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2 de Dezembro de 2021

Peça extraída do processo n°XXXXXXX-XX.2021.8.13.0572

Petição - Ação Transporte Aéreo

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EXMO. JUIZ DE DIREITO DO JUIZADO ESPECIAL DA COMARCA DE SANTA BÁRBARA/MG

Processo nº 0000000-00.0000.0.00.0000

NomeE TURISMO LTDA , inscrita no CNPJ nº 26.669.170/0001-57, com sede na Rua dos Aimorés, 1017 - Boa Viagem, Belo Horizonte - MG, 30.140-071, em Belo Horizonte/MG, vem, por meio de seus advogados, com escritório na Rua Martim de Carvalho, nº 723 em Belo Horizonte/MG, vem apresentar CONTESTAÇÃO na ação movida por NomeE OUTROS, devidamente qualificada nos autos, pelo que passa a expor:

I - DOS FATOS

A parte autora adquiriu bilhetes aéreos por meio do site da reclamada NomeMilhas, que seria válido para o trecho de ida e volta Belo Horizonte - Confins (CNF) → Fortaleza (FOR) com embarque nos dias 16/05/2020 e 26/05/2020, em aeronave operada pela Nome.

Aduz a parte autora que solicitou o cancelamento das passagens em razão do quadro pandêmico causado pelo vírus covid 19, relata ainda que já se passou o prazo de 12 meses e não foi restituída.

Ademais, cumpre enfatizar que tais cancelamentos não são da esfera de responsabilidade da NomeMilhas, sendo de total responsabilidade das companhias aéreas.

Sendo assim, a parte autora alega ter sofrido eventuais danos e com isso veio solicitar a reparação.

II - DO MÉRITO

II - DAS MEDIDAS PROVISÓRIAS E SUA CONVERSÃO EM LEI EDITADAS EM FUNÇÃO DA DECRETAÇÃO DO ESTADO DE CALAMIDADE PÚBLICA - DO PEDIDO DE CANCELAMENTO FEITO PELO CONSUMIDOR

A NomeMilhas é uma empresa que presta o serviço de comercialização de passagens aéreas, por meio da intermediação entre os clientes, futuros passageiros, e as companhias aéreas.

A atuação da NomeMilhas se dá em relação aos bilhetes aéreos tão somente, não podendo ser responsabilizada por eventuais problemas relativos às questões de autonomia exclusiva das companhias aéreas, conforme jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, que será apresentada no decorrer do tópico.

No mês de março de 2020, o Brasil foi acometido da pandemia do Covid-19, que gerou e gera repercussões em todos os setores da economia, atingindo, principalmente, o serviço de transporte aéreo e, consequentemente do turismo em geral, uma vez que as fronteiras brasileiras se fecharam e os voos domésticos, em grande parte, foram cancelados.

Com crise do Corona Vírus, houve uma redução de mais de 90% (noventa por cento) da malha aérea brasileira, com consequências econômicas e financeiras gravíssimas para as empresas do setor, dada a diminuição drástica da venda de passagens aéreas.

Em 20 de março de 2020, foi publicado o Decreto Legislativo nº 6/20 que, em seu art. , reconheceu o estado de calamidade pública em função da pandemia de COVID-19.

Art. 1º Fica reconhecida, exclusivamente para os fins do art. 65 da Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2000, notadamente para as dispensas do atingimento dos resultados fiscais previstos no art. da Lei nº 13.898, de 11 de novembro de 2019, e da limitação de empenho de que trata o art. da Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2000, a ocorrência do estado de calamidade pública, com efeitos até 31 de dezembro de 2020, nos termos da solicitação do Presidente da República encaminhada por meio da Mensagem nº 93, de 18 de março de 2020.

Diante da problemática vivida e da iminente probabilidade de falência do mercado de transporte aéreo civil e turismo, foram publicadas as Medida Provisórias nº 925/20 e nº 948/20 que, posteriormente, foram convertidas em lei.

Ademais, verificando-se a permanência das incertezas em relação a pandemia do Covid-19, principalmente no que tange ao mercado da aviação foi publicado uma nova Medida Provisória nº 1.024 que prorroga o prazo de vigência da Lei 14.034/2020 para até 31 de outubro de 2021.

Desta forma, sendo que a relação jurídica em questão está inclusa no escopo das referidas medidas provisórias, necessário a aplicação de seu conteúdo para a correta definição da presente lide.

II.1 - DO REEMBOLSO DAS PASSAGENS ADQUIRIDAS - DA OBRIGAÇÂO EXCLUSIVA DA COMPANHIA AÉREA - DA APLICAÇÃO DA MEDIDA PROVISÓRIA Nº 925/20, CONVERTIDA NA LEI Nº 14.034/20

Devido à pandemia de COVID-19 foi editada a Medida Provisória nº 925/20 que "dispõe sobre medidas emergenciais para a aviação civil brasileira em razão da pandemia da covid-19", ou seja, trata-se de norma direcionada às empresas do setor de aviação civil.

Em seu art. 3º, ela define o prazo para eventual reembolso relacionado à relação jurídica afetada pela realidade da pandemia.

Art. 3º O prazo para o reembolso do valor relativo à compra de passagens aéreas será de doze meses, observadas as regras do serviço contratado e mantida a assistência material, nos termos da regulamentação vigente.

Posteriormente, quando da conversão da medida provisória, resultando na Lei nº 14.034/20, especificou a redação do referido art. 3º incluindo-lhe a expressão "SERÁ REALIZADO PELO TRANSPORTADOR", além de especificar o período em relação ao qual se refere esta disposição, impondo as datas de 19 de março de 2020 e 31 de dezembro de 2020, como início e fim, respectivamente.

Art. 3º O reembolso do valor da passagem aérea devido ao consumidor por cancelamento de voo no período compreendido entre 19 de março de 2020 e 31 de dezembro de 2020 será realizado pelo transportador no prazo de 12 (doze) meses , contado da data do voo cancelado, observadas a atualização monetária calculada com base no INPC e, quando cabível, a prestação de assistência material, nos termos da regulamentação vigente.

Além disso, cumpre ressaltar que o período de vigência da Lei nº 14.034/20 foi prorrogado pela Medida Provisória nº 1.024, de modo que o prazo passou a vigorar até a data de 31 de outubro de 2021.

"Art. 3º O reembolso do valor da passagem aérea devido ao consumidor por cancelamento de voo no período compreendido entre 19 de março de 2020 e 31 de outubro de 2021 será realizado pelo transportador no prazo de 12 (doze) meses, contado da data do voo cancelado, observadas a atualização monetária calculada com base no INPC e, quando cabível, a prestação de assistência material, nos termos da regulamentação vigente.

Da mesma forma, nos § 3º do art. da Lei nº 14.034/20, novamente, remete-se o caráter da obrigação erigida na norma como encargo do TRANSPORTADOR , em caso do consumidor desistir do voo.

§ 3º O consumidor que desistir de voo com data de início no período entre 19 de março de 2020 e 31 de dezembro de 2020 poderá optar por receber reembolso, na forma e no prazo previstos no caput deste artigo, sujeito ao pagamento de eventuais penalidades contratuais, ou por obter crédito de valor correspondente ao da passagem aérea, sem incidência de quaisquer penalidades contratuais, o qual poderá ser utilizado na forma do § 1º deste artigo.

Observa-se que a lei atribui ao TRANSPORTADOR a obrigação do reembolso das passagens aéreas canceladas, tanto por parte do consumidor como da companhia aérea, no período de 19 de março de 2020 a 31 de outubro de 2021 exatamente pelo fato de que é o transportador que tem a responsabilidade de quaisquer eventos que tenham relação com o ambiente aeroportuário, tais como, cancelamentos, alterações, reacomodações e prestação de auxílio material.

Em julgamento de caso análogo aos autos, com o mesmo objeto e tendo a NomeMilhas em litisconsórcio com a companhia aérea no polo passivo, este foi o exato entendimento do magistrado.

Quanto ao reembolso do valor pago pela passagem, aplica-se ao presente caso o disposto na Lei nº 14.034, de 5 de agosto de 2020, advinda da MP 925/20, a qual rege a devolução de valores de passagens aéreas no contexto da pandemia de COVID-19, que deve ser feita nos seguintes termos:

"Art. 3º O reembolso do valor da passagem aérea devido ao consumidor por cancelamento de voo no período compreendido entre 19 de março de 2020 e

31 de dezembro de 2020 será realizado pelo transportador no prazo de 12 (doze) meses, contado da data do voo cancelado, observadas a atualização monetária calculada com base no INPC e, quando cabível, a prestação de assistência material, nos termos da regulamentação vigente.

§ 1º Em substituição ao reembolso na forma prevista no caput deste artigo, poderá ser concedida ao consumidor a opção de receber crédito de valor maior ou igual ao da passagem aérea, a ser utilizado, em nome próprio ou de terceiro, para a aquisição de produtos ou serviços oferecidos pelo transportador, em até 18 (dezoito) meses, contados de seu recebimento. § 2º Se houver cancelamento de voo, o transportador deve oferecer ao consumidor, sempre que possível, como alternativa ao reembolso, as opções de reacomodação em outro voo, próprio ou de terceiro, e de remarcação da passagem aérea, sem ônus, mantidas as condições aplicáveis ao serviço contratado.

§ 3º O consumidor que desistir de voo com data de início no período entre 19 de março de 2020 e 31 de dezembro de 2020 poderá optar por receber reembolso, na forma e no prazo previstos no caput deste artigo, sujeito ao pagamento de eventuais penalidades contratuais, ou por obter crédito de valor correspondente ao da passagem aérea, sem incidência de quaisquer penalidades contratuais, o qual poderá ser utilizado na forma do § 1º deste artigo.

§ 4º O crédito a que se referem os §§ 1º e 3º deste artigo deverá ser concedido no prazo máximo de 7 (sete) dias, contado de sua solicitação pelo passageiro".

Diante disso, as companhias aéreas terão o prazo de 12 meses para efetuar o reembolso do valor relativo à compra de passagens.

(TJRJ. Processo Judicial nº 0004401-03.2020.8.19.0207. Juiz José de Arimatéia Beserra Macedo. Publicado em 22/09/2020)

Esta interpretação da norma jurídica acima colocada está em consonância com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça de que a responsabilidade solidária de agência de viagens e companhias aéreas se dá, tão somente, nos casos de venda de pacotes de viagens , o que não é o caso dos autos :

AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. TRANSPORTE AÉREO. INEXECUÇÃO DO SERVIÇO. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. AGÊNCIA DE TURISMO. ILEGITIMIDADE PASSIVA AD CAUSAM RECONHECIDA.

1. A jurisprudência deste Tribunal admite a responsabilidade solidária das agências de turismo apenas na comercialização de pacotes de viagens.

2. No caso, o serviço prestado pela agência de turismo foi exclusivamente a venda de passagens aéreas, circunstância que afasta a sua responsabilidade pelo efetivo cumprimento do contrato de transporte aéreo e autoriza o reconhecimento da sua ilegitimidade para figurar no polo passivo da ação indenizatória decorrente de cancelamento de voo.

3. Agravo regimental não provido. (AgRg no REsp 1453920/CE, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA,

TERCEIRA TURMA, julgado em 09/12/2014, DJe 15/12/2014)

CIVIL. PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. TRANSPORTE AÉREO. INEXECUÇÃO DOS SERVIÇOS PRESTADOS. NÃO OCORRÊNCIA DA RESPONSABILIDADE OBJETIVA E SOLIDÁRIA DA AGÊNCIA DE TURISMO. CARACTERIZAÇÃO DA CULPA EXCLUSIVA DE TERCEIRO. INCIDÊNCIA DAS HIPÓTESES PREVISTAS NO § 3º, I, II, DO ART. 14 DO CDC. ILEGITIMIDADE PASSIVA AD CAUSAM RECONHECIDA.

1. No pleito em questão, os autores contrataram com a empresa de turismo a compra e venda de passagens aéreas Brasília - Fortaleza, sendo que tal serviço, como restou demonstrado, foi regularmente prestado. Comprovado, também, que os autores não puderam utilizar os bilhetes da empresa TRANSBRASIL, em razão desta interromper seus serviços na época marcada, não efetuando, assim, os vôos programados.

2. Não se tratando, in casu, de pacote turístico, hipótese em que a agência de viagens assume a responsabilidade de todo o roteiro da viagem contratada, e tendo, portanto, inexistido qualquer defeito na prestação de serviço pela empresa de viagens, posto que as passagens aéreas foram regularmente emitidas, incide, incontroversamente, as normas de exclusão de responsabilidade previstas no art. 14, § 3º, I e II, do CDC. Reconhecimento da ilegitimidade passiva ad causam da empresa de viagens, ora recorrente.

3. Recurso conhecido e provido. (REsp 758.184/RR, Rel. Ministro JORGE SCARTEZZINI, QUARTA TURMA, julgado

em 26/09/2006, DJ 06/11/2006, p. 332)

Desta forma, as obrigações regidas pela Medida Provisória nº 925/20 convertida na Lei nº 14.034/20 que criam um cenário excepcional para o sistema de aviação civil para o período de 19 de março de 2020 a 31 de outubro de 2021 são direcionadas às empresas de transporte aéreo, portanto, a NomeMilhas não possui nenhuma responsabilidade pelo reembolso, vez que, conforme já demonstrado, a NomeMilhas apenas intermedeia a venda de passagens aéreas.

Portanto, caso seja determinado o reembolso do valor das passagens, deve ser a companhia aérea obrigada ao reembolso e não a agência de turismo 0000Milhas.

II.2 - DA APLICAÇÃO DA MEDIDA PROVISÓRIA Nº 948/20, CONVERTIDA NA LEI Nº 14.046/20

Posteriormente à Medida Provisória nº 925/20, convertida na Lei nº 14.034/20,foi edita a Medida Provisória nº 948/20 que, posteriormente, foi convertida na Lei nº 14.046/20 que"dispõe sobre o adiamento e o cancelamento de serviços, de reservas e de eventos dos setores de turismo e de cultura em razão do estado de calamidade pública reconhecido pelo Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020, e da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente da pandemia da Covid-19".

Tanto a medida provisória quanto a lei resultado de sua conversão, ambas em seus respectivos art. 3º, determinam a aplicação de seu conteúdo às agências de turismo.

Medida Provisória nº 925/20

Art. 3º O disposto no art. 2º se aplica a:

I - prestadores de serviços turísticos e sociedades empresárias a que se refere o art. 21 da Lei nº 11.771, de 17 de setembro de 2008; e

Lei nº 14.046/20

Art. 3º O disposto no art. 2º desta Lei aplica-se a:

I - prestadores de serviços turísticos e sociedades empresárias a que se refere o art. 21 da Lei nº 11.771, de 17 de setembro de 2008; e

Lei nº 11.771/08

Art. 21. Consideram-se prestadores de serviços turísticos, para os fins desta Lei, as sociedades empresárias, sociedades simples, os empresários individuais e os serviços sociais autônomos que prestem serviços turísticos remunerados e que exerçam as seguintes atividades econômicas relacionadas à cadeia produtiva do turismo:

(...)

II - agências de turismo;

Desta forma, caso seja ultrapassado o tópico anterior, é necessário que se entenda pela aplicação da Medida Provisória nº 948/20, convertida na Lei nº 14.046/20.

II.2.1 - DA IMPOSSIBILIDADE DE RESTITUIÇÃO EM ESPÉCIE PARA A NATUREZA DA ATIVIDADE DA NomeMILHAS - DA PLENA POSSIBILIDADE DE DISPONIBILIZAÇÃO DE CRÉDITO - DOS PRAZOS PARA A DISPONIBILIZAÇÃO DE CRÉDITO

O art. 2 Lei nº 14.046/20 dispôs sobre o tratamento a ser dada às relações jurídicas no âmbito do turismo e da cultura durante o período em que perdurar o estado de calamidade pública.

Art. 2º Na hipótese de adiamento ou de cancelamento de serviços, de reservas e de eventos, incluídos shows e espetáculos, até 31 de dezembro de 2021 , em decorrência da pandemia da covid-19, o prestador de serviços ou a sociedade empresária não será obrigado a reembolsar os valores pagos pelo consumidor, desde que assegure: (Redação dada pela Medida Provisória nº 1.036, de 2021)

I - a remarcação dos serviços, das reservas e dos eventos adiados; ou

II - a disponibilização de crédito para uso ou abatimento na compra de outros serviços, reservas e eventos disponíveis nas respectivas empresas.

[...]

§ 4º O crédito a que se refere o inciso II do caput poderá ser utilizado pelo consumidor até 31 de dezembro de 2022. (Redação dada pela Medida Provisória nº 1.036, de 2021)

[...]

§ 6º O prestador de serviço ou a sociedade empresária deverá restituir o valor recebido ao consumidor até 31 de dezembro de 2022, somente na hipótese de ficar impossibilitado de oferecer a remarcação dos serviços ou a disponibilização de crédito referidas nos incisos I e II do caput. (Redação dada pela Medida Provisória nº 1.036, de 2021)

Ou seja, apenas caso seja impossível, dada à natureza do serviço, a remarcação, a disponibilização de crédito ou outro acordo que pudesse ser formalizado, nasce o direito do consumidor à restituição em espécie.

Perceba que este entendimento fica ainda mais claro quando se consulta o conteúdo da Lei nº 14.046/20, resultado da conversão da já referida medida provisória.

Art. 2º Na hipótese de adiamento ou de cancelamento de serviços, de reservas e de eventos, incluídos shows e espetáculos, até 31 de dezembro de 2021, em decorrência da pandemia da covid-19, o prestador de serviços ou a sociedade empresária não será obrigado a reembolsar os valores pagos pelo consumidor , desde que assegure: (Redação dada pela Medida Provisória nº 1.036, de 2021)

I - a remarcação dos serviços, das reservas e dos eventos adiados; ou

II - a disponibilização de crédito para uso ou abatimento na compra de outros serviços, reservas e eventos disponíveis nas respectivas empresas.

(...)

§ 6º O prestador de serviço ou a sociedade empresária deverá restituir o valor recebido ao consumidor até 31 de dezembro de 2022, somente na hipótese de ficar impossibilitado de oferecer a remarcação dos serviços ou a disponibilização de crédito referidas nos incisos I e II do caput . (Redação dada pela Medida Provisória nº 1.036, de 2021)

A conversão da medida provisória em lei suprimiu a possibilidade da realização de acordo de outra natureza, entretanto, deu relevo à questão de que a restituição em espécie apenas se dará na hipótese de, dada a essência da atividade do empresário, não foi possível a remarcação ou a disponibilização de crédito.

Sendo a atividade da NomeMilhas a intermediação de vendas de passagens emitidas por meio de programas de fidelidade não é possível a remarcação, pois isto é de plena autonomia das companhias aéreas, entretanto, a disponibilização de crédito é plenamente possível e de fácil engendramento, especialmente, pelo fato de que a plataforma da NomeMilhas é totalmente virtual, portanto, a disponibilidade de crédito é medida que se impõe.

Ainda, na Lei nº 14.046/20 restou determinado o prazo para a validade dos créditos disponibilizados até 31 de dezembro de 2022.

Art. 2º Na hipótese de adiamento ou de cancelamento de serviços, de reservas e de eventos, incluídos shows e espetáculos, até 31 de dezembro de 2021, em decorrência da pandemia da covid-19, o prestador de serviços ou a sociedade empresária não será obrigado a reembolsar os valores pagos pelo consumidor , desde que assegure: (Redação dada pela Medida Provisória nº 1.036, de 2021)

(...)

II - a disponibilização de crédito para uso ou abatimento na compra de outros serviços, reservas e eventos, disponíveis nas respectivas empresas; ou

(...)

§ 4º O crédito a que se refere o inciso II do caput poderá ser utilizado pelo consumidor até 31 de dezembro de 2022. (Redação dada pela Medida Provisória nº 1.036, de 2021)

Portanto, a legislação editada com a finalidade de tutelar as relações jurídicas afetadas no âmbito do setor de turismo determina que a solução seja a disponibilização de crédito a ser utilizado em até 31 de dezembro de 2022.

II.4 - IMPROCEDÊNCIA DO PEDIDO DE REPETIÇÃO DO INDÉBITO. AUSÊNCIA DE MÁ- FÉ. EVENTUALMENTE: RESTITUIÇÃO DE FORMA SIMPLES.

A simples cobrança de valores reputados indevidos pelo Consumidor não é capaz de ensejar a repetição do indébito, sob pena de enriquecimento ilícito, conduta vedada pelo ordenamento jurídico, nos termos do art. 884, CC.

Neste contexto, a comprovação de má-fé é pressuposto necessário para cobrança e recebimento indevidos, tanto na norma consumerista (art. 42), quanto o Código Civil (art. 940), não sendo esta a hipótese dos autos. Conforme demonstrado, a conduta da agência de turismo demandada em momento algum desrespeitou as normas reguladoras de sua atividade, não tendo agido, em momento algum, de má-fé.

O STF, por sua vez, ao tratar do assunto da repetição do indébito, entende que a cobrança de boa-fé, ainda que excessiva, não enseja as sanções do Código Civil. Veja-se o teor da Súmula nº 159, editada quando da vigência do 00.000 OAB/UF, equivalente ao art. 940, do 00.000 OAB/UF:

Súmula nº 159, STF: Cobrança excessiva, mas de boa-fé, não dá lugar às sanções do art. 1531 do Código Civil.

Portanto, inexistente má-fé, sendo incabível a repetição dos valores em dobro. Na remotíssima hipótese de V. Exa entender pela restituição de quaisquer valores ao Autor, o que se admite apenas ad argumentandum, que essa seja de forma simples, jamais dobrada, ante a boa-fé demonstrada nos autos, alertando-se que eventual procedência deste pedido implicará enriquecimento ilícito da parte autora, vedado pelo ordenamento jurídico pátrio (art. 884, CC).

IV - DA INEXISTÊNCIA DE DANOS MORAIS E OUTRAS PENALIDADES

A parte autora pleiteia indenização por danos morais, supostamente ter sofrido abalo emocional em virtude do cancelamento por parte da transportadora.

Conforme explanado ao longo desta contestação, a pandemia do COVID-19 gerou a impossibilidade de prestação dos serviços de transporte aéreos no Brasil, bem como resultou em um cancelamento em massa das passagens aéreas previamente comercializadas no país.

O impacto negativo provocado pela pandemia do Corona Vírus foi e continua sendo sem precedentes, não só na saúde, mas em todas as demais áreas, como a econômica, na social e, também, de forma extremamente negativa, no setor de turismo e transportes aéreos.

Os fatos expostos pela parte autora não caracterizam, por si só, hipótese de danos morais, uma vez que se trata de um mero descumprimento contratual.

Ainda que consideremos que a inexecução do contrato resulta em dano moral. No caso dos autos, não restará configurado uma vez que o cancelamento do contrato ocorreu em virtude de força maior ou caso fortuito, já que a Pandemia não era algo previsto ou imaginável.

Nos termos do artigo 186 do Código Civil, é indispensável para que ocorra o dano moral, o ato ilícito causado pelo agente, a ocorrência de um dano e nexo de causalidade entre o dano e o comportamento do agente. A obrigação de indenizar é resultado desta conduta antijurídica praticada pelo agente.

Por outro lado, o artigo 393 do Código Civil, deixa expresso que em casos de força maior ou caso fortuito, como é o Caso da Pandemia do COVID - 19, não responderá o agente por danos ou prejuízos causados.

Reforça este entendimento a MP 948, convertida na lei 14.046/20:

MP 948: Art. 5º As relações de consumo regidas por esta Medida Provisória caracterizam hipóteses de caso fortuito ou força maior e não ensejam danos morais, aplicação de multa ou outras penalidades, nos termos do disposto no art. 56 da Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990.

Lei 14.046/20 Art. Eventuais cancelamentos ou adiamentos dos contratos de natureza consumerista regidos por esta Lei caracterizam hipótese de caso fortuito ou de força maior, e não são cabíveis reparação por danos morais, aplicação de multas ou imposição das penalidades previstas no art. 56 da Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990 , ressalvadas as situações previstas no § 7º do art. e no § 1º do art. desta Lei, desde que caracterizada má-fé do prestador de serviço ou da sociedade empresária.

O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, também, vai de encontro ao entendimento que a inexecução de contratos durante o período de pandemia, por caracterizar a força maior, não são passíveis de condenação em danos morais:

APELAÇÃO. INSTRUMENTO PARTICULAR DE CESSÃO DE DIREITOS. COMPRA E VENDA DE IMÓVEL. PROCURAÇÃO EM CAUSA PRÓPRIA (IN REM SUAM). OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS NÃO ADIMPLIDAS. IMPOSTOS. TAXAS. IPTU. TLP. INSCRIÇÃO EM CADASTRO DE INADIMPLENTES. COISA JULGADA. ALCANCE. DISPOSITIVO. SENTENÇA. DANO MORAL NÃO CONFIGURAÇÃO. 1. Quando a cessão de direitos realizada entre as partes é existente, válida e eficaz, dela decorre o dever do cessionário de quitar o saldo devedor, transferir o imóvel para si, além de pagar os impostos e as taxas correspondentes. Todavia, quando o cedente outorga, ao mesmo tempo, procuração em causa própria à terceira pessoa que não o cessionário, sobre o mesmo imóvel, não se sabe qual dos dois negócios jurídicos firmados prepondera sobre o outro.

2. A procuração em causa própria (in rem suam) consiste em negócio jurídico translativo de direitos, de caráter irrevogável, mesmo no caso de morte de qualquer das partes. Distingue-se, portanto, do instrumento de mandato regular, nos termos dos arts. 653 e 685 do Código Civil. Desse modo, é firmada com caráter irretratável, isenta de prestação de contas e confere ao outorgado poderes especiais de livre disposição do bem, conforme seus interesses.

3. O inadimplemento contratual não é hábil a ensejar reparação por danos morais, por inexistir mácula à esfera íntima passível de indenização, tratando-se de meros aborrecimentos.

4. Este voto foi elaborado em pleno cerco sanitário - quarentena - provocado pela pandemia da doença covid-19. O Poder Judiciário, nesta difícil fase existencial da

humanidade, precisa rever não só o conceito de dano moral, construído com excesso de voluntarismo nas últimas décadas, mas, também, os valores fixados em alguns casos. Não é justo nem é razoável impor ou manter condenações por dano moral para qualquer átimo de sensibilidade. Negócios são atividades da vida cotidiana e inadimplência contratual não gera, como regra, dano moral.

5. Haverá, como decorrência desta pandemia, um aumento exponencial dos litígios por inadimplência contratual e não só. O Poder Judiciário, como nunca, será chamado para impedir que o corona vírus transforme a sociedade em uma barbárie. É preciso conter o ânimo de se ganhar reparação econômica por qualquer desconforto, por qualquer desvio de tempo útil, por qualquer intolerância. E quando for cabível e inafastável a reparação, os valores deverão ser fixados de maneira razoável, proporcional, parcimoniosa, considerando, também, o contexto da economia brasileira e mundial e não os valores sem critérios dos pedidos que chegam aos Juízes. 6.Recurso da autora conhecido e não provido. Recurso da terceira ré provido. ( Acórdão 1246280 , 07018205320198070009, Relator: DIAULAS COSTA RIBEIRO, 8a Turma Cível, data de julgamento: 29/4/2020, publicado no DJE: 13/5/2020. Pág.: Sem Página Cadastrada.)

Como bem relatado pelo Des. Dr. Nome:

Este voto foi elaborado em pleno cerco sanitário - quarentena - provocado pela pandemia da doença covid-19. O Poder Judiciário, nesta difícil fase existencial da humanidade, precisa rever não só o conceito de dano moral, construído com excesso de voluntarismo nas últimas décadas, mas, também, os valores fixados em alguns casos. Não é justo nem é razoável impor ou manter condenações por dano moral para qualquer átimo de sensibilidade. Negócios são atividades da vida cotidiana e inadimplência contratual não gera, como regra, dano moral.

Este, também, é o entendimento do Superior Tribunal de Justiça:

AGRAVO INTERNO. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. COMPRA E VENDA. ATRASO NA ENTREGA DE IMÓVEL EM CONSTRUÇÃO. DANO MORAL.INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 7/STJ.

1. O simples descumprimento contratual, por si só, não é capaz de gerar danos morais, que é necessária a existência de uma consequência fática capaz de acarretar dor e sofrimento indenizável por sua gravidade. (AgInt no REsp 1637120 / RO Agravo Interno no Recurso Especial 2016/0294055-8)

Deste modo, qualquer penalidade em face da NomeMilhas fere a proteção vinculada pela Lei 14.046/20 e coloca em risco todo o mercado de consumo, afetando não só a empresa, mas também a sociedade, consumidores e empregados.

Portanto, pleiteia-se pela improcedência do pedido de indenização por danos morais e de eventuais penalidades, tendo em visto a peculiaridade do caso.

V- DA CONCLUSÃO

Por todo o exposto, requer sejam considerados improcedentes os pedidos autorais. Em caso de procedência, requer seja reconhecida a obrigação da companhia aérea

na obrigação de fazer (disponibilização de voucher) e/ou estorno, nos termos da Lei 14.034/2020.

Em caso de condenação da NomeMilhas, necessário a aplicação da Lei nº 14.046/20, determinando a disponibilização de crédito a ser utilizado pelo autor em até dia 31/12/2022.

A NomeMilhas requer provar o alegado por todos os meios de prova em direito admitidos, principalmente, a prova documental e testemunhal.

Requer, ainda, o cadastramento do patrono da ré, NomeOAB/MG para fins de publicação sob pena de nulidade.

.

Nestes termos, pede deferimento.

Belo Horizonte, 16 de setembro de 2021.

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