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15 de Julho de 2024
  • 2º Grau
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Detalhes

Processo

Órgão Julgador

2ª Turma - Gabinete do Juiz Convocado Francisco Luciano de Azevedo Frota

Partes

Julgamento

Relator

MARIO MACEDO FERNANDES CARON
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Inteiro Teor

PODER JUDICIÁRIO
JUSTIÇA DO TRABALHO
TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 10ª REGIÃO
IDENTIFICAÇÃO

PROCESSO n.º XXXXX-60.2021.5.10.0821 - AGRAVO DE PETIÇÃO (1004)

RELATOR (A): Desembargador Mário Macedo Fernandes Caron

AGRAVANTE: P. C. R.

Advogados: LELIO BEZERRA PIMENTEL - TO0003639, CLEUSDEIR RIBEIRO DA COSTA - TO0002507, ILDETE FRANÇA DE ARAUJO - TO0000733

AGRAVADOS: M. M. S. S., E. M. M. F.

Advogados: SUELLEN DA SILVA BATTAGLIA - TO0006480

AGRAVADO:L. P. A.

ORIGEM: VARA DO TRABALHO DE GURUPI - TO

CLASSE ORIGINÁRIA: AÇÃO TRABALHISTA

JUIZ (A): REGINA CELIA OLIVEIRA SERRANO

EMENTA

EMENTA: FRAUDE EM EXECUÇÃO. CARACTERIZAÇÃO. A fraude em execução independe da boa ou má-fé do terceiro adquirente; decorre de critérios puramente objetivos ( CPC, art. 792) e é presumida em face do executado/devedor. Daí por que a alienação é absolutamente ineficaz contra o credor. Recurso conhecido e provido.

RELATÓRIO

RELATÓRIO

A Exma. Juíza do Trabalho REGINA CELIA OLIVEIRA SERRANO, em exercício na MM. Vara do Trabalho de Gurupi-TO, por meio da sentença de fls. 60/65, julgou procedentes os embargos de terceiros ajuizados por M. M. S. S.e E. M. M. F., para determinar, no trânsito em. julgado, o levantamento da indisponibilidade realizada sobre o imóvel objeto da ação.

O primeiro embargado/exequente da ação principal recorre da r. decisão, por meio das razões de fls. 84/92.

Contraminuta ofertada pelos terceiros embargantes às fls. 99/102.

Apesar de intimado, o segundo embargado (L. P. A.)/executado dos autos principais, não apresentou contraminuta.

Desnecessária a prévia manifestação do Ministério Público do Trabalho, a teor do disposto no artigo 102 do RITRT.

É o relatório.

V O T O

1. Admissibilidade

Preenchidos os pressupostos objetivos e subjetivos de admissibilidade, conheço do recurso.

2. Mérito. Indisponibilidade sobre imóvel. Embargos de terceiros

A d. magistrada de primeira instância assim solucionou a controvérsia em epígrafe:

"Os Embargantes ajuizaram Embargos de Terceiro em face de Exequente e Executado nos autos de nº XXXXX-44.2013.5.10.0821 em decorrência de indisponibilidade realizada sobre o imóvel localizado no Lote nº 10, Quadra nº 23, na Avenida Verdes Mares, Loteamento Parque dos Sonhos Dourados, Araguaína-TO e matriculado no Cartório de Registro de Imóveis de Araguaína-TO sob o nº 55.249, nos autos da execuçaão acima indicada.

A referida execução foi originada de ação trabalhista ajuizada em 12.03.2013.

Não houve penhora, mas o imóvel restou indisponível e há pedido de penhora nos autos da Execução, havendo legitimidade dos Embargantes, tendo estes adquirido o imóvel em 19.04.2018 conforme escritura pública de compra e venda, com registro em 15.05.2018, conforme consta da certidão de registro do imóvel.

O vendedor já era Executado nos autos, uma vez que por ocasião da homologação do acordo (que restou inadimplido) era o representante da empresa demandada e foi determinada a sua inclusão no polo passivo. A citação para o pagamento da dívida ocorreu em 03.06.2014 por edital, conforme autos principais.

Assim, embora haja muitos indícios da existência de fraude à execução, pois ao tempo da alienação já tramitava contra o devedor ação capaz de reduzi-lo à insolvência e os adquirentes não exibiram certidões negativas de débito trabalhista, entendo que não restou demonstrada a má-fé dos adquirentes, mormente porque não havia o registro da penhora no registro de imóveis.

A jurisprudência majoritária, inclusive do C. STJ, posiciona-se no sentido de declarar a impossibilidade de decretação de fraude à execução na hipótese em que não há registro de penhora do bem alienado e se constata a ausência de má-fé do terceiro adquirente. Eis os termos da Súmula nº 375, do E. Superior Tribunal de Justiça:

'O reconhecimento da fraude à execução depende do registro da penhora do bem alienado ou da prova de má-fé do terceiro adquirente.'

No mesmo sentido, os seguintes julgados do C. TST:

'RECURSO ORDINÁRIO EM AÇÃO RESCISÓRIA. LEI N.º 5.869/1973. ART. 485, V E IX, DO CPC/1973. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL PERTENCENTE AO SÓCIO ANTES DO REDIRECIONAMENTO DA EXECUÇÃO. ADQUIRENTE DE BOA-FÉ. FRAUDE À EXECUÇÃO. NÃO CARACTERIZAÇÃO. VIOLAÇÃO DOS ARTS. , XXII, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. Trata-se de ação rescisória ajuizada pelo terceiro adquirente do imóvel penhorado, em que se pretende desconstituir sentença prolatada nos autos de embargos de terceiro na qual se afastou a figura do bem de família sob o argumento de fraude à execução. No caso em tela, consta da decisão rescindenda que é 'desnecessária a comprovação do ' consilium fraudis', haja vista que a simples alienação de bem indispensável para a garantia da execução configura-se fraude em execução'. Com efeito, presumiu-se a má-fé do terceiro adquirente do imóvel em desacordo com a jurisprudência mansa desta Corte Superior. Sobre o tema, consagrou-se neste Tribunal o entendimento segundo o qual 'o reconhecimento da fraude à execução depende do registro da penhora do bem alienado ou da prova da má-fé do terceiro adquirente', que equivale à Súmula 375 do Superior Tribunal de Justiça. Assim, diante da ausência de qualquer elemento que demonstre a má-fé do terceiro adquirente, merece procedência a presente ação rescisória. Precedentes. Recurso ordinário a que se nega provimento.' (RO - XXXXX-86.2012.5.02.0000, Relatora Ministra: Maria Helena Mallmann, Data de Julgamento: 02/06/2020, Subseção II Especializada em Dissídios Individuais, Data de Publicação: DEJT 05/06/2020)

'(...) II - AGRAVO DE INSTRUMENTO. PROVIMENTO. FRAUDE À EXECUÇÃO. AUSÊNCIA DE REGISTRO DE PENHORA NA MATRÍCULA DO IMÓVEL. TERCEIRO DE BOA-FÉ. SEGURANÇA JURÍDICA. NECESSIDADE DE PROVA DA MÁ-FÉ DO ADQUIRENTE. Diante de potencial violação do art. , XXII, da Constituição Federal, merece processamento o recurso de revista. Agravo de instrumento conhecido e provido. III - RECURSO DE REVISTA. FRAUDE À EXECUÇÃO. AUSÊNCIA DE REGISTRO DE PENHORA NA MATRÍCULA DO IMÓVEL. TERCEIRO DE BOA-FÉ. SEGURANÇA JURÍDICA. NECESSIDADE DE PROVA DA MÁ-FÉ DO ADQUIRENTE. 1.1. Nos termos do art. 792, IV, do CPC, a fraude à execução ocorre quando presentes dois requisitos: a litispendência, independentemente da natureza do processo (cognição, executivo ou cautelar) e a frustração dos meios executórios. 1.2. Quando o vendedor do bem alienado é o próprio executado, a fraude à execução não é de difícil constatação. Não é por outra razão que, ao adquirente de bens de expressivo valor monetário, cabe perquirir se o alienante se encontra na posição de réu, em demanda capaz de o reduzir à insolvência, sob pena de sofrer as consequências de possível e futura evicção. O adquirente do bem alienado em fraude à execução responderá pela sua incúria. Disto decorre a lição clássica de que, em regra, ao exequente descabe provar a existência do 'consilium fraudis' entre alienante e adquirente. 1.3. Entretanto, essa conclusão vem sendo mitigada pela jurisprudência em algumas situações. Isto se dá, principalmente, quando se impõe ao adquirente do bem (terceiro de boafé) um ônus desarrazoado, com intuito de evitar a fraude à execução, ou mesmo quando a conduta daquele é irrelevante para a consumação desta. 1.4. É o que se verifica no quadro fático delineado nos autos, em que não restou provada a má-fé dos terceiros adquirentes, tampouco o registro de penhora ou ônus, na matrícula do imóvel, que inviabilizasse a aquisição do bem, não havendo como presumir a fraude à execução. Nesse contexto, configura-se desarrazoada a exigência de que os terceiros adquirentes deveriam ter providenciado certidões negativas do alienante-executado, em órgãos como a Justiça do Trabalho, a fim de demonstrar sua boa fé na aquisição do imóvel. 1.5. Efetivamente, o direito do credor trabalhista à satisfação de seu crédito - embora superprivilegiado - não é absoluto e, sendo assim, não pode violar a esfera patrimonial de pessoa que agiu com a diligência que ordinariamente se espera daquele que realiza negócio jurídico envolvendo a alienação de bem imóvel. A propriedade privada (art. , XXII, da CF) e a segurança jurídica (art. , XXXVI, da CF) também são valores caros ao ordenamento jurídico brasileiro e, por isso, cabe ao exequente a prova de que o terceiro adquirente agiu de má-fé, com o intuito de fraudar a execução. Precedentes. Recurso de revista conhecido e provido. (ARR - XXXXX-78.2014.5.15.0087, Relator Ministro: Alberto Luiz Bresciani de Fontan Pereira, Data de Julgamento: 12/02/2020, 3ª Turma, Data de Publicação: DEJT 14/02/2020)

Como se vê, a presunção de fraude à execução não é absoluta e não se pode ferir direito de terceiros para, a qualquer custo, satisfazer créditos trabalhistas.

Este Eg. TRT 10ª Região também tem entendido ser necessária a demonstração de má-fé do adquirente, até mesmo quando há negligência de registro cartorário ou não se efetua a regular transferência do veículo no DETRAN, conforme se observa das ementas abaixo:

"AGRAVO DE PETIÇÃO. COMPRA E VENDA DE IMÓVEL. AUSÊNCIA DE REGISTRO CARTORÁRIO. COMPROVAÇÃO DE BOA FÉ DOS ADQUIRENTES. Não demonstrada a má-fé das partes contratantes, incabível a penhora de imóvel cuja transferência não foi levada a registro cartorário."Processo nº XXXXX-62.2019.5.10.0821, julgado em 12.02.2021, Desembargadora Relatora Elaine Machado Vasconcelos. (grifo acrescido)

"AGRAVO DE PETIÇÃO. EMBARGOS DE TERCEIRO. FRAUDE À EXECUÇÃO NÃO CONFIGURADA. AQUISIÇÃO DE VEÍCULO EM DATA ANTERIOR (DOIS ANOS ANTES) DO REGISTRO DA PENHORA. BOA-FÉ DO TERCEIRO ADQUIRENTE. Se ao tempo da aquisição do veículo - mediante regular transferência perante o DETRAN - não havia nenhum registro de penhora, o que veio a ocorrer somente dois anos depois, outro caminho não há senão reconhecer a boa-fé do terceiro adquirente. Inteligência da Súmula 375 do STJ: 'o reconhecimento da fraude à execução depende do registro do bem alienado ou da prova de má-fé do terceiro adquirente'. Precedentes desta Corte. Agravo provido para determinar-se a desconstituição da penhora.' Processo nº 01031-2014-004-10-00-2, julgado em 18.12.2014 e publicado em 23.01.2015, Desembargador Relator Ricardo Alencar Machado.

Por tais motivos, julgo procedentes os presentes Embargos de Terceiro para julgar improcedente o pedido de declaração de fraude à execução e determinar que, no trânsito em julgado, seja levantada a indisponibilidade do acima descrito"(fls. 61/65).

Insurge-se primeiro embargado/exequente da ação principal contra a sentença de procedência a ação de embargos de terceiros.

Defende a caracterização de fraude à execução, na medida em que na época da alienação do bem imóvel objeto da ação, já existia demanda capaz de levar o devedor à insolvência.

Reexamino.

A presente ação de embargos de terceiros é incidental à reclamação trabalhista XXXXX-44.2013.5.10.0821 e tem por objeto o levantamento de constrição realizada em imóvel após alienação aos autores.

O bem era de propriedade do executado L. P. A., incluído no polo passivo da ação principal XXXXX-44.2013.5.10.0821 em 14/05/2013, consoante respectivas fls. 34/35, onde registrada celebração de acordo, posteriormente homologado à correspondente fl. 37 e inadimplido, dando azo à execução em 25/07/2013 (fl. 50 da ação principal).

Analisando os presentes autos, verifica-se que os autores adquiriram o imóvel em 19/04/2018, consoante escritura de fls. 18/20. Ou seja, quase cinco anos após a inclusão do executado Luciano no polo passivo, cuja insolvência é evidenciada pela frustação de diversos atos executórios realizados nos autos principais (respectivas fls. 101/103, 106/107, 151, 172 e 185).

Nesse cenário, anoto que o inciso IV do art. 792 do CPC considera fraude à execução a alienação de um bem quando ao tempo da alienação corria contra o devedor demanda capaz de reduzi-lo à insolvência.

Daí decorrem critérios puramente objetivos para a configuração da fraude em questão: o ato de alienação ou oneração do bem e a existência de uma demanda (cognitiva ou executória, já que a lei não especifica) capaz de comprometer o patrimônio do devedor, frustrando a solvência dos créditos reclamados.

Logo, realizada a alienação do imóvel do executado após a sua inclusão no polo passivo da execução, caracterizada a fraude á execução, valendo ressaltar que os autores tinham plena possibilidade de conhecer as obrigações trabalhistas que pesavam sobre o executado Luciano, à época da alienação, na medida em que expressamente consignado na escritura que"Em cumprimento à Recomendação nº 03 do Conselho Nacional de Justiça - CNJ de 15/03/2012, as partes foram cientificadas da possibilidade de obtenção de Certidão Negativa de Débitos Trabalhistas - CNDT instituída pela Lei Federal nº 12.440/2011, expedida gratuita e eletronicamente, diretamente no sítio do Tribunal Superior do Trabalho, no endereço eletrônico (www.tst.jus.br)"(fl. 19, destaquei).

Assim, a ausência de juntada das mencionadas certidões da época da alienação reforça a conclusão sobre a ocorrência de fraude à execução.

Por fim, anoto que recentemente este eg. Colegiado teve a oportunidade de discutir a aplicação da Súmula 375 do col. STJ em casos análogos ao dos presentes autos, no julgamento do APXXXXX-93.2020.5.10.0006, em que prevaleceu o voto prolatado pelo Exmo. Desembargador João Amílcar Pavan, cujos fundamentos peço vênias para adotar como razões de decidir:

"Incialmente é adequado pontuar que a execução trabalhista conta com fontes subsidiárias e sequenciais, com ordem de prevalência claramente estabelecida. A primeira, pelo critério da especificidade, é o conjunto de regras do processo de execução fiscal, como expressamente dispõe o art. 889 da CLT, in verbis:

"Art. 889 - Aos trâmites e incidentes do processo da execução são aplicáveis, naquilo em que não contravierem ao presente Título, os preceitos que regem o processo dos executivos fiscais para a cobrança judicial da dívida ativa da Fazenda Pública Federal."

Já o segundo tem assento no próprio CPC, nos termos de seu art. 15 que determina a incidência de seu regramento de forma supletiva e subsidiária, assim como o art. 769 da CLT. E fixado esse parâmetro inicial passo ao exame da questão.

De plano consigno que adotando o executivo fiscal como fonte primeira, para definir a higidez dos negócios jurídicos realizados pelo devedor, o STJ não fixa como marco inicial para entender caracterizada a fraude à execução a linha temporal proposta no voto condutor, mas sim a sua citação. Em sede de incidente de recursos repetitivos essa proposição foi adotada, inclusive consagrando que na fraude à execução inexiste espaço para cogitar da boa-fé do adquirente, como revelam os seguintes arestos, ad litteram:

"PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO RECURSO ESPECIAL. EMBARGOS DE TERCEIRO. BEM IMÓVEL. PENHORA EM EXECUÇÃO FISCAL. ALIENAÇÃO POSTERIOR À CITAÇÃO DA DEVEDORA. FRAUDE À EXECUÇÃO. PRESUNÇÃO ABSOLUTA. BOA-FÉ. IRRELEVÂNCIA. MATÉRIA PACÍFICA. 1. Conforme tese definida pela Primeira Seção no julgamento do REsp-1.141.990/PR, repetitivo, a simples alienação ou oneração de bens ou rendas, ou seu começo, pelo sujeito passivo por quantia inscrita em dívida ativa, sem a reserva de meios para quitação do débito, gera presunção absoluta de fraude à execução. 2. No caso dos autos, o recurso do Estado do Paraná foi provido para julgar improcedente os embargos de terceiros, tendo em vista situação caracterizadora de fraude à execução e porque é irrelevante eventual boa-fé da parte compradora do bem imóvel. 3. Agravo interno não provido. (AgInt-REsp-1895302/PR, Ac. 1ª Turma, Rel. Min. Benedito Gonçalves, DJe de 13/05/2021)

"6. A jurisprudência do STJ consolidou o entendimento segundo o qual não se aplica à Execução Fiscal a Súmula 375/STJ: "O reconhecimento da fraude à execução depende do registro da penhora do bem alienado ou da prova de má-fé do terceiro adquirente." 7. Assim, no que se refere à Fraude à Execução Fiscal, deve ser observado o disposto no art. 185 do Código Tributário Nacional. Antes da alteração da Lei Complementar 118/2005, pressupõe fraude à Execução a alienação de bens do devedor já citado em Execução Fiscal. Com a vigência do normativo complementar, em 8.5.2005, a presunção de fraude ocorre apenas com a inscrição do débito em dívida ativa."(AgInt-REsp-1909266/PR, Ac. 2ª Turma, Rel. Min. Herman Benjamin, DJe de 16/03/2021)

"PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. FRAUDE À EXECUÇÃO. DESPICIENDA A DISCUSSÃO ACERCA DA BOA-FÉ DO TERCEIRO ADQUIRENTE. INAPLICABILIDADE DA SÚMULA 375/STJ. RESP-1.141.990/PR, REL. MIN. LUIZ FUX, DJE 19.11.2010, JULGADO PELO RITO DO ART. 543-C DO CPC/1973. RESSALVA DO PONTO DE VISTA DO RELATOR. AGRAVO INTERNO DO PARTICULAR A QUE SE NEGA PROVIMENTO. 1. Ao julgar o REsp. 1.141.990/PR, Rel. Min. LUIZ FUX, DJe 19.11.2010, representativo da controvérsia, esta Corte assentou o entendimento de que não se aplica à Execução Fiscal o Enunciado 375 da Súmula de sua jurisprudência, segundo o qual o reconhecimento da fraude à execução depende do registro da penhora do bem alienado ou da prova de má-fé do terceiro adquirente. Sendo assim, há presunção absoluta da fraude à execução quando a alienação é efetivada após a inscrição do débito tributário em Dívida Ativa, ou, em sendo a alienação feita em data anterior à entrada em vigor da LC 118/2005, presume-se fraudulenta quando feita após a citação do devedor, sendo desnecessária, portanto, a discussão acerca da má-fé ou não do adquirente. (AgInt-REsp-1870795/PR, Ac. 1ª Turma, Rel. Min. Napoleão Nunes, DJe de 18/12/2020)

A fraude de execução, sob a ótica do art. 792, inciso IV, do CPC, caracteriza-se, em síntese, por dois fatores objetivos e simultâneos - à época da alienação ou da oneração dos bens existir contra o devedor certa demanda judicial (a), e que tal ação seja capaz de torná-lo insolvente (b), sendo este último conceituado pelo art. 748 do CPC/1973. Já na lição de Araken de Assis, dois requisitos caracterizam a fraude contra o processo executivo, a litispendência e a frustração dos meios executórios. Segundo Manuel Teixeira Filho, "o simples fato, portanto, de haver ação em andamento contra o devedor e, no curso desta, ele vier a vender ou a onerar os seus bens não basta à configuração da fraude em estudo; para que isto ocorra, é imprescindível que o seu patrimônio seja com tal intensidade afetado pelos atos praticados que fique impossibilitado de adimplir com a obrigação, ou seja, se torne insolvente"(in Execução no Processo do Trabalho, São Paulo, 2005, p. 255).

Portanto é despicienda, para a caracterização da fraude, a existência de penhora sobre os bens alienados ou onerados. De igual forma, irrelevante a aferição se o terceiro adquirente agiu ou não com boa-fé, porquanto a presunção de má-fé emana da própria lei. O ato fraudulento deve ocorrer no curso de uma relação processual pendente, independentemente de sua natureza.

A norma processual admite a validade da alienação do bem, e apenas a reputa ineficaz quanto ao processo, isto é, reconhece a produção de seus efeitos entre alienante e adquirente, mas o negócio jurídico não pode ser oposto contra o exequente. Em outras palavras, o bem será de propriedade do terceiro, num exemplo típico de responsabilidade sem débito (HUMBERTO THEODORO JÚNIOR). Contudo, de ordinário exige-se que a disposição daquele bem ocorra quando já em curso uma demanda judicial, para a qual foi regularmente citado o devedor, levando-o à insolvência. E no caso concreto a notificação da empresa ocorreu anos antes da alienação do automóvel.

(...)

Nesses termos, aflora de forma induvidosa a realidade de que sócia do empregador do ora agravado alienou bem capaz de reduzi-lo à insolvência, no curso de ação trabalhista. Aliás, a venda do bem para terceiro ocorreu em 03/10/2018, quando a r. sentença exequenda já transitara em julgado na data de 23/09/2016.

Compreendendo, pois, pela higidez da penhora, nego provimento ao recurso"

Ainda no mesmo sentido, cito mais uma recente decisão desta Eg. Turma assim ementada:

EMBARGOS DE TERCEIRO. BEM IMÓVEL. FRAUDE À EXECUÇÃO. PENHORA. LICITUDE.A fraude à execução capitulada no art. 792, inciso IV, do CPC fica caracterizada quando, ao tempo do negócio jurídico, tramitava contra o devedor ação capaz de reduzi-lo à insolvência. In casu, o executado alienou a terceiro imóvel de sua propriedade quando em curso execução em reclamação trabalhista em seu desfavor. Presença de circunstâncias fáticas capazes de evidenciar o vício do negócio jurídico entabulado, aflorando lícito o gravame do bem pelo Juízo da execução. Recurso conhecido e desprovido (AP XXXXX-59.2021.5.10.0015, TRT da 10ª Região, 2ª Turma, Desembargador relatorJOÃO LUIS ROCHA SAMPAIO, julgado em 30/03/2022, publicado em 05/04/2022).

Nesse cenário, dou provimento ao agravo de petição interposto pelo 1º embargado/exequente da ação principal para julgar improcedentes os embargos de terceiros, declarando a fraude à execução, autorizando a penhora do imóvel objeto da ação.

CONCLUSÃO

Posto isso, conheço do agravo de petição interposto pelo 1º embargado/exequente da ação principal e, no mérito, dou-lhe provimento para julgar improcedentes os embargos de terceiros, declarando a fraude à execução, autorizando a penhora do imóvel objeto da ação, nos termos da fundamentação.

Ante o provimento do recurso, inverto o ônus da sucumbência em desfavor dos autores.

Por tais fundamentos,

ACORDAM os Desembargadores da Egrégia Segunda Turma do Tribunal Regional do Trabalho da Décima Região, em sessão realizada na data e nos termos da respectiva certidão de julgamento, aprovar o relatório, conhecer do agravo de petição e, no mérito, dar-lhe provimento, nos termos do voto do Desembargador Relator. Ementa aprovada.

Brasília (DF), 13 de outubro de 2022. (data do julgamento)

FUNDAMENTAÇÃO

ACÓRDÃO

Cabeçalho do acórdão

Acórdão

Assinatura

Desembargador Mário Macedo Fernandes Caron

Relator (a)

DECLARAÇÃO DE VOTO

Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/trt-10/2570255181/inteiro-teor-2570255182