Página 127 da Cidade do Diário Oficial do Estado de São Paulo (DOSP) de 18 de Setembro de 2010

CÂMARA MUNICIPAL

Presidente: Antonio Carlos Rodrigues

SECRETARIA GERAL PARLAMENTAR

SECRETARIA DE REGISTRO PARLAMENTAR E REVISÃO -SGP-4

231ª SESSÃO SOLENE

02/08/2010

O SR. PRESIDENTE (Eliseu Gabriel - PSB) - Está aberta a sessão. Sob a proteção de Deus, iniciamos os nossos trabalhos. A presente sessão solene destina-se à entrega do Título de Cidadão Paulistano ao Maestro Martinho Lutero Galati de Oliveira e da Salva de Prata ao Coral Luther King, de acordo com os requerimentos 161 e 162, de 9 de junho de 2010, deste Vereador, que contou com aprovação unânime dos Srs. Vereadores desta Casa.

Passo a palavra ao Mestre de Cerimônias para a condução dos trabalhos.

MESTRE DE CERIMÔNIAS - Senhoras, senhores, autoridades, sejam bem-vindos à Câmara Municipal de São Paulo.

Para compor a Mesa convidamos as seguintes personalidades: Dr. Eduardo Jorge, Secretário Municipal do Meio Ambiente; Senador italiano José Luiz Del Roio; Jornalista Audálio Dantas; Prof. Dr. Kabenguele Munanga; Leda Galati de Oliveira; Jornalista Sérgio Gomes.

Recebamos, agora, o homenageado Sr. Martinho Lutero Galati de Oliveira e, também, a Sra. Sira Milani, Presidente do Coral Luther King, o qual também será homenageado nesta noite. (Palmas)

Convidamos todos para, de pé, ouvirmos o Hino Nacional Brasileiro, executado pela Banda da Polícia Militar do Estado de São Paulo, regida pelo Maestro 2º Ten. Jassen Feliciano.

- Execução do Hino Nacional Brasileiro.

MESTRE DE CERIMÔNIAS - Registramos e agradecemos a presença dos Srs. Saddô Ag Lmouloud, Presidente do Fórum África; Helcias de Pádua, Presidente da Associação Grupo Memórias do Itaim Bibi; José Inácio de Oliveira, Diretor do Sindicato dos Empregados dos Estabelecimentos de Saúde de São Paulo, Sinsaudesp; Roberto Mafra, Presidente da Banda do Fuxico; Antônio Claret, Diretor da Casa de Portugal, Instituição Cultural e de Assistência.

Recebemos diversas mensagens cumprimentando-nos pelo evento, dentre as quais destacamos as seguintes: Alberto Goldman, Governador do Estado de São Paulo; Gilberto Kassab, Prefeito da cidade de São Paulo; Barros Munhoz, Presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo; Antonio Carlos Rodrigues, Presidente da Câmara Municipal de São Paulo; Desembargador José Roberto Haddad, Presidente do Tribunal Regional Federal da 3ª Região; Conselheiro Fúlvio Julião Biazzi, Presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo; Conselheiro Edson Simões, Presidente do Tribunal de Contas do Município de São Paulo; Dr. Mauro Ricardo Machado Costa, Secretário de Estado da Fazenda; Luciano Almeida, Secretário de Estado do Desenvolvimento; Bruno Caetano, Secretário de Estado de Comunicação; João Sampaio, Secretário de Estado da Agricultura e do Abastecimento; Marcos Antônio Monteiro, Secretário de Estado de Gestão Pública; Dilma Seli Pena, Secretária de Estado de Saneamento e Energia; Pedro Ubiratan Escorel de Azevedo, Secretário de Estado do Meio Ambiente; Cláudio Lembo, Secretário Municipal de Negócios Jurídicos; Carlos Augusto Calil, Secretário Municipal da Cultura; Marcos Cintra, Secretário Municipal do Desenvolvimento Econômico e do Trabalho; Dráusio Barreto, Secretário Municipal de Serviços; Valter Antônio da Rocha, Secretário Municipal de Esportes, Lazer e Recreação; Edsom Ortega Marques, Secretário Municipal de Segurança Urbana; dos Vereadores Adilson Amadeu, Chico Macena, Claudinho de Souza, Dalton Silvano, Domingos Dissei, Floriano Pesaro, Gilson Barreto, Goulart, Juscelino Gadelha, Mara Gabrilli, Natalini, Netinho de Paula, Paulo Frange, Ushitaro Kamia e Wadih Mutran; também a mensagem do Coronel Álvaro Batista Camilo, Comandante-Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Anunciamos, neste momento, a apresentação do Coral Luther King com a canção tradicional Sul-Africana Nkosi Sikelele África.

- Apresentação do Coral Luther King.

MESTRE DE CERIMÔNIAS - A Câmara Municipal de São Paulo agradece ao Coral Luther King.

Convidamos para seu pronunciamento o jornalista Sérgio Gomes.

O SR. SÉRGIO GOMES - A cidade de São Paulo finalmente rende um tributo. Se a ideia do Título de Cidadão Paulistano e da Salva de Prata é a ideia de reconhecimento da cidade de São Paulo àqueles que não nasceram aqui, mas ajudaram a formar o caráter e alma desta cidade, não há nada mais justo do que conceder o Titulo de Cidadão Paulistano ao Maestro Matinho Lutero e a Salva de Prata ao Coral Luther King, por seus 40 anos. Como já foi dito, a= diferença entre um bando e um povo é o fato de haver a memória, a possibilidade de cantarmos juntos e de certas músicas serem lembradas por todos. Quando assim acontece, já não somos mais um bando, somos um povo. O Coral Luther King e o Maestro Martinho Lutero, ao longo de todos esses anos, estiveram vinculados por meio da sua arte a todos os grandes momentos da luta política pela liberdade, pela democracia.

Hoje, certamente, alguns falaram melhor do que eu, mas não há nenhuma dúvida de que há aqui o reencontro de São Paulo com os que a fazem. Saudações ao Luther King, finalmente Martinho Lutero é paulistano. (Palmas)

MESTRE DE CERIMÔNIAS - Com a palavra o Jornalista Audálio Dantas.

O SR. AUDÁLIO DANTAS - Inicialmente quero dizer que ser convidado para integrar esta Mesa é uma grande honra por várias razões, evidentemente, a mais importante é essa homenagem que se presta ao Martinho Lutero. Estava lembrando há pouco em uma entrevista que esse nosso País, além de memória fraca, não procura se informar. Bom que meu grande amigo - aliás, tive a honra de receber de suas mãos o mesmo Título de Cidadão Paulistano, meu amigo Eliseu Gabriel - teve essa iniciativa. Ela vem consertar o atraso em nosso País, porque o Martinho Lutero já recebeu um Titulo de Cidadão Honorário de Milão, e quero dizer ao nobre Vereador Eliseu Gabriel que S.Exa. fala por nós ao entregar esse titulo ao Martinho.

Quero dizer que o trabalho do Martinho Lutero não é simplesmente um trabalho de um maestro, de um grande músico que efetivamente é. Mas é o trabalho de um cidadão brasileiro que se transformou em cidadão do mundo. Participando de um grande movimento internacional, o Fórum Coral Mundial, ele contribuiu para levar o seu conhecimento, sua cultura, seu sentimento de cidadania a vários países da África, a começar por nossa Moçambique, em momentos muito difíceis daquele país. Depois, recebeu o título de cidadão de Milão, muito significativo. Por quê? Porque antes dele, há 100 anos, um brasileiro chamado Antônio Carlos Gomes recebeu o mesmo título. Não é à toa que o nosso homenageado recebeu esse título pela segunda vez. Isso ocorreu por ter passagens em Campinas, terra de Carlos Gomes. Sua mãe é de Campinas. Acho que o espírito de Carlos Gomes disse: “Dê um título para ele também”. Isso ocorreu, muito merecidamente.

Tenho muito ainda a dizer sobre o Sr. Martinho Lutero. Falarei aqui de um momento de grande emoção, quando eu e todos os meus companheiros, inclusive Serjão, ao meu lado, estávamos em momentos de preparação. Já se completaram 30 anos do assassinato do Sr. Wladimir Herzog. Está aqui presente o Sr. Wil Herzog, filho do Sr. Wlado, Presidente do Instituto Wladimir Herzog.

Quando decidimos, por dever, prestar uma grande homenagem depois de 30 anos ao Sr. Wlado, a ideia era reeditarmos na catedral de São Paulo um ato ecumênico. Queria que o evento evocasse o ato do dia 31 de outubro de 1975, uma multidão, que se espalhou pela Praça da Sé. A partir daquele momento, o Brasil passou a ser outro, a ditadura começou a cair. O Sr. Martinho Lutero chegou com uma ideia que achei, inicialmente, impossível de ser levada à frente. Estou falando de um coral de 600 vozes.

Em outubro de 1975, havia três representantes de religiões: a católica, com D. Paulo Evaristo Arns; a judaica, com o Rabino Henry Sobel e a evangélica, com o Reverendo Jaime Wright. Nesse culto ecumênico realizado em 2005, reuniram-se 21 crenças religiosas. Estavam presentes pessoas da umbanda, do candomblé e de religiões orientais, para homenagearem o Sr. Wlado. A ideia do Sr. Martinho Lutero foi reunir esse coro de 600 vozes. A primeira coisa que aconteceu foi que integrantes desse coral, formado por vários integrantes de outros corais em São Paulo, deram um grande abraço na catedral. O evento foi muito bonito. Depois, durante a celebração, contamos com a presença dos Srs. D. Paulo Evaristo Arns e o Rabino Henry Sobel. Não esteve presente o Sr. Jaime Wright, já falecido. Durante a celebração, o coro começou a cantar dentro da catedral. Cantores envolveram toda a catedral e saíram pela praça, por não caber tanta gente dentro da igreja. O Sr. Martinho Lutero estava regendo lado a lado, e perto do altar, mas, como é esse negócio? Não consigo entender. Ele regendo tanta gente que ele nem via. Depois é que descobri o truque, só o sábio sabe dessas coisas. É que a cada número de cantores havia um maestro, que repassava a regência dele. Algo realmente emocionante. Queria lembrar isso, porque é o que define esse Cidadão Paulistano de hoje.

Muito obrigado. (Aplausos)

MESTRE DE CERIMÔNIAS - Ouviremos agora o depoimento da maestrina Regina Lucato e, para a leitura desse depoimento, convidamos a maestrina Sira Milani.

A SRA. SIRA MILANI - Palavras de Regina Lucato: “Querido Lutero, fico feliz com título que receberá pela Câmara Municipal de São Paulo, o Título de Cidadão Paulistano, afinal, por seus esforços incansáveis para fazer boa música, você se fez merecedor. O Coral Luther King é prova disso. Tantas pessoas, como eu, passaram por ele, sentiram e comprovaram o valor inestimável de se cantar em grupo, de saber trabalhar em grupo.

A honraria Salva de Prata presta homenagem ao Coral Luther King que muito fez por muitos. O Título de Cidadão Paulistano traz a você, Lutero, o reconhecimento exato de músico exemplar. Parabenizo você e toda sua incansável equipe que preza sempre pela excelência do Coral Luther King, do qual, com muito orgulho, fiz parte. Parabéns. Regina”. (Aplausos)

MESTRE DE CERIMÔNIAS - Anunciamos agora o pronunciamento do Dr. Eduardo Jorge, Secretário Municipal do Meio Ambiente.

O SR. EDUARDO JORGE - Meus amigos, nobre Vereador, homenageado Martinho Lutero, estava na Santa Casa há alguns dias, encontrei o Sérgio e, embora não tenha sido um motivo feliz, ao contrário de hoje, ele me falou àquela ocasião mais de meia hora sobre o Lutero. Contou-me a história inteira dele, do Coral.

E eu, que tinha a esperança de assistir a apresentação no Ibirapuera, fui barrado porque estava com meu cachorro e minha bicicleta e não pude chegar perto do show. Vim correndo, então, hoje, para não perder essa oportunidade de conhecê-lo, vê-lo ao vivo e, claro, cumprimentá-lo.

Cumprimento o Coral pelo trabalho, mas também pelo importante nome: Luther King, o qual, junto ao memorável Gandhi e ao inesquecível Tolstói são, eu diria até, uma espécie de santíssima trindade da não violência. Esse casamento do homem que visitou, de forma profunda, as três origens do nosso País: a África, a América e Europa, com a Cidade, faz, dessa homenagem proposta pelo nobre Vereador Eliseu, um momento alto da Câmara Municipal de São Paulo.

Peço licença, pois tenho de sair para um outro compromisso, mas, em nome das pessoas que trabalham na Prefeitura de São Paulo, em nome do Executivo, cumprimento o Martinho Lutero por essa homenagem feita pela Câmara Municipal. Na Secretaria do Meio Ambiente, essa busca moderna do equilíbrio dos homens com o meio ambiente, visando a sobrevivência do nosso planeta, não é completa, nem é possível, se não tivermos o equilíbrio entre os próprios homens e as classes sociais. Um equilíbrio depende do outro. Por isso, quem faz esse proselitismo, usando a música para difundir a cultura de paz e, assim, superar a hegemonia da cultura da violência merece, sim, essa homenagem da Câmara Municipal.

Parabéns, Martinho Lutero e Eliseu Gabriel.

Muito obrigado. (Aplausos)

MESTRE DE CERIMÔNIAS - Anunciamos, agora, mais uma apresentação do Coral Luther King que entoará uma canção de Chico Buarque intitulada Você vai me seguir.

- Apresentação musical.

MESTRE DE CERIMÔNIAS - Após essa belíssima apresentação do Coral Luther King, convidamos para sua saudação, a Sra. Leda Galati de Oliveira.

A SRA. LEDA GALATI DE OLIVEIRA - Não sou jornalista, não sou nada, apenas irmã do maestro.

Como irmã, sou a única que consegue contar uma historinha de família. É uma história que uma tia contou-me um pouco antes de morrer há três anos. Contou-nos em um almoço de família e rimos muito.

Quando mamãe resolveu voltar a São Paulo, seu Estado de origem, essa tia nos abrigou enquanto meus pais procuravam casa para morar. Possuía uma condição mais abastada e apenas um filho. Resolveu dar a melhor educação para o filho único.

Além de ele estudar no mesmo colégio de vocês - no Dante - passava pela ideia dela que uma grande educação deve ter formação musical. Minha mãe e minha tia são sobrinhas-netas do Maestro Galati que fez Saudades de Matão, essa música passa pela formação de todo músico do Brasil. A autoria é de um tio dele.

Vindos de Campinas, terra de Carlos Gomes, acostumados sempre a cantar e ouvir ópera, minha tia fazia questão de que meu primo aprendesse piano. Então, o matriculou no Conservatório de Santo Amaro. Empenhou-se em oferecer os melhores professores de música.

Chegava em casa e dizia: “Meu filho, toca um pouco para mim”. Saía uma coisa horrorosa e ele respondia: “É o bife”. A mãe perguntava: “Mas, o que é isso que você está tocando?” Ele respondia: “É o bife”. Ela dizia: “Mas isso não é bife, é carne crua. Não é possível”.

Passou mais um tempo e ele sempre estudando. A mãe dizia: “Toque novamente para mim. Mas que música é essa que você está tocando?” Ele respondia: “É o bife”. E a mãe dizia: “Mas esse bife não fica pronto? Não é possível”.

Quanto mais ela pagava o conservatório, menos o meu primo sabia. Um dia, ficou nervosa, telefonou para o dono da escola: “Preciso falar com o senhor. Não é possível. Meu filho não aprende nada, não toca nada”.

Um belo dia, de volta do trabalho, ouve aquela música maravilhosa no horário em que seu filho tocava. Pensou: Algum estalo deu no meu filho. Ele caiu, bateu a cabeça. Não é possível! Agora está tocando uma sinfonia dessas. Parecem quatro mãos tocando, que coisa! Ficou super feliz.

Chegou ao quarto, era Martinho Lutero tocando piano, sentado e com os pezinhos que nem alcançavam o chão. Só de ouvir o primo estudar, ele começou a tocar, sem nenhum professor, sem nada.

Então, minha tia pegou-o pela mão, levou-o ao conservatório e o diretor da escola disse: “Já sei! A senhora veio brigar comigo por causa do bife”. Ela respondeu: “Não, eu vim trazer um gênio”. (Palmas)

Tenho admiração por todo o trabalho que ele faz e o de vocês, não preciso nem falar, vocês conhecem. Mas uma das coisas que pouca gente fala, o ponto que mais admiro é que ele usa todo o conhecimento e toda a capacidade que tem para formar novas pessoas, formar outros profissionais para ficarem por aí depois dele. É isso o que eu mais admiro. (Aplausos)

MESTRE DE CERIMÔNIAS - Convidamos agora para o uso da palavra o Dr. Kabenguele Munanga.

O SR. KABENGUELE MUNANGA - Sr. Vereador Eliseu Gabriel, em nome de quem cumprimento todos os membros desta Casa, as autoridades presentes na Mesa e no plenário.

Começo logo a dizer que é um grande prazer estar nesta homenagem ao grande maestro Martinho Lutero Galati de Oliveira, nesta homenagem em que estou representando o Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo.

Já escutamos a primeira música cantada e percebemos que o Lutero esteve na África.

Creio que outorgar o Título de Cidadão Paulistano para uma pessoa com ele não é simplesmente um gesto de cortesia que se faz a uma pessoa. É uma materialização simbólica e um profundo reconhecimento dos serviços prestados para a sociedade paulistana e para a sociedade brasileira de modo geral.

Creio também que a experiência, a dimensão da contribuição do Maestro Lutero não se limita apenas ao Brasil. É uma dimensão tricontinental que abarca a África, a Europa e a América. Nesse sentido, como já foi dito, faço minhas as palavras do meu antecessor de que o homenageado é realmente um cidadão do mundo, não apenas um cidadão paulistano e brasileiro.

Na África, ele pesquisou, deu aula, foi um dos primeiro dos cooperantes brasileiros a estender a mão a Moçambique, recém-independente, quando os quadros administrativos portugueses estavam fugindo. E, nesse momento, foi uma das raras pessoas que ajudou Moçambique a fazer a sua transição. Foram momentos muito difíceis, de grande penúria e quem viveu lá, no tempo em que ele passou por Moçambique, sabe que não havia luxo. Foi realmente uma participação em um sofrimento geral. Isso me foi contado pelo Sr. José Luís Cabaço, Ministro das Comunicações de Moçambique. Aliás, fui seu ministro, enquanto ele trabalhou como cooperante naquele país. Ele me disse que seu trabalho deixou marcas profundas. Aliás, deixou arquivos que ainda precisam ser recuperados. O que faz uma pessoa fazer um trabalho dessa grandeza, dessa magnitude? Não creio que ele pensava que, num dia, poderia ser reconhecido, porque quem faz um trabalho como esse não busca reconhecimento. Ele acreditava que, como cidadão, poderia dar uma contribuição, para mudar a sua sociedade. Quando esse reconhecimento veio, quando um gesto de grandeza desta Casa vem, seres humanos sentem-se muito reconfortados.

Meu amigo e companheiro de lutas, estou aqui também em nome de africanos, que não se encontram aqui. Abraçando-lhe, peço que continue com esse trabalho humano de grandeza.

Muito obrigado. (Palmas)

MESTRE DE CERIMÔNIAS - Ouviremos mais uma apresentação do coral Luther King, a música Deep River, tradicional afro-american spiritual.

- Apresentação musical.

MESTRE DE CERIMÔNIAS - Convidamos a maestrina Sira Milani para a leitura do depoimento da cantora lírica Celine Imbert.

A SRA. SIRA MILANI - Palavras de Celine Imbert: “O Luther King, além de sua função artística, exercia uma ação transformadora no destino de seus cantores. O que cantávamos era produto de tantos ensaios, de tanta dedicação, e vinha saturado de tanta energia e cumplicidade que fazia despontar em muitos a certeza da música como profissão.

Foi nessa rotina fascinante de ensaios, de aulas de canto e apresentações que algo revelador se confirmou em mim: conheci a minha voz, descobri o meu som, por meio daquele hobby prazeroso e necessário, despertei no meu ser o meio de máxima expressão e, ainda que tenha me dedicado a tantas outras atividades antes de me tornar a cantora que sou hoje, foi lá no Coral Luther King cantando a ópera Dido e Enéas que a minha arte se desvendou, que a minha voz se tornou o meu trunfo e o meu canto o prêmio de todos os prêmios de minha vida.” (Palmas)

MESTRE DE CERIMÔNIAS - Convidamos para seu pronunciamento o Senador José Luiz Del Roio.

O SR. JOSÉ LUIZ DEL ROIO - Vereador Eliseu Gabriel, expoente desta Casa que representa a democracia municipal desta cidade, quero cumprimentá-lo duas vezes por ser expoente e por ter tido esta magnífica iniciativa.

Ressalto que 40 anos do Coral Luther King é muito tempo, trabalho e continuidade. Mas, sobretudo, gostaria de destacar as origens. 40 anos, quer dizer, nasceu em 1970, ano difícil. Qualquer coisa que se fizesse naqueles anos tinha um significado de resistência. Agrupar jovens, reunir era um ato de rebeldia, antifascismo, era um ato democrático. Criar beleza, quando tudo era feio; criar uma luz, quando tudo era escuro; criar alegria, quando tudo era dor era um grande trabalho. Vocês nasceram bem, cresceram bem e estão aí.

Não tive muita oportunidade de ver muitos espetáculos do Luther King, digo muitos porque talvez tenha visto uns 25 ou 30, não são muitos, mas tive a oportunidade de ver ainda mais espetáculos dos seus filhos ou dos seus irmãos, não sei como chamar.

O Luther King que nasceu pequeno naquele silêncio e naquela tragédia se desenvolveu pelo mundo e cresceu. Criaram-se outros Luther King, outros coros com outras línguas, nacionalidades, não vou dizer outras culturas porque vocês já representam todas as culturas possíveis.

Esses eu vi mais, mais ainda do que vocês. Se vi 30 aqui, devo ter visto 100 em outras partes do mundo. Não entendo de música, digo sempre isso ao meu amigo Martinho, então não tem problema. Só gosto. Uma vez ele me perguntou qual o espetáculo que mais gostava. Sempre digo que é o último, porque não consigo fazer uma comparação.

Porém, citarei um. Não sei se a música era a mais bonita, mas o que mais importava era o ato. O primeiro que vi talvez tenha sido o que mais me impressionou - posso me enganar - mas este ficou para sempre, o primeiro: As veias abertas da América Latina. Estávamos numa batalha complicada, em 1991 e 1992, o neoliberalismo vencia no mundo. E na Europa, uma das características desse vencer no mundo era glorificar a descoberta de Cristóvão Colombo. A Europa tinha conquistado e dominado o mundo. Havia levado a cultura europeia para outros lugares e esmagado outras culturas.

Martinho, junto com Darcy Ribeiro - aquela magnífica pessoa - teve a ideia de realizar um espetáculo baseado em Eduardo Galeano. Foi feito numa igreja não consagrada, magnífica, de Florença. Se me enganar, depois você me desmente, mas lembro-me de que era tudo isso. Foi um espetáculo maravilhoso. Darcy Ribeiro dava pulos com aquilo, recordo-me bem disso, pois estava sentado ao seu lado.

Esse fato revelou a grandiosidade da sensibilidade de Martinho, de combater aquela ideia unipolar, da cultura europeia, branca e impositiva. Martinho é capaz. Contarei outro espetáculo, porque essa ideia da catedral vem de outro. Esta é da Catedral de Milão, anos antes, no momento em que se bombardeava a Sérvia. Era a guerra da Iugoslávia. Mas era muito difícil para nós, porque os aviões saíam de Aviano, passavam por Milão e, 15 minutos depois, aqueles aviões que havíamos visto passar ininterruptamente, jogariam bombas sobre a população da Sérvia. Era realmente angustiante.

A partir desse momento, Martinho resolveu fazer o coral das mil vozes, no Domo de Milão. O Domo de Milão é maior que a nossa Catedral, é imenso, mas aquele espetáculo foi um grito contra aqueles aviões de morte. Sob aspectos diferentes, porém parecidos, iguais ao que tive a felicidade de presenciar na Catedral daqui.

Martinho é capaz de reger grandes orquestras, em grandes teatros. Pode ir a uma igreja como a de São Marcos, onde tocou Mozart, nas escadarias de qualquer igreja, numa favela ou em qualquer buraco, em qualquer lugar e fazer um espetáculo sublime. Isso nunca vi. Essa capacidade de jogar em qualquer lugar, em qualquer cenário, fazer coros de judeus ou palestinos, fazer coros de emigrados que não têm emprego, que são os mais perseguidos - na Europa, isso é muito importante.

É uma maravilha o conceito de luta pela igualdade que permeia o Martinho.

Então, meu querido coro, vocês estão bem representados pelo mundo, o maestro de vocês foi capaz de expressar toda a grandiosidade que vocês possuem. Ele levou isso para o mundo. Meu caro Martinho, um grande abraço.

Muito obrigado. (Palmas)

MESTRE DE CERIMÔNIAS - Tem a palavra o Presidente proponente da sessão, nobre Vereador Eliseu Gabriel.

O SR. PRESIDENTE (Eliseu Gabriel - PSB) - Boa noite a todos. Saúdo o maestro Martinho Lutero Galati de Oliveira, que é o nosso homenageado; Sira Milani, Presidente do Coral Luther King; Dr. Eduardo Jorge; José Luis Del Roio, Senador italiano; Audálio Dantas, Jornalista; Prof. Kabenguele Munanga; Leda Galati de Oliveira e Sergio Gomes, jornalista.

Esse título de cidadão é conferido pela Câmara Municipal. É apresentado um projeto de lei, discutido e votado, portanto, é um título oficial de São Paulo ao Martinho Lutero. Assim como a Salva de Prata também é uma honraria oficial de São Paulo. Portanto, estamos ganhando mais um filho ilustre, que é mineiro de nascimento, mas é um cidadão do mundo pela quantidade de caminhos que trilhou nesse Planeta.

É um talento incomparável que faz da música clássica e do canto coral um instrumental de transformação das relações humanas. Vimos aqui o que é o coral, fala na alma, mexe com a gente, humaniza. Imagino que deve ser uma delícia poder cantar num coral. Acho que seria uma coisa maravilhosa se pudéssemos participar e se existissem mais corais como esse nas escolas, enfim, seria uma coisa fantástica.

O Martinho deu a volta ao mundo e se fixou em Milão, primeiro foi reconhecido lá fora para depois ser reconhecido aqui. Em Milão, organizou um coro que já completou 25 anos com a mesma ideia, a mesma proposta.

E nessa trajetória, construiu um currículo digno das mais expressivas personalidades mundiais.

No Brasil, lutou contra a ditadura, em defesa dos direitos humanos. Desde muito jovem participou de organizações clandestinas. Menor de idade, já era um militante ativo da luta pela democracia. Ajudou na Revolução Moçambicana. Viveu longo tempo em países africanos, e, finalmente, foi-se colocar no coração da Europa.

Em conversa, Martinho me contou coisas interessantes. Contoume, por exemplo, que cantou na missa do Alexandre Vannucchi Filho, assassinado pela ditadura em 1973, no dia 31 de março. Martinho contava com 16 anos quando iniciou o Coro, fundado em 1970. Vejam que coisa maluca. Não é à toa que a irmã dele já sabia que era um gênio, um talento fantástico, de uma determinação inacreditável.

Lembro-me de que fui preso justamente à época da missa do Vannucchi;. Martinho também cantou junto com outros coros na missa do Herzog. Na missa do Vannucchi, ele tinha 19 anos, e já foi levar lá o pessoal para cantar; na missa do Herzog, tinha aproximadamente 23 anos. Realmente é impressionante a sua garra e o seu talento.

Martinho, por seu talento, poderia ter escolhido o glamour e os holofotes, sempre tão próximos dos grandes regentes. Mas nunca optou pelo caminho fácil. Deu prioridade ao canto coletivo e conferiu relevo internacional aos corais. Ao lado do Coral Luther King, lançou a primeira temporada de concerto de música coral do Brasil. Mas, por conta da equivocada imprensa cultural paulista, a maior parte dos paulistanos sequer desconfiou da existência desse evento. Em 2007, a Biblioteca de Arte fez a seguinte indagação em seu site: “Mas o que pode haver de tão subversivo numa pauta musical que valoriza cantos das culturas derrotas, soterradas, engolfadas pelo novo?”

O Maestro resgata a ideia do canto coletivo, aplicando à música um conceito sofisticado de socialismo, tudo em contraposição à figura do cantor envernizado, embalado para vender. Sua filosofia tem sido aplicada em várias partes do mundo por músicos que se preocupam não apenas em preservar a voz, protegendose de resfriados, mas se preocupam, especialmente, com a disseminação do vírus do engajamento político em sua obra. Como proponente dessa sessão solene da Câmara Municipal, quero agradecer ao Maestro Martinho Lutero Galati de Oliveira, bem como a todos que cantaram, e ainda cantam, no Coral Luther King ao longo desses 40 anos. Vocês fazem a coisa mais importante, ao dedicarem-se à arte de transformar o mundo num lugar mais humano e mais fraterno.

Parabéns ao mais novo cidadão paulistano!

Muito obrigado. (Palmas)

MESTRE DE CERIMÔNIAS - Neste momento, o Coral Luther King apresentará Bella Ciao, canção da Resistência Italiana na Segunda Guerra Mundial.

- Apresentação musical.

MESTRE DE CERIMÔNIAS - Convidamos os presentes para, de pé, assistirmos à entrega do Título de Cidadão Paulistano ao ilustre homenageado, Sr. Martinho Lutero Galati de Oliveira pelas mãos do nobre Vereador Eliseu Gabriel.

“Município de São Paulo, Título de Cidadão Paulistano. A Câmara Municipal de São Paulo, atendendo ao que dispõe o