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25 de Junho de 2024
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    Por que o advogado precisa ser menos advogado para ter sucesso?

    Uma reflexão a partir de uma leitura provocativa

    Publicado por Matheus Ferraz
    há 11 meses

    Resumo do artigo

    Será que o que aprendemos na faculdade está nos levando para onde não queremos ir?

    1. A origem do problema

    O grande prazer da leitura não está no seu aspecto estético. Não abrimos um livro para só porque achamos bonito. Lemos para ficar mais inteligentes, agirmos no mundo a fim de melhorar a nossa situação. Esta é uma lição valiosa que aprendi com o Prof. Olavo de Carvalho: ler para saber, saber para prever, prever para poder.

    Há alguns dias, terminei a leitura de "Primeiro Milhão", do Raiam Santos. Foram poucas as vezes em que li algo tão impactante. De fato, o Raiam parece falar diretamente ao jovem brasileiro, em busca de referências, de um caminho para o topo quando tudo em volta chama à mediocridade.

    Um dos capítulos do livro traz o seguinte título: Não seja advogado. Ora, então por que então eu, que sou advogado, resolvi elogiar esse capítulo? Porque nele estão as razões pelas quais a maior parte dos membros da minha profissão vai morrer pobre e sem sucesso.

    Sim, é isso mesmo que você leu. A vida não é o mundo cor de rosa dos patrocinados no Instagram. O caminho para o sucesso é estreito e só quem paga o preço alcança os objetivos que deseja. A boa notícia é que, fazendo o que a média se recusa a fazer, você pode chegar lá bem antes.

    Porém, o advogado que quer ter sucesso precisa ignorar algumas lições aprendidas na faculdade. Antes eu suspeitava disso, mas depois as experiências de algumas pessoas de sucesso me confirmaram: só é acima da média aquele que não segue todas as regras impostas pelo senso comum.

    Já pensou se o Warren Buffett tivesse continuado na corretora do Benjamin Graham em vez de fundar a Berkshire Hathaway? Ou se os fundadores da Dream Works tivessem ficado na Disney? Com certeza, as vidas deles não seriam as mesmas.

    2. O que a faculdade nos ensinou

    Aqui começa a maior parte dos problemas. Todo o mundo que já passou pelos cinco anos de um curso jurídico sabe que, com frequência, pouca importa a chegar a uma conclusão. Importa muito mais debater, confrontar ideias e conhecer os argumentos de trás para diante.

    Essa reclamação é comum entre as pessoas que desistem de cursar direito: o esforço se concentra menos em realizar uma obra no mundo que em estar certo ou parecer certo. A seleção natural opera e apenas os debatedores aguentam até a formatura.

    Quando é necessário concluir, a tarefa cabe não ao advogado, e sim ao juiz, cujo salário não está relacionado à solução da vida do cliente. Em outras palavras, por melhor que você seja, os frutos do trabalho dependem dos humores de um terceiro.

    E o extrajudicial? Bem, apesar de esforços louváveis por parte de muitos atores, há mercados na advocacia que não têm vida fora do contencioso. Basta pensar no criminalista. Para que ele tenha clientes, o Ministério Público tem que apresentar uma denúncia, o juiz precisa aceitá-la e, por fim, julgá-la ou aplicar ao réu alguma medida despenalizadora.

    Aliás, os advogados criminais têm por ídolos outros ícones famosos pela combatividade. Dou alguns exemplos: Evandro Lins e Silva, Rui Barbosa, Waldir Troncoso Peres e Evaristo de Moraes. Todos os quatro foram tribunos célebres, ou seja, ficaram famosos pelos debates de que foram protagonistas.

    3. O que o mercado nos ensina

    Acontece que a lógica do empreendedorismo vai no sentido oposto: é preciso tomar decisões rápidas e implementá-las mais rápido ainda. Caso contrário, a concorrência raciocina de maneira semelhante, vai lá, faz e recebe os créditos. O mundo muda, sem perguntar a opinião de quem pensa demais.

    Como alguém educado para debater irá conquistar algo no mercado? A busca pela palavra ou pelo argumento fulminante impedem-no de olhar em volta, perceber as dores e apresentar uma resposta para elas. É o velho mito de Narciso, que se apaixonou pelo próprio reflexo nas águas do rio.

    Quantos advogados não se anestesiam repetindo que são indispensáveis à administração da justiça? Enquanto isso, lutam para se sustentar. Não estou dizendo que a advocacia deva ser desprezada. Vale pensar, contudo, se não estamos tentando atrair as abelhas com vinagre em vez de mel.

    Trazendo a imagem para a realidade do mundo corporativo, quantos empresários não se queixam da demora excessiva que o jurídico causa às operações societárias? Não tenhamos pressa, mas também não percamos tempo. Tampouco permitamos que a covardia mate nossa criatividade.

    É por isso que o advogado que deseja o sucesso não deve contentar-se com o que a universidade lhe ensina. Tem de aprender a identificar mercados, vender o seu serviço e, acima de tudo, ir aonde o cliente está. Foi-se o tempo de ser montanha. Agora convém ser Maomé.

    4. Enriquecer é cooperar

    Outra razão pelo qual a maioria dos profissionais jurídicos não será rica tem a ver com a lógica inculcada pela faculdade e pelo processo. Direito Processual é uma das disciplinas mais importantes de toda a graduação. Ela nos mostra o que fazer, da petição inicial ao Recurso Extraordinário (aquele que vai para o Supremo Tribunal Federal), para que o cliente conquiste o direito dele.

    Até aí, não há nada de errado. Não vou criticar o peso dado ao componente curricular. Os departamentos estão corretos no ponto. O problema é que horas de estudo de contencioso deixam na mente dos graduados uma mentalidade de jogo de soma-zero. Traduzindo: para eu ganhar, o outro deve perder.

    O estudante foi educado, na prática, a fazer o caminho inverso ao da riqueza. Ao invés de gerar valor para o outro, numa espiral de crescimento mútuo, busca diminuir o patrimônio do adversário, pois é assim que manda a justiça. Riqueza requer cooperação, mas quem advoga não se interessa em cooperar.

    Eu sei que, se o juiz diz que o bem na posse de B pertence a A, aquilo nunca foi de B em verdade. A questão é que esse pensamento de que meu cliente está certo e o oponente não tem um pingo de razão não cria riqueza para a sociedade. Quem não enriquece o mundo dificilmente enriquece, a menos que se sirva de meios ilícitos.

    Dito de outro modo, somos educados desde o primeiro dia de curso para ficarmos na classe média. Nem preciso lembrar que destino o mundo atual reserva ao medianos salários achatados e insatisfação. De novo, quem segue tudo o que lhe dizem faz um duplo mal a si mesmo: além de infeliz, será também falto de dinheiro.

    5. As possíveis soluções

    Vou falar a verdade com você: ninguém gosta muito da nossa profissão. Nem nós mesmos temos grande apreço por ela. As pessoas olham para o advogado como um sujeito que vive da desgraça alheia ou como um mal necessário. Na melhor das hipóteses, como diria o Raiam, ele é o garçom que traz o prato para a mesa do cliente.

    O pior é que não dá para ter certeza sobre o que sai da cozinha. Tanto pode vir um suculento filé mignon quanto uma magra sopa de ossos. O poder está nas mãos do cozinheiro, que é o juiz. Ficou fácil perceber que, a continuar nesse restaurante, o futuro não será brilhante para nós. Logo, temos de dar um jeito de escapar o quanto antes.

    Boas iniciativas despontam no horizonte. O marketing jurídico cessou de ser uma heresia. As soluções consensuais estão em alta. Soluções inovadores estão vindo por meio das lawtechs e legaltechs. A inteligência artificial está se integrando ao nosso dia a dia. O que faremos com essas oportunidades

    Há quem banque o Velho do Restelo e maldiga o cenário presente. É tudo glória de mandar, vã cobiça Desta vaidade, a quem chamamos Fama! De nada adianta, pois enquanto a reclamação prossegue, os barcos já zarparam em direção ao novo mundo.

    O mais importante é não fechar os ouvidos nem endurecer o coração. Recordemos que estamos advogados. Éramos alguém antes da faculdade e continuamos a sê-lo apesar dela. Talvez a loucura do dia a dia não nos permita enxergar algo tão óbvio, mas também temos algo que oferecer a esse mundo burocrático. Que seja um sopro de liberdade e inteligência.

    • Sobre o autorAdvogado atuante em Direito Empresarial
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