Andamento do Processo n. 0000851-78.2017.8.10.0102 - Procedimento de Conhecimento - 17/09/2019 do TJMA

Comarcas do Interior

Montes Altos

PROCESSO Nº 0000851-78.2017.8.10.0102 (8512017)

AÇÃO: PROCEDIMENTO DE CONHECIMENTO | PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL

AUTOR: ADRIANA DE SOUSA FERREIRA

ADVOGADO: SIMONE DA SILVA RIBEIRO ( OAB 9015-MA )

REU: BANCO BMG S/A

AUTOS EM CONEXÃO: 851-78.2017.8.10.0102 e 852-63.2017DECISÃO (Visto em Correição) Considerando que no dia 12 de setembro de 2018 foi realizado o julgamento do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas (IRDR) nº 53983/2016, no âmbito do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão, relacionado aos processos que tratam sobre empréstimos consignados, bem como levando em conta o Ofício CIRC-GCGJ - 892018 da Corregedoria Geral de Justiça, que autorizou o retorno da tramitação dos feitos relativos à matéria mencionada, determino o fim da suspensão dos processos acima citados para que tenham seu regular prosseguimento.Analisando o presente feito com o de número 852-63.2017, ajuizado contra a mesma parte requerida, verifica-se a necessidade de reconhecimento de conexão entre eles.Em todos os feitos acima citados o autor questiona a legalidade de empréstimo realizado perante a parte requerida, sustentando que os contratos questionados são fraudulentos. Assim, ainda que em cada feito seja questionado um contrato específico, o certo que a tramitação independente desses processos implicaria em séria possibilidade de julgamento conflitante além de atentar contra a economia processual.A doutrina ensina que "A conexão, para fim de modificação de competência, tem por objetivo promover a economia processual (já que são semelhantes, é bem possível que atividade processual de uma sirva a outra) e evitar a prolação de decisões contraditórias". (Fredie Didier Jr, Curso de Direito Processual Civil, 12ª ed., 2010, pág. 156). O art. 55 do novo Código de Processo Civil estabelece que são conexas duas ações quando lhes for comum o pedido (objeto) ou a causa de pedir. No entanto, a doutrina e a jurisprudência vão um pouco além para esclarecer que "nem sempre a utilização desse critério será suficiente para identificar quando deverá haver reunião. É preciso que ele seja conciliado com outro, finalístico, em que o julgador deve ter em mente as razões fundamentais para que duas ações sejam

reunidas: em primeiro, evitar decisões conflitantes; e, em segundo, favorecer a economia processual". (Marcus Vinícius Rios Gonçalves, Direito Processual Civil, 4ª Ed., pág. 122).Por esse motivo que no novo Código de Processo Civil estabelece que"[s]erão reunidos para julgamento conjunto os processos que possam gerar risco de prolação de decisões conflitantes ou contraditórias caso decididos separadamente, mesmo sem conexão entre eles"(§ 3º do art. 55).Atenta diretamente contra a celeridade processual (art. , LXXVIII, da CF) a tramitação independente de feitos, como na espécie, que objetivam, a rigor, a mesma coisa, qual seja, a declaração de ilegalidade de contratação de empréstimos ligados à mesma instituição bancária, com as consequentes sanções legais decorrentes dessa alegada prática ilícita.Ante o exposto, reconheço a conexão entre a presente ação e a de número 852-63.2017.Considerando que neste Juízo de Direito inexiste a lotação de cargos de conciliadores e/ou mediadores, resta inaplicável a realização de audiência de conciliação ou de mediação prevista no art. 334 do CPC/2015.O art. , § 2º, do NCPC estabelece que o Estado promoverá, sempre que possível, a solução consensual dos conflitos. Por sua vez, o art. 139, V, do referido Código dispõe que o juiz promoverá, a qualquer tempo, a autocomposição, preferencialmente com auxílio de conciliadores e mediadores judiciais.No entanto, no art. 166 o CPC/2015, estabelece que a conciliação e a mediação são informadas pelos princípios da independência, da imparcialidade, da autonomia da vontade, da confidencialidade, da oralidade, da informalidade e da decisão informada.A confidencialidade, como ensinam Luiz Guilherme Marinoni, Sérgio Cruz Arenhart e Daniel Mitidiero, "implica o sigilo de toda informação obtida pelo conciliador ou mediador ou ainda pelas partes, no curso da autocomposição, com exceção de prévia autorização das partes" (Novo Código de Processo Civil Comentado, 2ª Ed., 2016, pág. 293).Assim, com fulcro nos artigos 165 e 331, § 1º, do referido diploma legal, deixo de designar audiência de conciliação, sem prejuízo da autocomposição das partes em outras oportunidades, a fim de não quebrar o princípio da confidencialidade estabelecida na norma cima reproduzida.Em deferência ao quanto firmado no IRDR mencionado, ainda que ausente o efeito vinculante em razão da falta de trânsito em julgado, este juízo, em obediência aos arts. , , 10 do CPC/2015, esclarece às partes que serão observadas, com fins persuasivos, as seguintes teses jurídicas firmadas quando do julgamento deste feito:1ª TESE (POR MAIORIA, APRESENTADA PELO SENHOR DESEMBARGADOR PAULO SÉRGIO VELTEN PEREIRA, COMO O ACRÉSCIMO SUGERIDO PELO SENHOR DESEMBARGADOR ANTONIO GUERREIRO JÚNIOR): "Independentemente da inversão do ônus da prova - que deve ser decretada apenas nas hipóteses autorizadas pelo art. VIII do CDC, segundo avaliação do magistrado no caso concreto -, cabe à instituição financeira/ré, enquanto fato impeditivo e modificativo do direito do consumidor/autor (CPC, art. 373, II), o ônus de provar que houve a contratação do empréstimo consignado, mediante a juntada do instrumento do contrato ou outro documento capaz de revelar a manifestação de vontade do consumidor no sentido de firmar o negócio, permanecendo com o consumidor/autor, quando alegar que não recebeu o valor do empréstimo, o dever de colaborar com a justiça (CPC, art. ) e fazer a juntada do seu extrato bancário, podendo, ainda, solicitar em juízo que o banco faça a referida juntada, não sendo os extratos bancários no entanto, documentos indispensáveis à propositura da ação. Nas hipóteses em que o consumidor/autor impugnar a autenticidade da assinatura aposta no instrumento de contrato acostado no processo, cabe à instituição financeira o ônus de provar essa autenticidade (CPC, art. 429 II), por meio de perícia grafotécnica ou mediante os meios de prova";2ª TESE (POR MAIORIA, APRESENTADA PELO SENHOR DESEMBARGADOR PAULO SÉRGIO VELTEN PEREIRA):"A pessoa analfabeta é plenamente capaz para os atos da vida civil (CC, art. ) e pode exarar sua manifestação de vontade por quaisquer meios admitidos em direito, não sendo necessária a utilização de procuração pública ou de escritura pública para a contratação de empréstimo consignado, de sorte que eventual vício existente na contratação do empréstimo deve ser discutido à luz das hipóteses legais que autorizam a anulação por defeito do negócio jurídico (CC, arts. 138, 145, 151, 156, 157 e 158)";3ª TESE (POR UNANIMIDADE, APRESENTADA PELO DESEMBARGADOR RELATOR):"É cabível a repetição do indébito em dobro nos casos de empréstimos consignados quando a instituição financeira não conseguir comprovar a validade do contrato celebrado com a parte autora, restando configurada má-fé da instituição, resguardas as hipóteses de enganos justificáveis";4ª TESE (POR MAIORIA, APRESENTADA PELO SENHOR DESEMBARGADOR PAULO SÉRGIO VELTEN PEREIRA COM O ADENDO DO SENHOR DESEMBARGADOR JOSEMAR LOPES DOS SANTOS):"Não estando vedada pelo ordenamento jurídico, é lícita a contratação de quaisquer modalidades de mútuo financeiro, de modo que, havendo vício na contratação, sua anulação deve ser discutida à luz das hipóteses legais que versam sobre os defeitos do negócio jurídico (CC, arts. 138, 145, 151, 156, 157 e 158) e dos deveres legais de probidade, boa-fé (CC, art. 422) e de informação adequada e clara sobre os diferentes produtos, especificando corretamente as características do contrato (art. , IV e art. , III, do CDC), observando-se, todavia, a possibilidade de convalidação do negócio anulável, segundo os princípios da conservação dos negócios jurídicos (CC, art. 170)". Assim, com base nas teses acima citadas, fica a parte demandante, caso sustente a realização da contratação, obrigada a comprovar a realização do empréstimo, com a juntada do instrumento contratual e do depósito/transferência do valor contratado; juntado pela parte demandada esses documentos, caso a autora continue a negar tal fato, deverá juntar cópia do extrato bancário que ateste a sua negativa, salvo se demonstrar, fundamentadamente, a impossibilidade de cumprir essa medida. Fica, ainda, a parte autora obrigada a comprovar o quantitativo atualizado de descontos ou pagamentos de parcelas realizados, sob pena de utilização do que constar nos autos.CONCLUSÃOAnte o exposto, determino: 1. a reunião dos feitos acima citados em razão da conexão;2. a citação da parte requerida para responder a presente demanda, no prazo de 15 (quinze) dias úteis, advertindo-lhe de que, em não sendo contestada a ação presumir-se-ão aceitos como verdadeiros os fatos alegado na inicial, nos termos dos arts. 335 e 336 do Código de Processo Civil;3. a distribuição do ônus da prova conforme acima delineado.Após a resposta do réu, intime-se a parte autora para apresentar réplica à contestação, caso sejam alegadas as matérias contidas nos arts. 350 e 351 do NCPC.Ficam as partes advertidas de que configura litigância de má-fé alterar a verdade dos fatos ou usar do processo para conseguir objetivo ilegal. Por fim, esclareça à parte demandada de que, apesar da conexão, em cada feito há impugnação de um contrato específico. Publique-se. Cite-se. Intimem-se.Serve a presente decisão como mandado/ofício.Montes Altos/MA, 13 de agosto 2019.Eilson Santos da SilvaJuiz de Direito Resp: 182998

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