Página 4355 da Judicial - JFRJ do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) de 16 de Setembro de 2019

Trata-se de ação civil pública proposta pelo MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL em face de OLARIA VALE DE

LAGES LTDA., CERÂMICA BOM JARDIM DE PARACAMBI LTDA. e seus representantes legais, requerendo, em sede antecipatória: a cominação de obrigações de fazer, consistentes na apresentação de PRAD, na retirada imediata dos resíduos perigosos abandonados às margens do Rio Guandu e, ainda, na abstenção da prática de qualquer ato de degradação ambiental na área objeto da demanda.

Sustenta, em síntese, que, no curso do Inquérito Civil Público nº 1.30.010.000268/2011-07, constatou-se

que as rés exerceram atividades de mineração sem autorização do Poder Público e, ainda, sem o necessário licenciamento ambiental, concedido pelo Instituto Estadual do Ambiente - INEA. Afirma que, a despeito da

lavratura de auto de paralisação em 14.6.2011, a primeira ré se manteve em atividade e posteriormente

veio a ser sucedida pela segunda ré, conforme vistoria realizada em 9.12.2014.

Alega, por fim, que "a demora em se determinar a implementação das medidas mitigadoras e reparadoras

necessárias pode representar um risco para a preservação da biota local, com consequências de difícil

reversão. Cabe destacar que a conduta do demandado está causando poluição (conceito de poluição

previsto no art. 3º, III, da Lei 6.938/81) ao ecossistema local, estando presente, portanto, a probabilidade

do direito, que viabiliza a concessão da medida".

É o que importa relatar. Decido.

Inicialmente, insta registrar que o meio ambiente equilibrado é qualificado como patrimônio público,

constituindo bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida. Por isso, ninguém em

particular possui direito subjetivo à sua utilização, o que somente pode ser legitimado por ato do poder

público.

Por força de norma constitucional, a atribuição para preservar o meio ambiente é destinada a todos os entes públicos, bem como à população, conforme dispõe o artigo 225 da Constituição Federal. Por sua vez, o

artigo 20, IX da Carta Magna arrola como bens da União "os recursos minerais, inclusive os do subsolo".

Neste contexto, conforme previsto no Código de Mineracao (Decreto-Lei nº 227/1967) e apontado na

petição inicial, as atividades desempenhadas pelos réus precisam "de uma autorização, que é concedida,

previamente, pela União Federal, através da autarquia competente, que atualmente é a Agência Nacional de Mineração (ANM), autarquia vinculada ao Ministério de Minas e Energia, criada pela Lei nº 13.575/2017, em substituição ao antigo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), extinto pelo mesmo diploma

normativo".

É certo que a tutela ambiental não pode ser relegada a segundo plano e, portanto, qualquer uso direto dos recursos naturais da União é passível de apreciação jurisdicional, incidindo, para tanto, todos os princípios

inerentes ao Direito Ambiental.

Neste contexto, deve incidir o princípio da precaução, o qual restou adotado, dentre outros documentos

internacionais, na declaração ECO 92, produzida por ocasião da Conferência das Nações Unidas sobre Meio

Ambiente e Desenvolvimento, mais especificamente no preceito 15, com o seguinte teor:

Com o fim de proteger o meio ambiente, o princípio da precaução deverá ser amplamente observado pelos

Estados, de acordo com suas capacidades. Quando houver ameaça de danos graves ou irreversíveis, a

ausência de certeza científica absoluta não será utilizada como razão para o adiamento de medidas

economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental.

Do conceito de precaução decorre o princípio interpretativo in dubio pro natura, por meio do qual se extrai a tese de que, diante de situações fáticas duvidosas, deve-se dar preferência à proteção ao meio ambiente.

Firmadas tais premissas, verifico que os documentos acostados aos autos, dotados de fé

pública, demonstram, com grau certo grau de probabilidade, que: ocorreu atividade de lavra sem

autorização dos órgãos ambientais; que a parte ré foi identificada como responsável pela atividade

minerária não autorizada na área em questão e que foram constatados danos ao meio ambiente no local.

Desse modo, resta configurado o requisito da probabilidade do direito alegado. Quanto ao periculum in

mora, entendo que está consubstanciado pelo razoável grau de certeza acerca da irregularidade da

extraç ão, razão pela qual há nec essidade de medidas que possam evitar a reiteraç ão e a ampliaç ão de tais