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20 de Julho de 2024
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    Mercado de trabalho e a desigualdade de gênero

    Os reflexos da divisão sexual do trabalho e a segregação ocupacional.

    Publicado por Gabriela Medina
    há 3 anos

    A divisão sexual do trabalho, e a construção histórica/social de que a mulher é responsável pelo trabalho de cuidado, dificulta o acesso a boas oportunidades de trabalho, perpetuando desigualdades sociais e econômicas. Segundo estudos do IPEA, realizado com base nos dados da Pnad, do IBGE, 90% das mulheres entrevistadas declararam realizar as atividades domésticas não remuneradas enquanto entre os homens o percentual ficou em 50%, proporções que se mantém ao longo dos últimos 20 anos.

    Essa realidade ficou escancarada durante a pandemia, em que a jornada tripla, velha conhecida da maioria das mulheres, mães e trabalhadoras do Brasil, ficou, agora, intensificada pelo famigerado home office e home school.

    Apesar das normas e legislações assegurarem a igualdade de oportunidades, salários e a não discriminação, ainda não é a realidade experimentada pelas mulheres, mesmo nos dias atuais. Conforme dados do IBGE, mesmo com leve queda na desigualdade salarial entre 2012 e 2018, as mulheres ainda ganham 20,5% menos que os homens.

    O Estudo traz ainda que a jornada média dos homens é cerca de 4h48m mais longa do que a exercida pelas mulheres. Segundo a analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE, Adriana Beringuy: “a menor jornada da mulher no mercado de trabalho está associada às horas dedicadas a outras atividades, como por exemplo o trabalho de cuidado".

    A divisão sexual do trabalho é a divisão de atribuições e tarefas com base apenas no sexo. Aos homens é destinada atividades produtivas (a vida pública) e às mulheres é atribuída à esfera reprodutiva, o trabalho de cuidado (a vida doméstica).

    Tem-se por trabalho reprodutivo não apenas a reprodução biológica em si, e sim toda a responsabilidade com a criação dos filhos, a manutenção da casa, e todas as tarefas domésticas necessárias. Já o trabalho produtivo é aquele feito em troca de pagamento em dinheiro.

    Atribuir às mulheres os encargos com a família e a casa diminui a participação no mercado de trabalho e dificulta o acesso ao aperfeiçoamento profissional e às boas oportunidades, o que aumenta sobremaneira as desigualdades econômicas e sociais

    A Divisão sexual do trabalho tem impacto direto nos cargos e funções ocupados por mulheres, assim como na remuneração recebida por elas. É a responsável pela perpetuação das desigualdades de gênero no mercado de trabalho. Conforme os indicadores do mercado de trabalho, Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, a taxa de participação feminina no mercado de trabalho em 2011 era de 50,1% enquanto a masculina era de 70,8%. Em 2015 a taxa feminina era de 50% e a masculina 69,5%.

    Segundo dados IPEA, no terceiro trimestre de 2020 a taxa de participação feminina no mercado de trabalho ficou em 45,8%, a menor nos últimos 30 anos. Resultado da desigualdade de gênero no mercado de trabalho e da divisão sexual do trabalho.

    A queda na taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho se deu por dois motivos principais: a divisão sexual do trabalho e a segregação ocupacional.

    O primeiro, a divisão sexual do trabalho, uma vez que as mulheres já eram responsáveis pelo trabalho de cuidado, cuidar dos filhos e dos afazeres domésticos, conciliando com o trabalhado remunerado. Com a pandemia, e o fechamento das escolas, conciliar o cuidado com os filhos e a casa, em tempo integral, e a produtividade no trabalho ficou impossível. Historicamente, é a mulher quem precisa deixar o trabalho para se dedicar a família.

    O segundo motivo, a segregação ocupacional, ocorre por conta da naturalização em imputar às mulheres algumas tarefas ditas femininas com argumentos biologizados, o chamado gueto ocupacional. Essas atividades, ditas femininas, foram as mais afetadas pela pandemia, enquanto as atividades ocupadas, em sua maioria, por homens não sofreram tanto os impactos.

    A divisão sexual do trabalho não é biológica e sim produto de construções sociais que se fundam nas relações de poder e dominação de um sexo sobre o outro. É fruto da dominação das mulheres pelo patriarcado. Ela não cria a subordinação e desigualdade e sim recria.

    Pesquisa Datafolha para o banco C6 sobre o trabalho na pandemia apontou que 64,5% das mulheres afirmaram que a responsabilidade com o trabalho de cuidado dificultou o trabalho remunerado (home office) e 57% das mulheres que passaram a trabalhar em home office afirmaram ter acumulado a maior parte dos cuidados com a casa, enquanto entre os homens o percentual foi de 21%.

    A melhor forma de garantir a eficácia dos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana, traduzidos no principio da isonomia, é através do trabalho, e da garantia às mulheres de iguais oportunidades, de igualdade salarial e não discriminação.

    Segundo Simone de Beauvoir, “É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta.”.

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    5 Comentários

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    Edu Rc
    2 anos atrás

    A cada escolha uma renúncia... A mulher que escolheu ficar em casa para cuidar do lar? Se sim, uma das renúncias é justamente a dificuldade em retornar ao mercado de trabalho; assim como muitos homens escolhem trabalhar muitas horas, cuja renúncia é a qualidade de vida ou presença na vida dos filhos ou em trabalhos arriscados, cuja renúncia é a segurança física...

    Sobre trabalho doméstico não remunerado, oras, por qual motivo alguém deveria ser remunerado por trabalhar na própria casa? Mais ainda, quem deve pagar o salário por esse trabalho dentro da própria casa? Será que o trabalho foi feito feito mesmo? Mais ainda, será que realmente o trabalho foi feito?? Quem garante??

    Média é o resultado de um grupo, o problema é que métrica utilizamos para isso... Para fazer média, precisa reduzir ao mínimo possível as variações, para reduzir a margem de erro e aí vem a pergunta: como calcular o peso que cada escolha individual teve no resultado?

    Na média mulher pode ganhar menos, mas há milhões de pessoas, cada uma com escolhas individuais que levam a esse resultado e dizer que é meramente gênero, me parece muito simplista. Fosse tão somente gênero, vamos a um raciocínio: como toda empresa visa lucro e pode pagar menos a mulher que a homens, porque então não contratar só mulher, pagar menos e lucrar mais? continuar lendo

    Gabriela Medina PRO
    2 anos atrás

    Vamos começar pela sua afirmação de que cada escolha uma renuncia. Na maior parte dos casos não há escolha, é imposto a mulher o trabalho de cuidado, começamos com a licença maternidade, que deveria ser licença parental, ou seja, o mesmo período para o homem e para a mulher para que, assim, fosse possível a divisão do cuidado com o recém-nascido, mas, não é. O cuidado com o recém-nascido fica a cargo da mulher, e não por escolha, mas por imposição.
    E sabe qual o motivo das empresas não contratam mais mulheres, o mesmo que mencionei acima.
    A licença maternidade deferida apenas para a mulher a afasta do mercado de trabalho, uma vez
    que a empresas não querem contratar quem poderá ficar até 5 meses afastada do trabalho, mais uma vez repito, se a divisão do trabalho de cuidado fosse justa, com a licença parental para os dois genitores, esse problema também seria diminuído.
    E não, não é simplista, na verdade essa realidade é bem complexa e essas indagações vindas de um homem não me surpreende.
    Não sou eu quem está dizendo, é a história, são os números. continuar lendo

    Edu Rc
    2 anos atrás

    "Na maior parte dos casos não há escolha, é imposto a mulher o trabalho de cuidado,"
    -> Trabalho obrigatório tem outro nome: escravidão, que é crime, ela pode e deve denunciar.

    "começamos com a licença maternidade, que deveria ser licença parental, ou seja, o mesmo período para o homem e para a mulher para que, assim, fosse possível a divisão do cuidado com o recém-nascido, mas, não é. O cuidado com o recém-nascido fica a cargo da mulher, e não por escolha, mas por imposição."
    -> Quem lhe garante que não foi uma escolha daquela mulher ficar em casa com a criança e abrir mão da carreira? Aliás, há muitos e muitos casos assim. Quem lhe garante que tanto o pai quanto a mãe irão cuidar da criança naquele tempo de licença (cujo custo é pago pelas empresas e a sociedade através de impostos)? Assim como conheço homem que pegou a licença paternidade e ficou jogando bola com os amigos, também conheço mulheres que largaram a criança com o pai e ele teve que se virar sozinho. continuar lendo

    Edu Rc
    2 anos atrás

    "E sabe qual o motivo das empresas não contratam mais mulheres, o mesmo que mencionei acima. A licença maternidade deferida apenas para a mulher a afasta do mercado de trabalho, uma vez que a empresas não querem contratar quem poderá ficar até 5 meses afastada do trabalho. mais uma vez repito, se a divisão do trabalho de cuidado fosse justa, com a licença parental para os dois genitores, esse problema também seria diminuído."
    -> Se a licença maternidade dificulta a vida da mulher (e você reconhece isto), o que lhe faz imaginar que impor esta licença ao homem tornará o mercado de trabalho equilibrado? Pode até haver equilíbrio, mas para conseguir trabalho, pois licença pode ser obrigatória, mas para ter a licença é preciso algo que não é obrigatório: a contratação. Outra coisa, ser pai e mãe é uma escolha do casal, ao OBRIGAR uma licença por terem filhos, transfere para a empresa o ônus (ônus direto, como ficar sem o funcionário e impostos - se o Estado pagar, o dinheiro precisa vir de algum lugar -; ônus indireto, como o risco de contratar alguém que não seja tão eficiente ou tenha problemas de caráter por exemplo) uma escolha que o empregador não fez.

    "E não, não é simplista, na verdade essa realidade é bem complexa"
    -> Você é quem está tentando reduzir a mulher ganhar menos a tão somente por ser mulher. Eu tanto sei que é complexa que afirmei "cada uma com escolhas individuais que levam a esse resultado e dizer que é meramente gênero, me parece muito simplista". continuar lendo

    Edu Rc
    2 anos atrás

    "e essas indagações vindas de um homem não me surpreende."
    -> Eu ser ou não homem não muda o fato de que escolhas individuais E imposições da Lei produziram os resultados que aí estão; Se o que você aponta como problema são causado por escolhas individuais livre (como ninguém é obrigado a nada que não em virtude da Lei, que aquela pessoa busque na Justiça o afastamento de quem a coage), o que lhe faz imaginar que mudar a Lei irá mudar o resultado? Se mudar Lei resolvesse ou ao menos ajudasse alguma coisa, o Brasil seria um paraíso, afinal, o que não falta são Leis bem intencionadas.

    "Não sou eu quem está dizendo, é a história, são os números."
    -> Na média, pegando toda a comida produzida e dividindo pelo número de habitantes do planeta, não há fome no mundo e isto é o que os números estão dizendo, entretanto a realidade é outra justamente por escolhas individuais. Então apenas pegar o número e dizer "olha os números" não é uma fonte de informação tão confiável assim. Sobre a História, bem, não chegamos até onde chegamos fazendo guerra dos sexos, mas justamente pela colaboração, onde, via de regra, cada casal acordava o que cada um fazia de melhor.

    Você parte da premissa que TODOS (afinal, se quer obrigar por Lei, é por ter essa ideia em mente), que 100% dos pais e mães serão zelosos com a criança, que TODOS farão uma divisão de trabalho perfeita entre eles na casa para cuidar da criança caso haja uma Lei impondo a licença parental e infelizmente o ser humano não é tão perfeito quanto você imagina, pois pessoas são guiadas por escolhas pessoais que não necessariamente tem haver com nossas escolhas naquelas circunstâncias ou mesmo escolhas que seriam lógicas e razoáveis para um determinado grupo. Impor Leis para fazer o bem não resolve e nem ajuda quando o que se quer combater tem como origem escolhas e consequências individuais. Digo mais, não adianta querer Leis e achar que o dito problema será resolvido sem nenhum tipo de consequência, e isto é tão verdadeiro que você concorda: ao impor a Licença Maternidade só para a mulher com o objetivo da mãe cuidar da criança, a consequência foi menos mulher contratada e pior, mesmo para quem não quer ser mãe. Cada Lei criada tem consequências, algumas podem ser previstas facilmente, mas muitas das consequências nem mesmo passa pela mente do legislador (ou pode ele simplesmente ignorá-la, já que não serão outros a sofrê-las), o que não quer dizer que quem for obrigado a cumprir a Lei proposta deixará de fazer. continuar lendo