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18 de Outubro de 2019
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Minimalismo digital: quando nada é tão urgente e brilhante quanto parece

Christina Morais, Advogado
há 2 meses
Pedro, parabéns pelo seu amadurecimento digital, digamos assim. Eu sou a última geração não digital, que foi "atropelada" pelo universo digital. Sou da geração X. Pela diferença de um década, meu marido é da Y. Engraçado é que eu e ele tivemos contato com a Internet e o universo digital ao mesmo tempo, com a diferença de que eu já era uma adulta jovem e ele entrando pra pré adolescência. Mesmo assim, o modo de vivenciar a novidade é diferente pra nós dois, por uma razão simples: só foi "novidade" pra mim. Pra ele chegou em tão tenra idade que ele mal pode se lembrar dos tempos em que vivia sem isso. Portanto, eu sempre tive uma noção muito clara dos propósitos de ter um celular e nunca fui refém de um aparelho. Perdi valiosas e irrecuperáveis horas do meu limitado tempo nesse plano de existência, diante da tela tubo de meu primeiro computador conectado, conversando com estranhos em chats na era dos "bate-papos". Perdi muitos reais com isso também (o minuto de conexão tinha o custo de chamada telefônica na tal internet discada). Mas foi uma fase passageira, impulsionada por uma dor de cotovelo, que chegou junto com a novidade. Sem vontade de sair e ver os amigos, sem inspiração para trabalhar, a coisa meio que funcionou como terapia. Mas foi tão passageiro, mas tão passageiro que quando o filme "Mensagem para Você" com Meg Ryan e Tom Hanks fez sucesso, eu já tinha abandonado há eras o mau hábito e retomado o controle de minha vida e meu tempo, à moda antiga. Hoje, quando quero bater papo com amigos, evito meus amigos da geração Y. Detesto sair com esse povo que não sabe olhar pra cara da gente enquanto conversa e não sabe atender uma ligação de telefone e dizer: estou ocupada agora, depois te ligo. É como vc disse: há uma geração (e acredito q vc faça parte dela) que tem uma dificuldade enorme em diferenciar urgente de importante. Uma vez perdi a paciência com minha cunhada, pq ela veio tomar cerveja comigo em minha casa, mas eu não conseguia terminar uma frase numa conversa sem ser interrompida pelo celular dela. Daí eu falei, desliga isso, pelo amor de Deus. "Ah, é que era urgente". E quando ela disse o que era e quem era eu vi que não era urgente. Era algo que poderia (e seria de fato) resolvido depois, então não era urgente. Um assunto importante pode esperar. Tudo pode esperar, menos a urgência. Urgência é caso de vida ou morte, ou no caso de prazos legais. Fora isso, qualquer assunto, por mais importante que seja, pode ser agendado para ser tratado no devido tempo com o devido zelo. SEja profissional ou social. E daí essa geração conheceu o WhatsApp. Agora que não tenho mesmo paciência. Hoje, quando quero ter um momento de lazer entre amigos, dou preferência aos de minha geração e aos mais velhos, porque esse povo que não sabe olhar pra cara da gente enquanto conversa, sem conversar de verdade, não tem o meu apoio. Estou ficando velha e impaciente mesmo. Meu tempo é curto e não o perco com quem não está interessado em minha companhia. Meu marido começou a aprender muito sobre isso. Acho que ele teve o mesmo insight que você. Ano passado, pela primeira vez na vida, nossos papéis se inverteram: foi ele quem não levou o celular para a praia nas nossas férias e eu levei o meu e todo dia conectava, mais de uma vez ao dia, mas é porque eu precisava fazer chamadas de vídeo com as cuidadoras que ficaram tomando conta de minha mãe idosa e acamada e eu queria saber se estava tudo bem e queria ver pra ter certeza. Não fosse por essa tecnologia, talvez eu nem tivesse me sentido encorajada a tirar uns dias de férias. Mesmo assim, tinha os horários pra fazer isso e não perdi um segundo de contemplação do mar ou do prazer da companhia dos indivíduos do nosso grupo, com isso. Eu uso e sempre usei a tecnologia em meu benefício. Mas nunca me deixei ser escravizada por ela. E fico feliz quando vejo um testemunho como esse seu. As novas gerações não estão perdidas, afinal. Aos poucos, estão começando a aprender a viver as coisas boas da vida, "ao vivo".
Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/comentarios/746623508#comment_746623508

3 Comentários

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Adorei seu comentário (como sempre), Christina!

Às vezes me considero estranho. Não faço parte de nenhum grupo de WhatsApp, ao contrário dos meus amigos e familiares que têm pastas cheias (sim, mil arquivos ou mais) de vídeos engraçados, memes e mensagens de boa noite que circulam nesses grupos.

Tento seguir o mesmo caminho que você, valorizando os bons momentos ao vivo, as boas conversas e, principalmente, o meu tempo.

Obrigado por compartilhar sua experiência comigo.

Abraços! continuar lendo

@pedrocustodion ri muito da parte dos "vídeos engraçados". Eu também tenho especial antipatia dos tais vídeos engraçados. O povo conseguiu a proeza de transformar qualquer dia da semana, a qualquer hora, num entediante crespúsculo de domingo. Num enfadonho quadro de Domingão do Faustão. O que mais me dá raiva é que o conhecimento está na palma da mão, mas a pessoa não tem coragem de usar a tecnologia para engrandecer seus conhecimentos. Prefere usá-la para se especializar na ignorância e numa vida rasa e sem sentido. Enfim, graças à Deus, nem todos né. Abraços! continuar lendo