhas de compra e tendem a valorizar a sustentabilidade e a responsabilidade social das empresas. Eles também costumam ser mais propensos a pagar mais por produtos de alta qualidade e éticos, e são menos influenciados por promoções e descontos. Como resultado, as empresas estão cada vez mais se esforçando para atender às expectativas dos consumidores seletivos, oferecendo opções mais sustentáveis e éticas.

Há esperanças de mudar esse paradigma.

“É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…” (FREIRE, 1992, s. p.).

É nessa “alça” do esperançar de Paulo Freire, que podemos depositar nossas crenças de pequenos passos à frente para inclusão de pessoas LGBTQIAPN+, em especial as pessoas T’s, para uma empregabilidade formal e com ambiente de trabalho seguro, harmonioso e diverso.

Andrew Carl Diniz Benzaquen

Advogado, Gestor de Ti e militante dos Direitos Humanos

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA:

SANTOS, Boaventura de Sousa. Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitanismo multicultural. Introdução: para ampliar o cânone do reconhecimento, da diferença e da igualdade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 56.

EURONEXT N.V. Guidelines to issuers for ESG reporting. Paris, 2020. Disponível em: https://www.euronext.com/en/news/esg-guidelines-for-listed-companies . Acesso em: 29 jan. 2023.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2006 [original de 1992].

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