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22 de Julho de 2024

Advocacia virou "Bico"

A quem duvidar de tudo que for exposto neste texto, convido ir conhecer a prática advocatícia em qualquer cidade do Brasil.

Publicado por Hertúlio Medeiros
há 5 anos

Provavelmente o que descreverei nesse texto não seja bem o que um vestibulando que pretende cursar direito ou acadêmico de direito deva ler para seguir a carreira jurídica adiante. Entretanto, é o que eu gostaria de ter encontrado e lido antes de ter seguido por esse caminho. Talvez eu não tivesse desistido de fazer o que queria, pois sou meio cabeça dura com as coisas, mas iria tendo uma outra consciência da realidade. Na forma de um desabafo profissional (e não pessoal), exponho em breves e objetivas palavras a verdade do mercado para quem pretende viver da advocacia.

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Ao entrar na universidade federal do meu Estado para cursar direito, tive a consciência inicial de que iria advogar. Conduzido pela cólera das injustiças que havia vivido, decidi seguir essa jornada abandonando um outro curso superior no meio para dar outros rumos a minha vida. Naquela ocasião, acreditei que seria o melhor caminho. Ademais, vislumbrei um mundo que tenderia a valorizar a figura do advogado com as crescentes investidas contra os direitos e anseios mínimos do povo, pois, onde há "tretas" não há de faltar trabalho para um advogado.

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Lerdo engano!

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De fato, há muitas contendas pelo Brasil. Inobstante, não atentei para o fato de que se havia ou não muitas pessoas com tretas e condições para pagar para resolvê-las também. Em outra vertente, ninguém contesta ou mendiga ajuda de um médico, por mais a beira da morte que se esteja, pois qualquer miserável bem sabe que só terá atendimento se pagar. Por outro lado, é muito corriqueiro ver pessoas procurando advogados para "tirar uma dúvida", ou pedir uma "orientação". Quando não damos ou indicamos a defensoria pública para tal, somos detratados (de várias maneiras).

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Como se não bastasse o vilipêndio por parte de terceiros, há embustes com OABs (e não advogados) que destroçam a imagem da profissão com condutas aviltantes, cobrando honorários irrisórios, prestando serviços sem um mínimo de embasamento técnico e preparo adequado, mendigando clientes em portas de delegacias, fóruns e presídios, dentre outras mazelas (estou resumindo; a lista é enorme). Antes que alguém pergunte onde está a OAB para fiscalizar a conduta desses patifes engravatados, eu respondo: ocupada cobrando caríssimas anuidades, atentas a imbróglios fúteis, porém com forte apelo midiático só para aparecer e fingir que trabalha em prol da classe e realizando cerimônias inócuas por pura soberba e formalismo barato.

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No primeiro curso de prática advocatícia que fiz, um professor (advogado voluntário para recepcionar os recém-formados na Escola de Advocacia) confessou-me em particular no fim de uma aula que não existe um único escritório de advocacia que sobreviva se não tiver agenciadores de causa. Ora, mas não é contra o Código de Ética ter intermediários para captar ações? Pesquisando um pouco mais, descobri que as "parcerias" com outros profissionais mascaram o pagamento de comissão em cada causa já tão mal paga que um advogado ganha. Indo um pouco mais, conheci uma advogada com um escritório muito bem localizado na cidade e com mais de 30 anos de advocacia, pondo o ofício do direito em segundo plano em relação a outros labores, pois, segundo ela, precisava de algo rentável e fixo para se manter.

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Parei por aqui e não quis saber mais. Diante de um caos profissional desse, o que alguém que se dá ao respeito e se valoriza faz? Vai para as filas dos concursos públicos ou para o outro estresse mal remunerado que é o magistério. Pensa em fazer concurso? Responda o seguinte: Foi fácil fazer vestibular e exame de ordem? Se respondeu não, prepare para a enxaqueca muito pior que vai ter se seguir a vida de concurseiro. Como se não bastasse o estresse pessoal, gastos financeiros com materiais de estudo e abnegações de vida para dedicar-se, deparamo-nos com concursos sendo constantemente fraudados (a famosa operação gabarito defraudou vários concursos pelo Brasil), vagas com nomes marcados (principalmente os da magistraturas e promotorias) e provas pessimamente mal elaboradas (dificilmente o gabarito preliminar é o mesmo do definitivo).

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Nada contra quem se limita a viver preso a um contracheque sem perspectiva de ganhar mais, iludido por uma falsa sensação de estabilidade financeira como se tudo que realmente fosse precisar estivesse ao seu alcance e fazendo de tudo para trabalhar menos, tentando sempre chegar tarde e sair cedo do trabalho. Nada contra quem gosta de ensinar, mormente com essa reforma trabalhista e em um país como o Brasil que vilipendia tão desumanamente seus professores. Juro que não tenho nada contra. Só não me vejo espontaneamente nisso.

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Advocacia virou BICO. Plano B da vida. Fonte de renda secundária para quem tem uma outra profissão em primeiro plano. Nunca conheci, até durante a vida acadêmica em direito, um único advogado que fosse só advogado. Ou é advogado e professor (esmagadora maioria), ou advogado e coach/palestrante/escritor, ou advogado e empresário, ou advogado e empreiteiro, ou advogado e servidor público (quando há impedimento em função do cargo, abandonam a advocacia), ou advogado e freelancer, ou advogado e gigolô (depende do cônjuge - e não "conje"- para complementar a renda), ou advogado e michê (Cadê o respeito ao art. 11, inciso IV da Lei 8.906/94 (Estatuto da Advocacia)? Pergunte para a OAB!), dentre outros. A advocacia, por si só, não está "bancando" ninguém.

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Não vou dar conselhos, pois se tivesse e fossem bons, eu estaria fazendo um curso online acerca disso e vendendo na net como muitos fazem. Portanto, gostaria de findar esse texto esclarecendo que não sou um advogado frustrado, mas sim um advogado que NUNCA prestou uma consulta jurídica de graça; que NUNCA repassou comissão das causas à terceiros por indicação; que NUNCA aviltou os próprios honorários, cobrando menos do que está na tabela (o que já é pouco a meu ver) e que NUNCA contratou agenciadores de causas para captar clientes. Inobstante, para viver dignamente e com a cabeça erguida, tive que usar todo conhecimento jurídico adquirido ao longo desses poucos anos de estudo, entre graduação, pós-graduação e cursos extras, para empreender e não só advogar.

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31 Comentários

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Rafael Rocha
5 anos atrás

Parabéns Dr Hertúlio, seu texto é a expressão exata do mercado jurídico. Só quem milita diuturnamente como o senhor, eu, e muitos outros sabem disso. A maioria vem da ilusão.

Em meio a toda essa destruição da advocacia, sou um, tal qual o senhor, que não dá um segundo de consulta gratuita, e não avilto um centavo de qualquer honorário.

E vou rompendo bem.

Parabéns. continuar lendo

Medson Rodrigues PRO
5 anos atrás

Perfeito até nas entrelinhas continuar lendo

Parabéns. A OAB é a grande culpada. Mas os advogados precisam, coletiva ou individualmente, exigir o cumprimento do Estatuto. Quando advoguei, me frustrei muito com a tal "Comissão de Prerrogativas". Os tais "desagravos" são apenas esperneios sem qualquer efeito prático. continuar lendo

Paulo Rós PRO
5 anos atrás

Concordo Dr, mas não podemos deixar de verificar que, hoje, não há profissão que não sofra com , assédio de colegas com os clientes, disputa e oferta de preços que nos rebaixam e nos deixam sem valor, infelizmente enquanto as faculdades de péssima qualidade, não forem extintas e também o MEC continuar a liberar licenças para novas, estaremos sujeitos a tudo isso e muito mais, somos em muitos advogados no mercado, bons são poucos, o problema são os sem ética, sem solidez, aqueles que atende o cliente somente uma vez e tira tudo que o pobre possui, dai nossa profissão que fica taxada como , profissão de malandros infelizmente, infelizmente o saber jurídico não conta muito, pois no google, PJE, PROJUDI e outros sistemas eletrônicos dos tribunais, funciona freneticamente o copia e cola, ou seja acesso a todos, dias atrás recebi a seguinte proposta de uma cliente, Dr. se eu montar a petição o Dr. faz mais barato os honorários? continuar lendo

Demilson Franco
5 anos atrás

Brilhante texto. Sua forma de escrever demonstra invejável afinidade com as palavras Doutor. Certamente não lhe falta conhecimento jurídico e competência. Desejo felicidades. continuar lendo

Davi D'lírio
5 anos atrás

É a falência da profissão, anteriormente vista como tão nobre agora é rechaçada com espúrio. Grande parte dos advogados possuem uma profissão secundária porque não dá para se manter apenas da advocacia. Por isso vemos, tantos advogados com profissões secundárias como: motorista de Uber, revendedor da Hinode, com comércios de qualquer ramo, algo que possa flexibilizar seu horário, e assim dividir com atividades diversas. continuar lendo

aparentemente, não é só a advocacia. diz que o uber tem mais engenheiros que o crea. continuar lendo