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A Vida e Nada Mais

A Vida e Nada Mais

Parte I. Todo o Afeto que se Encerra

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O restaurante “La Belle Équipe”: caminhos cruzados nos atentados de 13 de novembro em Paris

13.11.2017

Hoje faz dois anos que 180 franceses tombaram diante dos atentados terroristas em Paris. Como esquecer?

Era para ser, todavia, um dos dias mais felizes de minha vida.

Eu, sem nenhuma experiência internacional, havia obtido êxito num processo de seleção coordenado pela Embaixada da França em Brasília, em convênio com a Enamat do TST, para fazer um curso de curta duração sobre efetividade da execução judicial, na Escola Nacional da Magistratura Francesa.

O curso teve nove dias úteis, sendo cinco dias de aulas teóricas na capital e quatro dias de estágio no Tribunal de Versalhes. Dediquei-me com afinco aos estudos, fiz dezenas de perguntas e deixei boas amizades.

Acordei feliz naquela sexta-feira dia 13, porque teríamos uma preleção com o juiz de Marselha (Comarca cuja competência inclui a ilha de Córsega, conhecida como região de atuações mafiosas) e, depois, a entrega dos certificados. Almocei com alguns conhecidos, encontrei um professor da Universidade de Nantes, que estava de passagem pela cidade e leciona a mesma matéria de saúde e segurança do trabalho que eu desenvolvo na USP, e fui para o hotel arrumar as coisas para o retorno no dia seguinte.

Ao arrumar as malas, sintonizei a TV no jogo França versus Alemanha: não se falava de outro assunto na cidade.

Fiz Skype de quase uma hora com minha esposa e meus filhos em São Paulo, comemorando o final do curso e a iminência do retorno ao lar em meio a tantas saudades.

Mal terminei a ligação, eles voltaram a me chamar dizendo que a Globo tinha interrompido a programação para falar de uma bomba no estádio. A própria tevê francesa, àquela altura, não havia dado a notícia.

Eu os tranquilizei dizendo que o estádio era bem longe, em Saint Dénis, estando eu no 12º setor (arrondissement, como eles dividem a cidade), distante mais de 30km.

Mas o barulho das sirenes começou a ficar ensurdecedor e eu desconfiei que a tragédia não estava limitada àquele estádio.

Veio a notícia do Bataclan e aquela longa agonia, noite adentro, até que os mortos começaram a ser contados na casa das dezenas.

Porém, o que eu não podia imaginar e, naquele momento, evitei comentar, é que o pequeno café La Belle Équipe também foi alvo dos terroristas – um deles, tendo deixado o Bataclan, saiu atirando a esmo e, passando pela Rue Charone (não muito longe do cemitério Père Lachaise), abriu fogo contra os clientes do restaurante, ferindo mortalmente 18 pessoas.

Eu havia passado pelo café no domingo anterior, pois ele estava a 300m do hotel (donde o barulho das sirenes) e pareceu um ambiente familiar.

Chamou-me a atenção que, em frente ao café, havia uma casa de abrigo de mulheres vítimas de violência familiar, sob completo sigilo e com acesso restrito. Dias depois, fiquei imaginando os momentos de horror que elas, já alquebradas pelos caminhos cruzados da vida, tiveram de testemunhar.

Bem, desnecessário dizer que ninguém dormiu da sexta para o sábado e que tudo o que eu queria no sábado era chegar ao aeroporto a qualquer custo. Consegui o último assento de uma van. Os amigos franceses me pediram que não tomasse o transporte coletivo pois não se sabia o que estava por vir. Táxis escassearam. Cheguei ao Charles de Gaulle com 12 horas de antecedência. A TAM, ao contrário das companhias americanas, não cancelou o voo.

Tive um nó na garganta quando ouvi a entrevista de uma brasileira, que estava perto do Bataclan, dizendo que se sentia mais segura na Paris conflagrada do que na São Paulo em tempos de paz. O pior é que talvez ela tenha razão.

Nem me lembro do resultado do jogo. A França ainda viria a sofrer o atentado do caminhão assassino em Nice e o homicídio covarde do padre na Normandia.

Mas a vida segue persistente e vigorosa. Eles não podem nem devem esmorecer.

Tudo isso reitera aquilo que a gente sempre soube, mas nem sempre põe em prática: nossa passagem por aqui é curta demais para tanta vaidade.

A vida é agora.

Sobre medos bobos e coragens absurdas

25.11.2017

Os leitores de primeira hora já me viram citar Clarice Lispector mais de uma vez nesta página.

Gosto de várias frases atribuídas a ela, como aquela que diz que para aparentar simplicidade é preciso trabalho árduo e incansável.

E ela também alertou a todos que buscam o autoconhecimento que é preciso ter muito cuidado na hora de cortar seus próprios defeitos, pois nunca se sabe sobre qual deles se assenta nossa vida e, de tanto mexer, o edifício pode cair.

Esse pensamento é mesmo devastador e reaparece na música do Oswaldo Montenegro, que certo sábado nós compartilhamos aqui, em que ele diz: “quantos defeitos sanados com o tempo eram o melhor que havia em você”.

Mas há uma frase de Clarice ainda mais inspirada: “nós todos somos feitos de medos bobos e coragens absurdas”.

Essa frase voltou a minha mente na noite da quinta-feira, quando divulguei o texto “Há tempo para tudo na vida”, com o anúncio de nosso projeto editorial inédito e fora dos padrões (um livro extraído das páginas do Facebook 1 ). Os comentários dos leitores me pegaram no contrapé e marejaram meus olhos. Vários pensamentos povoaram minha mente, enquanto eu repassava as dificuldades pessoais e coletivas vivenciadas em 2017.

Medos bobos me mantiveram afastado das redes sociais por anos; alguma coragem, porém, é necessária para encarar o lançamento de um livro, no meio da reforma trabalhista, tentando falar de nosso tempo e de nossas contradições, como se isso fosse leve e divertido.

Num mundo tão cheio de gente, coragem define.

O concurso para juiz do trabalho e o sonho do urso rosa

30.11.2017

Se há uma coisa que eu aprendi com a paternidade é jamais duvidar da força da literatura infantil.

Nós, acostumados com tantos autores impenetráveis, nem sempre medimos os livros pelo modo como ele nos inebria. As crianças, sempre autênticas, aprovam ou desaprovam os livros de acordo com seu impacto, com sua sensibilidade, e não com as convenções sociais.

Como adulto, já tive algumas experiências fortes com livros infantis. Lembro-me de histórias sobre amizades genuínas, técnicas para contornar obstáculos e modos inteligentes de adequar o alvo ao poder de sua flecha.

Semana passada, numa sala de espera de consultório, eu e meu caçula vimos um livro de capa dura chamado O sonho do urso rosa .

O urso estava angustiado porque não conseguia alcançar o sonho, mas ao mesmo tempo não sabia explicar qual era esse sonho. A girafa amiga trouxe um cachecol; o cavalo camarada trouxe ferraduras novas; a rã esperta trouxe óculos de sol.

Nada o consolava, entretanto.

Até que a coruja apareceu e demonstrou que cada amigo presenteou o ursinho com aquilo que achavam que devia ser o sonho dele, baseados todos em seus próprios anseios e suas visões de mundo.

O cachecol, a ferradura e os óculos podem ser o grande sonho de muita gente, mas não era o do urso.

Sábado e domingo, 2 e 3 de dezembro, muita gente querida estará na capital federal, em busca de seu sonho autêntico – o ingresso na magistratura.

Podem uns e outros achar o sonho engraçado ou sem sentido, mas é o seu sonho e somente você poderá acalentá-lo.

Nós somos muito gratos pelos cachecóis que a vida houver nos dado, mas a busca de nossos sonhos mais profundos é o que nos torna verdadeiramente humanos e verdadeiramente únicos.

Os candidatos devem manter a serenidade plena, com a certeza de que eu, os 8.000 seguidores desta página e todos os leitores anônimos enviaremos nossos melhores pensamentos para que brilhem.

Apenas brilhem.

Brilhem e façam valer seus melhores conceitos de ética e de equidade, dignificando os quadros ávidos da magistratura.

E se por acaso não conseguirem ser fortes, sejam ao menos humanos, como diz a música do Frejat.

Tal como o urso rosa, esse sonho... ninguém te tira.

A cartola do Cartola, quem diria, era um EPI

09.12.2017

Voltando pra casa na terça à noite, ouvi uma melodia maravilhosa.

Fiquei impressionado com a voz de Cida Moreira e, sobretudo, com a letra contundente da canção, chamada “Autonomia”.

Fala de amor e de sonhos, mas há no ar uma certa melancolia que, vim a saber, refletia o estado de espírito de seu criador, o insuperável Cartola. Já debilitado pela saúde, ele conseguiu fazer poesia em grau máximo com sua autonomia em grau mínimo.

A música ainda está em meus pensamentos e hoje a compartilho com os leitores, em nossa crônica musical dos sábados.

Mas havia, também, uma nota curiosa lida pelo apresentador do programa de rádio: a origem do apelido do grande músico carioca.

Tendo perdido a mãe aos 15 anos e abandonado os estudos, ele atuou como servente de pedreiro e, para evitar os pingos de cimento sobre o rosto, passou a usar, por sua conta, um chapéu-coco.

Os colegas, espantados com sua atitude, esnobaram dizendo que ele usava uma cartola como aquelas da alta sociedade.

E o apelido, com um toque de maldade, um toque de ironia, pegou.

Nota 10 pro Cartola – criativo, sagaz e no exercício de sua dignidade.

Nota 0 pro seu patrão e um puxão de orelha nos colegas.

Um embrião de equipamento de proteção individual, veja só, nos tirou Angenor de Oliveira e nos entregou Cartola.

Tenhamos todos um sábado de paz e, se possível, com plena autonomia.

Um juiz, a associação dos advogados e um velho prédio

18.12.2017

Quase não me lembro do início de minha admiração pela AASP.

Quando eu era aluno do Largo de São Francisco e tinha acabado de chegar do interior, passava correndo pelo calçadão do centro velho de São Paulo e a imagem daquele velho prédio da Rua Álvares Penteado, 151, impressionava – se não pelo relógio ou pelos detalhes da arquitetura, talvez pelas bandeiras sempre hasteadas e pela limpeza impecável do saguão.

Mais tarde vim a saber que no prédio já funcionou a Bolsa de Valores de São Paulo e que a entidade ostenta o título de maior associação voluntária do país, com seus mais de 100.000 membros ativos.

Dada sua envergadura nacional, bastante justa, houve alteração do nome, de Associação dos Advogados de São Paulo para “Associação dos Advogados – São Paulo, desde 1943”. Espero não ter errado o nome exato, mas achei a informação fantástica e muito reveladora de sua respeitabilidade.

Em 2004, quando eu adquiria cabelos brancos para manter sob controle o processo da VASP na 14ª Vara do Trabalho de São Paulo, com seus 5.000 reclamantes e infinitos incidentes, recebi uma ligação do estimado juiz Alexandre Lazzarini, que respondia à época pela 1ª Vara de Falências e Recuperação Judicial de São Paulo (Fórum João Mendes), convidando para debate do projeto da Lei de Falência, de que nenhum trabalhista aceitou participar. Afinal, a plateia era hostil, formada basicamente por estudiosos do direito falimentar e síndicos de massa falida.

Eu topei.

Mexi com a plateia perguntando se honorários de advogado e de administradores teriam natureza alimentar (como seria consagrado pelo STF), brinquei com o juiz que cuidava da falência da Varig no Rio de Janeiro e recebi de algumas pessoas um elogio de gosto duvidoso (“para um juiz do trabalho, você até entende bem de processo civil”).

De lá para cá, foram várias visitas e várias colaborações, em atividades pequenas, palestras médias e casa lotada no auditório do térreo.

Agora, em 18 de dezembro de 2017, vou assentar mais um tijolo no castelo de sonhos realizados: farei o lançamento de dois livros novos (a segunda edição dos comentários à reforma trabalhista e a coletânea de crônicas do Facebook e Instagram) no lindo saguão de entrada do prédio, junto à cafeteria.

Para um juiz do trabalho, não sei se mando bem em processo civil, mas sei que me sinto em casa na associação dos advogados.

E espero que minha casa esteja cheia nesta segunda-feira.

Querido pirata de livros

20.12.2017

Faz tempo que eu queria falar com você, que não conhece o sentimento do remorso nem se preocupa em saber quantas pessoas estão envolvidas no processo produtivo de um livro.

Sei que você já atuava na época do mimeógrafo, que minha tia Maria usava para duplicar os desenhos dela, destinados à alfabetização dos alunos da rede pública nos anos 1960 e 1970, assim como você ficou eufórico com o desenvolvimento das fotocopiadoras dos anos 1980 e 1990.

Mas seu auge veio mesmo no século XXI com as diversas formas de digitalização do esforço alheio, quer dizer, de livros e de trabalho intelectual que você nunca teve capacidade de fazer.

Sei também que os livros custam muito caro no Brasil, apesar da isenção de alguns impostos, e que você é movido por aquele pensamento rasteiro segundo o qual “se eu não fizer, outra pessoa vai fazer”.

Ainda bem que nem todos os cidadãos pensam como você e ainda há gente que acredita na importância de se respeitar a fila, dar preferência no cruzamento, denunciar a violência doméstica, proteger nossas crianças e, enfim, lutar por uma sociedade mais justa.

Mas não era disso que eu queria falar, pois estaria gastando energia em vão.

Eu estou aqui morrendo de curiosidade de saber como você pretende divulgar a cópia pirata de meu novo livro, que foi extraído do Facebook e do Instagram. Portanto, ele não é nem inédito nem exclusivo da editora.

O livro de crônicas E agora, Tarsila? está integralmente disponível na Internet, de graça, …

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20 de Julho de 2024
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