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23 de Fevereiro de 2024
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    Barbie e o consumismo: A importância do conteúdo oferecido às crianças

    Publicado por Justificando
    há 6 anos

    Imagem: Netflix

    Essa semana saiu na Folha de São Paulo uma matéria sobre as Bonecas Empoderadas, na qual a docente de Harvard Jil Lepore crítica o sexismo existente em tais bonecas. Embora as marcas – com a melhor das intenções – tragam na boneca a mulher-trabalhadora, ainda assim estigmatizam e cultuam o corpo perfeito e a mulher ideal.

    Lendo a reportagem lembrei-me do seriado que assisti com a minha prima de cinco anos no Netflix: Barbie e a Casa dos Sonhos. Neste seriado, a Barbie vive com suas irmãs em uma mansão gigantesca (tão enorme que a própria Barbie em um episódio se perde dentro dela) e desfruta inúmeras aventuras com o Ken e suas amigas. Até aí nada demais, tudo “normal”. Logo no primeiro episódio para a minha (não) surpresa, tem-se retratado a competição – dita normal – existente entre as mulheres, onde Thereza (amiga de Barbie) faz de tudo para que a Barbie se de mal e ela possa ficar com o Ken – como já afirmei acima, até aí tudo “normal”.

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    O seriado, assim como a proposta das Bonecas Empoderadas, tenta tirar a pegada machista e estigmatizadora da Barbie, de maneira que a demonstra como uma mulher forte e trabalhadora, porém não consegue se livrar por completo e acaba cometendo algumas gafes. Se não me engano, no quarto episódio que assisti o enredo me chamou ainda mais a atenção. Nesse episódio, Barbie estava chateada, oportunidade em que para resolver o seu problema decidiu ir às compras, pois assim (ao invés de enfrentar o problema e buscar por uma solução) “melhoraria” seu dia.

    Chegando em casa com inúmeras sacolas, Barbie tenta entrar no seu ENORME closet (acreditem quando eu digo enorme) com as roupas novas, porém é surpreendida por seu armário falante dizendo que a capacidade máxima havia sido atingida. Arrasada, Barbie fica contrariada com o afirmado pelo armário e é aconselhada pelos seus amigos a doar suas roupas. – Menos mal, pensei, irão maximizar agora às crianças a importância de não ser consumista e reconhecer a existência do outro. Entretanto, Barbie resolve vendê-las e começa a tentar se desfazer das roupas. Ao se deparar com cada peça de vestuário, uma lembrança de um momento vivido emerge, de modo que não consegue desapegar delas.

    O enredo continua. As amigas de Barbie a ajudam a se desfazer das roupas, e, finalmente, conseguem encaixotar tudo para enviar à um colecionador de roupas de Barbie (atentem-se para o fato que as roupas serão vendidas, não doadas e não reutilizadas). Entretanto, quando Barbie estava prestes a enviar pelo correio, Ken surge e afirma que resolveu o problema dela.

    Como demonstra o seriado, Ken é um homem apaixonado por Barbie e muito inteligente. Foi ele quem projetou a casa de Barbie e cuida de toda as questões tecnológicas e problemáticas (representando o homem perfeito para “cuidar” de Barbie). Ken então afirma que aumentou a capacidade do armário (SIM, ELE AUMENTOU A CAPACIDADE DE UM ARMÁRIO QUE JÁ POSSUÍA MILHARES DE ROUPAS), de modo que não seria mais necessário para Barbie vender os seus “bens”. O então episódio termina com Barbie agradecida e Ken como o salvador de seu dia.

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    Há inúmeros pontos que me incomodam nesse episódio e no seriado como um todo, porém, irei me deter ao ponto que mais me estarreceu nisto tudo, qual seja o fato de Barbie não conseguir enxergar o exagero no qual vive, e, mais, fomentar nas meninas o consumismo, o egoísmo e o culto a bens materiais extremamente desnecessários. O nosso planeta vive em tempos de excesso e escassez, temos excesso de lixo e escassez de comida (apesar do seu excesso), temos pessoas que vivem no excesso da fartura e outras na escassez do vestuário e do alimento, excesso de poluição, escassez de recursos naturais; excesso de informações, escassez de intimidade; excesso de meios de comunicação, escassez de diálogo.

    O episódio poderia ter sido uma bela oportunidade de expor às crianças a importância de preservar e cuidar da natureza, de enfrentar os problemas e saber lidar com eles (e não correr para o shopping center, como se isso fosse resolver alguma coisa), de saber diferenciar e entender o ser e o ter, das problemáticas do egoísmo; da desimportância dos bens materiais, quando comparados às lembranças dos momentos vividos; ou, até mesmo, o consumo sustentável, que fomenta o reciclo de roupas e sapatos.

    Talvez tenhamos que ser ainda mais cuidadosos e dar mais atenção e qualidade aos programas infantis apresentados às crianças, pois com eles também se ensina e se aprende alguma coisa. Mesmo que não tenham intenção explícita de ensinar, eles colaboram na formação subjetiva, produzindo sentidos e significados em torno do que se entende por normal, anormal, certo, errado, aceitável e inaceitável, bonito e feio. As crianças reproduzem (e reinventam na brincadeira) comportamentos que são a elas apresentados, de modo que podemos aproveitar o ensejo para fomentar um pensamento crítico livre de pré-conceitos e com atenção às nossas concepções de amor, de felicidade, de meio ambiente, de consumo e, sobretudo, de infância.

    Luíza Richter é advogada e especializanda em Ciências Penais

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